1
2
HELENA
MACHADO DE ASSIS
Patrocnio:
Credenciada pela CEMIG para construo de linhas de baixa e alta tenso - Padro
CEMIG - Montagem de Cabines - Alternativa - Instalaes Eltricas em Geral -
Eletrificao Rural e Urbana.
Rua Francisco Ceclio Mendona, 254  Bairro Joo Paulo II - Caixa
Postal 145 - Par de Minas CEP 35661-053 - MG - Brasil - Telefax (37)
3232 37 00
Conhea nosso Patrocinador:
www.virtualbooks.com.br/eletrocamp
*********************************
www.virtualbooks.com.br
3
HELENA
MACHADO DE ASSIS
Captulo I
O conselheiro Vale morreu s 7 horas da noite de 25 de abril de 1859.
Morreu de apoplexia fulminante, pouco depois de cochilar a sesta,  segundo
costumava dizer,  e quando se preparava a ir jogar a usual partida de
voltarete em casa de um desembargador, seu amigo. O Dr. Camargo,
chamado  pressa, nem chegou a tempo de empregar os recursos da cincia;
o padre Melchior no pde dar-lhe as consolaes da religio: a morte fora
instantnea.
No dia seguinte fez-se o enterro, que foi um dos mais concorridos que
ainda viram os moradores do Andara. Cerca de duzentas pessoas
acompanharam o finado at  morada ltima, achando-se representadas entre
elas as primeiras classes da sociedade. O conselheiro, posto no figurasse em
nenhum grande cargo do Estado, ocupava elevado lugar na sociedade, pelas
relaes adquiridas, cabedais, educao e tradies de famlia. Seu pai fora
magistrado no tempo colonial, e figura de certa influncia na corte do ltimo
vice-rei. Pelo lado materno descendia de uma das mais distintas famlias
paulistas. Ele prprio exercera dois empregos, havendo-se com habilidade e
decoro, do que lhe adveio a carta de conselho e a estima dos homens pblicos.
Sem embargo do ardor poltico do tempo, no estava ligado a nenhum dos
dois partidos, conservando em ambos preciosas amizades, que ali se acharam
na ocasio de o dar  sepultura. Tinha, entretanto, tais ou quais idias
polticas, colhidas nas fronteiras conservadoras e liberais, justamente no ponto
em que os dois domnios podem confundir-se. Se nenhuma saudade partidria
lhe deitou a ltima p de terra, matrona houve, e no s uma, que viu ir a
enterrar com ele a melhor pgina da sua mocidade.
A famlia do conselheiro compunha-se de duas pessoas: um filho, o Dr.
Estcio, e uma irm, D. rsula. Contava esta cinqenta e poucos anos; era
4
solteira; vivera sempre com o irmo, cuja casa dirigia desde o falecimento da
cunhada. Estcio tinha vinte e sete anos, e era formado em matemticas. O
conselheiro tentara encarreir-lo na poltica, depois na diplomacia; mas
nenhum desses projetos teve comeo de execuo.
O Dr. Camargo, mdico e velho amigo da casa, logo que regressou do
enterro, foi ter com Estcio, a quem encontrou no gabinete particular do
finado, em companhia de D. rsula. Tambm a dor tem suas volpias; tia e
sobrinho queriam nutri-la com a presena dos objetos pessoais do morto, no
lugar de suas predilees quotidianas. Duas tristes luzes alumiavam aquela
pequena sala. Alguns momentos correram de profundo silncio entre os trs.
O primeiro que o rompeu, foi o mdico.
 Seu pai deixou testamento?
 No sei, respondeu Estcio.
Camargo mordeu a ponta do bigode, duas ou trs vezes, gesto que lhe era
habitual quando fazia alguma reflexo.
  preciso procur-lo, continuou ele. Quer que o ajude?
Estcio apertou-lhe afetuosamente a mo.
 A morte de meu pai, disse o moo, no alterou nada as nossas relaes.
Subsiste a confiana anterior, do mesmo modo que a amizade, j provada e
antiga.
A secretria estava fechada; Estcio deu a chave ao mdico; este abriu o
mvel sem nenhuma comoo exterior. Interiormente estava abalado. O que
se lhe podia notar nos olhos era uma viva curiosidade, expresso em que,
alis, nenhum dos outros reparou. Logo que comeou a revolver os papis, a
mo do mdico tornou-se mais febril. Quando achou o testamento, houve em
seus olhos um breve lampejo, a que sucedeu a serenidade habitual.
  isso? perguntou Estcio.
Camargo no respondeu logo; olhou para o papel, como a querer adivinhar
o contedo. O silncio foi muito demorado para no fazer impresso no moo,
que alis nada disse, porque o atribura  comoo natural do amigo em to
dolorosas circunstncias.
 Sabem o que estar aqui dentro? disse enfim Camargo. Talvez uma
lacuna ou um grande excesso.
Nem Estcio, nem D. rsula, pediram ao mdico a explicao de
semelhantes palavras. A curiosidade, porm, era natural, e o mdico pode lla
nos olhos de ambos. No lhes disse nada; entregou o testamento a Estcio,
ergueu-se e deu alguns passos na sala, absorvido em suas prprias reflexes,
ora arranjando maquinalmente um livro da estante, ora metendo a ponta do
bigode entre os dentes, com a vista queda, alheio de todo ao lugar e s
pessoas.
Estcio rompeu o silncio:
 Mas que lacuna ou que excesso  esse? perguntou ao mdico.
Camargo parou diante do moo.
5
 No posso dizer nada, respondeu ele. Seria inconveniente, antes de
saber as ltimas disposies de seu pai.
D. rsula foi menos discreta que o sobrinho; aps longa pausa, pediu ao
mdico a razo de suas palavras.
 Seu irmo, disse este, era boa alma; tive tempo de o conhecer de perto
e apreciar-lhe as qualidades, que as tinha excelentes. Era seu amigo; sei que
o era meu. Nada alterou a longa amizade que nos unia, nem a confiana que
ambos depositvamos um no outro. No quisera, pois, que o ltimo ato de sua
vida fosse um erro.
 Um erro! exclamou D. rsula.
 Talvez um erro! suspirou Camargo.
 Mas, doutor, insistiu D. rsula, por que motivo nos no tranqiliza o
esprito? Estou certa de que no se trata de um ato que desdoure meu irmo;
alude naturalmente a algum erro no modo de entender... alguma coisa, que eu
ignoro o que seja. Por que no fala claramente?
O mdico viu que D. rsula tinha razo; e que, a no dizer mais nada,
melhor fora ter-se calado de todo. Tentou dissipar a impresso de estranheza
que deixara no nimo dos dois; mas da hesitao com que falava, concluiu
Estcio que ele no podia ir alm do que havia dito.
 No precisamos de explicao nenhuma, interveio o filho do conselheiro;
amanh saberemos tudo.
Nessa ocasio entrou o padre Melchior. O mdico saiu s 10 horas, ficando
de voltar no dia seguinte, logo cedo. Estcio, recolhendo-se ao quarto,
murmurava consigo:
 Que erro ser esse? E que necessidade tinha ele de vir lanar-me este
enigma no corao?
A resposta, se pudesse ouvi-la, era dada nessa mesma ocasio pelo
prprio Dr. Camargo, ao entrar no carro que o esperava  porta:
 Fiz bem em preparar-lhes o esprito, pensou ele; o golpe, se o houver,
h de ser mais fcil de sofrer.
O mdico ia s; alm disso, era noite, como sabemos. Ningum pde verlhe
a expresso do rosto, que era fechada e meditativa. Exumou o passado e
devassou o futuro; mas de tudo o que reviu e anteviu, nada foi comunicado a
ouvidos estranhos.
As relaes do Dr. Camargo com a famlia do conselheiro eram estreitas e
antigas, como dissera Estcio. O mdico e o conselheiro tinham a mesma
idade: cinqenta e quatro anos. Conheceram-se logo depois de tomado o
grau, e nunca mais afrouxara o lao que os prendera desde esse tempo.
Camargo era pouco simptico  primeira vista. Tinha as feies duras e
frias, os olhos perscrutadores e sagazes, de uma sagacidade incmoda para
quem encarava com eles, o que o no fazia atraente. Falava pouco e seco.
Seus sentimentos no vinham  flor do rosto. Tinha todos os visveis sinais de
um grande egosta; contudo, posto que a morte do conselheiro no lhe
arrancasse uma lgrima ou uma palavra de tristeza,  certo que a sentiu
6
deveras. Alm disso, amava sobre todas as coisas e pessoas uma criatura
linda,  a linda Eugnia, como lhe chamava,  sua filha nica e a flor de seus
olhos; mas amava-a de um amor calado e recndito. Era difcil saber se
Camargo professava algumas opinies polticas ou nutria sentimentos
religiosos. Das primeiras, se as tinha, nunca deu manifestao prtica; e no
meio das lutas de que fora cheio o decnio anterior, conservara-se indiferente
e neutral. Quanto aos sentimentos religiosos, a aferi-los pelas aes, ningum
os possua mais puros. Era pontual no cumprimento dos deveres de bom
catlico. Mas s pontual; interiormente, era incrdulo.
Quando Camargo chegou a casa, no Rio Comprido, achou sua mulher,  D.
Tomsia,  meio adormecida numa cadeira de balano e Eugnia ao piano,
executando um trecho de Bellini. Eugnia tocava com habilidade; e Camargo
gostava de a ouvir. Naquela ocasio, porm, disse ele, parecia pouco
conveniente que a moa se entregasse a um gnero de recreio qualquer.
Eugnia obedeceu, algum tanto de m vontade. O pai, que se achava ao p do
piano, pegou-lhe nas mos, logo que ela se levantou, e fitou-lhe uns olhos
amorosos e profundos, como ela nunca lhe vira.
 No fiquei triste pelo que me disse, papai, observou a moa. Tocava por
distrair-me. D. rsula como est? Ficou to aflita! Mame queria demorar-se
mais tempo; mas eu confesso que no podia ver a tristeza daquela casa.
 Mas a tristeza  necessria  vida, acudiu D. Tomsia, que abrira os
olhos logo  entrada do marido. As dores alheias fazem lembrar as prprias, e
so um corretivo da alegria, cujo excesso pode engendrar o orgulho.
Camargo temperou esta filosofia, que lhe pareceu demasiado austera, com
algumas idias mais acomodadas e risonhas.
 Deixemos a cada idade a sua atmosfera prpria, concluiu ele, e no
antecipemos a da reflexo, que  tornar infelizes os que ainda no passaram
do puro sentimento.
Eugnia no compreendeu o que os dois haviam dito. Voltou os olhos para
o piano, com uma expresso de saudade. Com a mo esquerda, assim mesmo
de p, extraiu vagamente trs ou quatro notas das teclas suas amigas.
Camargo tornou a fit-la com desusada ternura; a fronte sombria pareceu
alumiar-se de uma irradiao interior. A moa sentiu-se enlaada nos braos
dele; deixou-se ir. Mas a expanso era to nova, que ela ficou assustada e
perguntou com voz trmula:
 Aconteceu l alguma coisa?
 Absolutamente nada, respondeu Camargo, dando-lhe um beijo na testa.
Era o primeiro beijo, ao menos o primeiro de que a moa tinha memria. A
carcia encheu-a de orgulho filial; mas a prpria novidade dela impressionou-a
mais. Eugnia no creu no que lhe dissera o pai. Viu-o ir sentar-se ao p de D.
Tomsia e conversarem em voz baixa. Aproximando-se, no interrompeu a
conversa, que eles continuaram no mesmo tom, e versava sobre assuntos
puramente domsticos. Percebeu-o; contudo, no ficou tranqila. Na manh
seguinte escreveu um bilhete, que foi logo caminho de Andara. A resposta,
7
que lhe chegou s mos no momento em que provava um vestido novo, teve a
cortesia de esperar que ela terminasse a operao. Lida finalmente, dissipou
todos os receios da vspera.
Captulo II
No dia seguinte, foi aberto o testamento com todas as formalidades legais.
O conselheiro nomeava testamenteiros Estcio, o Dr. Camargo e o padre
Melchior. As disposies gerais nada tinham que fosse notvel: eram legados
pios ou beneficentes, lembranas a amigos, dotes a afilhados, missas por sua
alma e pela de seus parentes.
Uma disposio havia, porm, verdadeiramente importante. O conselheiro
declarava reconhecer uma filha natural, de nome Helena, havida com D.
ngela da Soledade. Esta menina estava sendo educada em um colgio de
Botafogo. Era declarada herdeira da parte que lhe tocasse de seus bens, e
devia ir viver com a famlia, a quem o conselheiro instantemente pedia que a
tratasse com desvelo e carinho, como se de seu matrimnio fosse.
A leitura desta disposio causou natural espanto  irm e ao filho do
finado. D. rsula nunca soubera de tal filha. Quanto a Estcio, ignorava menos
que a tia. Ouvira uma vez falar em uma filha de seu pai; mas to vagamente
que no podia esperar aquela disposio testamentria.
Ao espanto sucedeu em ambos outra e diferente impresso. D. rsula
reprovou de todo o ato do conselheiro. Parecia-lhe que, a despeito dos
impulsos naturais e licenas jurdicas, o reconhecimento de Helena era um ato
de usurpao e um pssimo exemplo. A nova filha era, no seu entender, uma
intrusa, sem nenhum direito ao amor dos parentes; quando muito, concordaria
em que se lhe devia dar o quinho da herana e deix-la  porta. Receb-la,
porm, no seio da famlia e de seus castos afetos, legitim-la aos olhos da
sociedade, como ela estava aos da lei, no o entendia D. rsula, nem lhe
parecia que algum pudesse entend-lo. A aspereza destes sentimentos
tornou-se ainda maior quando lhe ocorreu a origem possvel de Helena. Nada
constava da me, alm do nome; mas essa mulher quem era? em que atalho
sombrio da vida a encontrara o conselheiro? Helena seria filha de um encontro
fortuito, ou nasceria de algum afeto irregular embora, mas verdadeiro e nico?
A estas interrogaes no podia responder D. rsula; bastava, porm, que lhe
surgissem no esprito, para lanar nele o tdio e a irritao.
D. rsula era eminentemente severa a respeito de costumes. A vida do
conselheiro, marchetada de aventuras galantes, estava longe de ser uma
pgina de catecismo; mas o ato final bem podia ser a reparao de
leviandades amargas. Essa atenuante no a viu D. rsula. Para ela, o principal
era a entrada de uma pessoa estranha na famlia.
8
A impresso de Estcio foi muito outra. Ele percebera a m vontade com
que a tia recebera a notcia do reconhecimento de Helena, e no podia negar a
si mesmo que semelhante fato criava para a famlia uma nova situao.
Contudo, qualquer que ela fosse, uma vez que seu pai assim o ordenava,
levado por sentimentos de eqidade ou impulsos da natureza, ele a aceitava
tal qual, sem pesar nem reserva. A questo pecuniria pesou menos que tudo
no esprito do moo; no pesou nada. A ocasio era dolorosa demais para dar
entrada a consideraes de ordem inferior, e a elevao dos sentimentos de
Estcio no lhe permitia inspirar-se delas. Quanto  camada social a que
pertencia a me de Helena, no se preocupou muito com isso, certo de que
eles saberiam levantar a filha at  classe a que ela ia subir.
No meio das reflexes produzidas pela disposio testamentria do
conselheiro, ocorreu a Estcio a conversa que tivera com o Dr. Camargo.
Provavelmente era aquele o ponto a que aludira o mdico. Interrogado acerca
de suas palavras, Camargo hesitou um pouco; mas insistindo o filho do
conselheiro:
 Aconteceu o que eu previa, um erro, disse ele. No houve lacuna, mas
excesso. O reconhecimento dessa filha  um excesso de ternura, muito bonito,
mas pouco prtico. Um legado era suficiente; nada mais. A estrita justia...
 A estrita justia  a vontade de meu pai, redargiu Estcio.
 Seu pai foi generoso, disse Camargo; resta saber se podia s-lo  custa
de direitos alheios.
 Os meus? No os alego.
 Se os alegasse seria pouco digno da memria dele. O que est feito,
est feito. Uma vez reconhecida, essa menina deve achar nesta casa famlia e
afetos de famlia. Persuado-me de que ela saber corresponder-lhes com
verdadeira dedicao...
 Conhece-a? inquiriu Estcio, cravando no mdico uns olhos impacientes
de curiosidade.
 Vi-a trs ou quatro vezes, disse este no fim de alguns segundos; mas
era ento muito criana. Seu pai falava-me dela como de pessoa
extremamente afetuosa e digna de ser amada e admirada. Talvez fossem
olhos de pai.
Estcio desejara ainda saber alguma coisa acerca da me de Helena, mas
repugnou-lhe entrar em novas indagaes, e tentou encarreirar a conversa
para outro assunto. Camargo, entretanto, insistiu:
 O conselheiro falou-me algumas vezes no projeto de reconhecer Helena;
procurei dissuadi-lo, mas sabe como era teimoso, acrescendo neste caso o
natural impulso de amor paterno. O nosso ponto de vista era diferente. No
me tenho por homem mau; contudo, entendo que a sensibilidade no pode
usurpar o que pertence  razo.
Camargo proferiu estas palavras no tom seco e sentencioso que to natural
e sem esforo lhe saa. A velha amizade dele e do finado era sabida de todos;
a inteno com que falava podia ser hostil  famlia? Estcio refletiu algum
9
tempo no conceito que acabava de ouvir ao mdico, curta reflexo que por
nenhum modo lhe abalou a opinio j assentada e expressa. Seus olhos,
grandes e serenos, como o esprito que os animava, pousaram benevolamente
no interlocutor.
 No quero saber, disse ele, se h excesso na disposio testamentria
de meu pai. Se o h,  legtimo, justificvel pelo menos; ele sabia ser pai; seu
amor dividia-se inteiro. Receberei essa irm, como se fora criada comigo.
Minha me faria com certeza a mesma coisa.
Camargo no insistiu. Sobre ser esforo baldado dissuadir o moo daqueles
sentimentos, que aproveitava j agora discutir e condenar teoricamente a
resoluo do conselheiro? Melhor era execut-la lealmente, sem hesitao
nem pesar. Isso mesmo declarou ele a Estcio, que o abraou cordialmente. O
mdico recebeu o abrao sem constrangimento, mas sem fervor.
Estcio ficara satisfeito consigo mesmo. Seu carter vinha mais
diretamente da me que do pai. O conselheiro, se lhe descontarmos a nica
paixo forte que realmente teve, a das mulheres, no lhe acharemos nenhuma
outra saliente feio. A fidelidade aos amigos era antes resultado do costume
que da consistncia dos afetos. A vida correu-lhe sem crises nem contrastes;
nunca achou ocasio de experimentar a prpria tmpera. Se a achasse,
mostraria que a tinha mediana.
A me de Estcio era diferente; possura em alto grau a paixo, a ternura,
a vontade, uma grande elevao de sentimentos, com seus toques de orgulho,
daquele orgulho que  apenas irradiao da conscincia. Vinculada a um
homem que, sem embargo do afeto que lhe tinha, despendia o corao em
amores adventcios e passageiros, teve a fora de vontade necessria para
dominar a paixo e encerrar em si mesma todo o ressentimento. As mulheres
que so apenas mulheres, choram, arrufam-se ou resignam-se; as que tm
alguma coisa mais do que a debilidade feminina, lutam ou recolhem-se 
dignidade do silncio. Aquela padecia,  certo, mas a elevao de sua alma
no lhe permitia outra coisa mais do que um procedimento altivo e calado. Ao
mesmo tempo, como a ternura era elemento essencial de sua organizao,
concentrou-a toda naquele nico filho, em quem parecia adivinhar o herdeiro
de suas robustas qualidades.
Estcio recebera efetivamente de sua me uma boa parte destas. No
sendo grande talento, deveu  vontade e  paixo do saber a figura notvel
que fez entre seus companheiros de estudos. Entregara-se  cincia com ardor
e afinco. Aborrecia a poltica; era indiferente ao rudo exterior. Educado 
maneira antiga e com severidade e recato, passou da adolescncia 
juventude sem conhecer as corrupes de esprito nem as influncias
deletrias da ociosidade; viveu a vida de famlia, na idade em que outros, seus
companheiros, viviam a das ruas e perdiam em coisas nfimas a virgindade das
primeiras sensaes. Da veio que, aos dezoito anos, conservava ele tal ou
qual timidez infantil, que s tarde perdeu de todo. Mas, se perdeu a timidez,
ficara-lhe certa gravidade no incompatvel com os verdes anos e muito
10
prpria de organizaes como a dele. Na poltica seria talvez meio caminho
andado para subir aos cargos pblicos; na sociedade, fazia que lhe tivessem
respeito, o que o levantava a seus prprios olhos. Convm dizer que no era
essa gravidade aquela coisa enfadonha, pesada e chata, que os moralistas
asseveram ser quase sempre um sintoma de esprito chocho; era uma
gravidade jovial e familiar, igualmente distante da frivolidade e do tdio, uma
compostura do corpo e do esprito, temperada pelo vio dos sentimentos e
pela graa das maneiras, como um tronco rijo e reto adornado de folhagens e
flores. Juntava s outras qualidades morais uma sensibilidade, no feminil e
doentia, mas sbria e forte; spero consigo, sabia ser terno e mavioso com os
outros.
Tal era o filho do conselheiro; e se alguma coisa h ainda que acrescentar,
 que ele no cedia nem esquecia nenhum dos direitos e deveres que lhe
davam a idade e a classe em que nascera. Elegante e polido, obedecia  lei do
decoro pessoal, ainda nas menores partes dela. Ningum entrava mais
corretamente numa sala; ningum saa mais oportunamente. Ignorava a
cincia das nugas, mas conhecia o segredo de tecer um cumprimento.
Na situao criada pela clusula testamentria do conselheiro, Estcio
aceitou a causa da irm, a quem j via, sem a conhecer, com olhos diferentes
dos de Camargo e D. rsula. Esta comunicou ao sobrinho todas as impresses
que lhe deixara o ato do irmo. Estcio procurou dissipar-lhas; repetiu as
reflexes opostas ao mdico; mostrou que, ao cabo de tudo, tratava-se de
cumprir a derradeira vontade de um morto.
 Bem sei que no h j agora outro remdio mais que aceitar essa
menina e obedecer s determinaes solenes de meu irmo, disse D. rsula,
quando Estcio acabou de falar. Mas s isso; dividir com ela os meus afetos
no sei que possa nem deva fazer.
 Contudo, ela  do nosso mesmo sangue.
D. rsula ergueu os ombros como repelindo semelhante consanginidade.
Estcio insistiu em traz-la a mais benvolos sentimentos. Invocou, alm da
vontade, a retido do esprito de seu pai, que no havia dispor uma coisa
contrria  boa fama da famlia.
 Alm disso, essa menina nenhuma culpa tem de sua origem, e visto que
meu pai a legitimou, convm que no se ache aqui como enjeitada. Que
aproveitaramos com isso? Nada mais do que perturbar a placidez da nossa
vida interior. Vivamos na mesma comunho de afetos; e vejamos em Helena
uma parte da alma de meu pai, que nos fica para no desfalcar de todo o
patrimnio comum.
Nada respondeu a irm do conselheiro. Estcio percebeu que no vencera
os sentimentos da tia, nem era possvel consegui-lo por meio de palavras.
Confiou ao tempo essa tarefa. D. rsula ficou triste e s. Aparecendo Camargo
da a pouco, ela confiou-lhe todo o seu modo de sentir, que o mdico
interiormente aprovava.
 Conheceu a me dela? perguntou a irm do conselheiro.
11
 Conheci.
 Que espcie de mulher era?
 Fascinante.
 No  isso; pergunto-lhe se era mulher de ordem inferior, ou...
 No sei; no tempo em que a vi, no tinha classe e podia pertencer a
todas; demais, no a tratei de perto.
 Doutor, disse D. rsula, depois de hesitar algum tempo; que me
aconselha que faa?
 Que a ame, se ela o merecer, e se puder.
 Oh! confesso-lhe que me h de custar muito! E merec-lo-? Alguma
coisa me diz ao corao que essa menina vem complicar a nossa vida; alm
disso, no posso esquecer que meu sobrinho, herdeiro...
 Seu sobrinho aceita as coisas filosoficamente e at com satisfao. No
compreendo a satisfao, mas concordo que nada mais h do que cumprir
textualmente a vontade do conselheiro. No se deliberam sentimentos; amase
ou aborrece-se, conforme o corao quer. O que lhe digo  que a trate com
benevolncia; e caso sinta em si algum afeto, no o sufoque; deixe-se ir com
ele. J agora no se pode voltar atrs. Infelizmente!
Helena estava a concluir os estudos; semanas depois determinou a famlia
que ela viesse para a casa. D. rsula recusou a princpio ir busc-la;
convenceu-a disso o sobrinho, e a boa senhora aceitou a incumbncia depois
de alguma hesitao. Em casa foram-lhe preparados os aposentos; e marcouse
uma tarde de segunda-feira para ser a moa trasladada a Andara. D.
rsula meteu-se na carruagem, logo depois de jantar. Estcio foi nesse dia
jantar com o Dr. Camargo, no Rio Comprido. Voltou tarde. Ao penetrar na
chcara, deu com os olhos nas janelas do quarto destinado a Helena; estavam
abertas; havia algum dentro. Pela primeira vez sentiu Estcio a estranheza
da situao criada pela presena daquela meia-irm e perguntou a si prprio
se no era a tia quem tinha razo. Repeliu pouco depois esse sentimento; a
memria do pai restituiu-lhe a benevolncia anterior. Ao mesmo tempo, a
idia de ter uma irm sorria-lhe ao corao como promessa de venturas novas
e desconhecidas. Entre sua me e as demais mulheres, faltava-lhe essa
criatura intermediria, que ele j amava sem conhecer, e que seria a natural
confidente de seus desalentos e esperanas. Estcio contemplou longo tempo
as janelas; nem o vulto de Helena apareceu ali, nem ele viu passar a sombra
da habitante nova.
Captulo III
12
Na seguinte manh, Estcio levantou-se tarde e foi direito  sala de jantar,
onde encontrou D. rsula, pachorrentamente sentada na poltrona de seu uso,
ao p de uma janela, a ler um tomo do Saint-Clair das ilhas, enternecida pela
centsima vez com as tristezas dos desterrados da ilha da Barra; boa gente e
moralssimo livro, ainda que enfadonho e maudo, como outros de seu tempo.
Com ele matavam as matronas daquela quadra muitas horas compridas do
inverno, com ele se encheu muito sero pacfico, com ele se desafogou o
corao de muita lgrima sobressalente.
 Veio? perguntou Estcio.
 Veio, respondeu a boa senhora, fechando o livro. O almoo esfria,
continuou ela, dirigindo-se  mucama que ali estava de p, junto da mesa; j
foram chamar... nhanh Helena?
 Nhanh Helena disse que j vem.
 H dez minutos, observou D. rsula ao sobrinho.
 Naturalmente no tarda, respondeu este. Que tal?
D. rsula estava pouco habilitada a responder ao sobrinho. Quase no vira
o rosto de Helena; e esta, logo que ali chegou, recolheu-se ao aposento que
lhe deram, dizendo ter necessidade de repouso. O que D. rsula pde afianar
foi somente que a sobrinha era moa feita.
Ouviu-se descer a escada um passo rpido, e no tardou que Helena
aparecesse  porta da sala de jantar. Estcio estava ento encostado  janela
que ficava em frente da porta e dava para a extensa varanda, donde se viam
os fundos da chcara. Olhou para a tia como esperando que ela os
apresentasse um ao outro. Helena detivera-se ao v-lo.
 Menina, disse D. rsula com o tom mais doce que tinha na voz, este 
meu sobrinho Estcio, seu irmo.
 Ah! disse Helena, sorrindo e caminhando para ele. Estcio dera
igualmente alguns passos.
 Espero merecer sua afeio, disse ela depois de curta pausa. Peo
desculpa da demora; estavam  minha espera, creio eu...
 amos para a mesa agora mesmo, interrompeu D. rsula, como
protestando contra a idia de que ela os fizesse esperar.
Estcio procurou corrigir a rudez da tia.
 Tnhamos ouvido o seu passo na escada, disse ele. Sentemo-nos, que o
almoo esfria.
D. rsula j estava sentada  cabeceira da mesa; Helena ficou  direita, na
cadeira que Estcio lhe indicou; este tomou lugar do lado oposto. O almoo
correu silencioso e desconsolado; raros monosslabos, alguns gestos de
assentimento ou recusa, tal foi o dispndio da conversa entre os trs parentes.
A situao no era cmoda nem vulgar. Helena, posto forcejasse por estar
senhora de si, no conseguia vencer de todo o natural acanhamento da
ocasio. Mas, se o no vencia de todo, podiam ver-se atravs dele certos
sinais de educao fina. Estcio examinou aos poucos a figura da irm.
13
Era uma moa de dezesseis a dezessete anos, delgada sem magreza,
estatura um pouco acima de mediana, talhe elegante e atitudes modestas. A
face, de um moreno-pssego, tinha a mesma imperceptvel penugem da fruta
de que tirava a cor; naquela ocasio tingiam-na uns longes cor-de-rosa, a
princpio mais rubros, natural efeito do abalo. As linhas puras e severas do
rosto parecia que as traara a arte religiosa. Se os cabelos, castanhos como os
olhos, em vez de dispostos em duas grossas tranas lhe cassem
espalhadamente sobre os ombros, e se os prprios olhos alassem as pupilas
ao cu, dissreis um daqueles anjos adolescentes que traziam a Israel as
mensagens do Senhor. No exigiria a arte maior correo e harmonia de
feies, e a sociedade bem podia contentar-se com a polidez de maneiras e a
gravidade do aspecto. Uma s coisa pareceu menos aprazvel ao irmo: eram
os olhos, ou antes o olhar, cuja expresso de curiosidade sonsa e suspeitosa
reserva foi o nico seno que lhe achou, e no era pequeno.
Acabado o almoo, trocadas algumas palavras, poucas e soltas, Helena
retirou-se ao seu quarto, onde durante trs dias passou quase todas as horas,
a ler meia dzia de livros que trouxera consigo, a escrever cartas, a olhar
pasmada para o ar, ou encostada ao peitoril de uma das janelas. Alguma vez
desceu a jantar, com os olhos vermelhos e a fronte pesarosa, apenas com um
sorriso plido e fugitivo nos lbios. Uma criana, subitamente transferida ao
colgio, no desfolha mais tristemente as primeiras saudades da casa de seus
pais. Mas a asa do tempo leva tudo; e ao cabo de trs dias, j a fisionomia de
Helena trazia menos sombrio aspecto. O olhar perdeu a expresso que
primeiro lhe achou o irmo, para tornar-se o que era naturalmente, mavioso e
repousado. A palavra saa-lhe mais fcil, seguida e numerosa; a familiaridade
tomou o lugar do acanhamento.
No quarto dia, acabado o almoo, Estcio encetou uma conversa geral, que
no passou de um simples duo, porque D. rsula contava os fios da toalha ou
brincava com as pontas do leno que trazia ao pescoo. Como falassem da
casa, Estcio disse  irm:
 Esta casa  to sua como nossa; faa de conta que nascemos debaixo
do mesmo teto. Minha tia lhe dir o sentimento que nos anima a seu respeito.
Helena agradeceu com um olhar longo e profundo. E dizendo que a casa e
a chcara lhe pareciam bonitas e bem dispostas, pediu a D. rsula que lhas
fosse mostrar mais detidamente. A tia fechou o rosto e secamente respondeu:
 Agora no, menina; tenho por hbito descansar e ler.
 Pois eu lerei para a senhora ouvir, replicou a moa com graa; no 
bom cansar os seus olhos; e, alm disso,  justo que me acostume a servi-la.
No acha? continuou ela, voltando-se para Estcio.
  nossa tia, respondeu o moo.
 Oh! ainda no  minha tia! interrompeu Helena. H de s-lo quando me
conhecer de todo. Por enquanto somos estranhas uma  outra; mas nenhuma
de ns  m.
14
Estas palavras foram ditas em tom de graciosa submisso. A voz com que
ela as proferiu, era clara, doce, melodiosa; melhor do que isso, tinha um
misterioso encanto, a que a prpria D. rsula no pde resistir.
 Pois deixe que a convivncia faa falar o corao, respondeu a irm do
conselheiro em tom brando. No aceito o oferecimento da leitura, porque no
entendo bem o que os outros me lem; tenho os olhos mais inteligentes que
os ouvidos. Entretanto, se quer ver a casa e a chcara, seu irmo pode
conduzi-la.
Estcio declarou-se pronto para acompanhar a irm. Helena, entretanto,
recusou. Irmo embora, era a primeira vez que o via, e, ao que parece, a
primeira que podia achar-se a ss com um homem que no seu pai. D. rsula,
talvez porque preferisse ficar s algum tempo, disse-lhe secamente que fosse.
Helena acompanhou o irmo. Percorreram parte da casa, ouvindo a moa as
explicaes que lhe dava Estcio e inquirindo de tudo com zelo e curiosidade
de dona da casa. Quando chegaram  porta do gabinete do conselheiro,
Estcio parou.
 Vamos entrar num lugar triste para mim, disse ele.
 Que ?
 O gabinete de meu pai.
 Oh! deixe ver!
Entraram os dois. Tudo estava do mesmo modo que no dia em que o
conselheiro falecera. Estcio deu algumas indicaes relativas ao teor da vida
domstica de seu pai; mostrou-lhe a cadeira em que ele costumava ler, de
tarde e de manh; os retratos de famlia, a secretria, as estantes; falou de
quanto podia interess-la. Sobre a mesa, perto da janela, estava ainda o
ltimo livro que o conselheiro lera: eram as Mximas do marqus de Maric.
Helena pegou nele e beijou a pgina aberta. Uma lgrima brotou-lhe dos
olhos, quente de todo o calor de uma alma apaixonada e sensvel; brotou,
deslizou-se e foi cair no papel.
 Coitado! murmurou ela.
Depois sentou-se na mesma cadeira em que o conselheiro costumava
dormir alguns minutos depois de jantar, e olhou para fora. O dia comeava a
aquecer. O arvoredo dos morros fronteiros estava coberto de flores-daquaresma,
com suas ptalas roxas e tristemente belas. O espetculo ia com a
situao de ambos. Estcio deixou-se levar ao sabor de suas recordaes da
meninice. De envolta com elas veio pousar-lhe ao lado a figura de sua me;
tornou a v-la, tal qual se lhe fora dos braos, uma crua noite de outubro,
quando ele contava dezoito anos de idade. A boa senhora morrera quase
moa,  ainda bela, pelo menos,  daquela beleza sem outono, cuja
primavera tem duas estaes.
Helena ergueu-se.
 Gostava dele? perguntou ela.
 Quem no gostaria dele?
15
 Tem razo. Era uma alma grande e nobre; eu adorava-o. Reconheceume;
deu-me famlia e futuro; levantou-me aos olhos de todos e aos meus
prprios. O resto depende de mim, do juzo que eu tiver, ou talvez da fortuna.
Esta ltima palavra saiu-lhe do corao como um suspiro. Depois de alguns
segundos de silncio, Helena enfiou o brao no do irmo e desceram 
chcara. Fosse influncia do lugar ou simples mobilidade de esprito, Helena
tornou-se logo outra do que se revelara no gabinete do pai. Jovial, graciosa e
travessa, perdera aquela gravidade quieta e senhora de si com que aparecera
na sala de jantar; fez-se lpida e viva, como as andorinhas que antes, e ainda
agora, esvoaavam por meio das rvores e por cima da grama. A mudana
causou certo espanto ao moo; mas ele a explicou de si para si, e em todo o
caso no o impressionou mal. Helena pareceu-lhe naquela ocasio, mais do
que antes, o complemento da famlia. O que ali faltava era justamente o
gorjeio, a graa, a travessura, um elemento que temperasse a austeridade da
casa e lhe desse todas as feies necessrias ao lar domstico. Helena era
esse elemento complementar.
A excurso durou cerca de meia hora. D. rsula viu-os chegar, ao cabo
desse tempo, familiares e amigos, como se houvessem sido criados juntos. As
sobrancelhas grisalhas da boa senhora contraram-se, e o lbio inferior
recebeu uma dentada de despeito.
 Titia... disse Estcio jovialmente; minha irm conhece j a casa toda e
suas dependncias. Resta somente que lhe mostremos o corao.
D. rsula sorriu, um sorriso amarelo e acanhado, que apagou nos olhos da
moa a alegria que os tornava mais lindos. Mas foi breve a m impresso;
Helena caminhou para a tia, e pegando-lhe nas mos, perguntou com toda a
doura da voz:
 No querer mostrar-me o seu?
 No vale a pena! respondeu D. rsula com afetada bonomia; corao de
velha  casa arruinada.
 Pois as casas velhas consertam-se, replicou Helena sorrindo.
D. rsula sorriu tambm; desta vez porm, com expresso melhor. Ao
mesmo tempo, fitou-a; e era a primeira vez que o fazia. O olhar, a princpio
indiferente, manifestou logo depois a impresso que lhe causava a beleza da
moa. D. rsula retirou os olhos; porventura receou que o influxo das graas
de Helena lhe torcessem o corao, e ela queria ficar independente e
inconcilivel.
Captulo IV
As primeiras semanas correram sem nenhum sucesso notvel, mas ainda
assim interessantes. Era, por assim dizer, um tempo de espera, de hesitao,
de observao recproca, um tatear de caracteres, em que de uma e de outra
parte procuravam conhecer o terreno e tomar posio. O prprio Estcio, no
16
obstante a primeira impresso, recolhera-se a prudente reserva, de que o
arrancou aos poucos o procedimento de Helena.
Helena tinha os predicados prprios a captar a confiana e a afeio da
famlia. Era dcil, afvel, inteligente. No eram estes, contudo, nem ainda a
beleza, os seus dotes por excelncia eficazes. O que a tornava superior e lhe
dava probabilidade de triunfo, era a arte de acomodar-se s circunstncias do
momento e a toda a casta de espritos, arte preciosa, que faz hbeis os
homens e estimveis as mulheres. Helena praticava de livros ou de alfinetes,
de bailes ou de arranjos de casa, com igual interesse e gosto, frvola com os
frvolos, grave com os que o eram, atenciosa e ouvida, sem entono nem
vulgaridade. Havia nela a jovialidade da menina e a compostura da mulher
feita, um acordo de virtudes domsticas e maneiras elegantes.
Alm das qualidades naturais, possua Helena algumas prendas de
sociedade, que a tornavam aceita a todos, e mudaram em parte o teor da vida
da famlia. No falo da magnfica voz de contralto, nem da correo com que
sabia usar dela, porque ainda ento, estando fresca a memria do conselheiro,
no tivera ocasio de fazer-se ouvir. Era pianista distinta, sabia desenho,
falava correntemente a lngua francesa, um pouco a inglesa e a italiana.
Entendia de costura e bordados e toda a sorte de trabalhos feminis.
Conversava com graa e lia admiravelmente. Mediante os seus recursos, e
muita pacincia, arte e resignao,  no humilde, mas digna,  conseguia
polir os speros, atrair os indiferentes e domar os hostis.
Pouco havia ganho no esprito de D. rsula; mas a repulsa desta j no era
to viva como nos primeiros dias. Estcio cedeu de todo, e era fcil; seu
corao tendia para ela, mais que nenhum outro. No cedeu, porm, sem
alguma hesitao e dvida. A flexibilidade do esprito da irm afigurou-se-lhe a
princpio mais calculada que espontnea. Mas foi impresso que passou. Dos
prprios escravos no obteve Helena desde logo a simpatia e boa vontade;
esses pautavam os sentimentos pelos de D. rsula. Servos de uma famlia,
viam com desafeto e cime a parenta nova, ali trazida por um ato de
generosidade. Mas tambm a esses venceu o tempo. Um s de tantos pareceu
v-la desde princpio com olhos amigos; era um rapaz de dezesseis anos,
chamado Vicente, cria da casa e particularmente estimado do conselheiro.
Talvez esta ltima circunstncia o ligou desde logo  famlia do seu senhor.
Despida de interesse, porque a esperana da liberdade, se a podia haver, era
precria e remota, a afeio de Vicente no era menos viva e sincera;
faltando-lhe os gozos prprios do afeto,  a familiaridade e o contato, 
condenado a viver da contemplao e da memria, a no beijar sequer a mo
que o abenoava, limitado e distanciado pelos costumes, pelo respeito e pelos
instintos, Vicente foi, no obstante, um fiel servidor de Helena, seu advogado
convicto nos julgamentos da senzala.
As pessoas da intimidade da casa acolheram Helena com a mesma
hesitao de D. rsula. Helena sentiu-lhes a polidez fria e parcimoniosa. Longe
de abater-se ou vituperar os sentimentos sociais, explicava-os e tratava de os
17
torcer em seu favor,  tarefa em que se esmerou superando os obstculos na
famlia; o resto viria de si mesmo.
Uma pessoa, entre os familiares da casa, no os acompanhou no
procedimento reservado e frio; foi o padre-mestre Melchior. Melchior era
capelo em casa do conselheiro, que mandara construir alguns anos antes
uma capelinha na chcara, onde muita gente da vizinhana ouvia missa aos
domingos. Tinha sessenta anos o padre; era homem de estatura mediana,
magro, calvo, brancos os poucos cabelos, e uns olhos no menos sagazes que
mansos. De compostura quieta e grave, austero sem formalismo, socivel sem
mundanidade, tolerante sem fraqueza, era o verdadeiro varo apostlico,
homem de sua Igreja e de seu Deus, ntegro na f, constante na esperana,
ardente na caridade. Conhecera a famlia do conselheiro algum tempo depois
do consrcio deste. Descobriu a causa da tristeza que minou os ltimos anos
da me de Estcio; respeitou a tristeza, mas atacou diretamente a origem. O
conselheiro era homem geralmente razovel, salvo nas coisas do amor; ouviu
o padre, prometeu o que este lhe exigia, mas foi promessa feita na areia; o
primeiro vento do corao apagou a escritura. Entretanto, o conselheiro ouviao
sinceramente em todas as ocasies graves, e o voto de Melchior pesava em
seu esprito. Morando na vizinhana daquela famlia, tinha ali o padre todo o
seu mundo. Se as obrigaes eclesisticas no o chamavam a outro lugar, no
se arredava de Andara, stio de repouso aps trabalhosa mocidade.
Das outras pessoas que freqentavam a casa e residiam no mesmo bairro
de Andara, mencionaremos ainda o Dr. Matos, sua mulher, o coronel Macedo
e dois filhos.
O Dr. Matos era um velho advogado que, em compensao da cincia do
direito, que no sabia, possua noes muito aproveitveis de meteorologia e
botnica, da arte de comer, do voltarete, do gamo e da poltica. Era
impossvel a ningum queixar-se do calor ou do frio, sem ouvir dele a causa e
a natureza de um e outro, e logo a diviso das estaes, a diferena dos
climas, influncia destes, as chuvas, os ventos, a neve, as vazantes dos rios e
suas enchentes, as mars e a pororoca. Ele falava com igual abundncia das
qualidades teraputicas de uma erva, do nome cientfico de uma flor, da
estrutura de certo vegetal e suas peculiaridades. Alheio s paixes da poltica,
se abria a boca em tal assunto era para criticar igualmente de liberais e
conservadores,  os quais todos lhe pareciam abaixo do pas. O jogo e a
comida achavam-no menos cptico; e nada lhe avivava tanto a fisionomia
como um bom gamo depois de um bom jantar. Estas prendas faziam do Dr.
Matos um conviva interessante nas noites que o no eram. Posto soubesse
efetivamente alguma coisa dos assuntos que lhe eram mais prezados, no
ganhou o peclio que possua, professando a botnica ou a meteorologia, mas
aplicando as regras do direito, que ignorou at  morte.
A esposa do Dr. Matos fora uma das belezas do primeiro reinado. Era uma
rosa fanada, mas conservava o aroma da juventude. Algum tempo se disse
que o conselheiro ardera aos ps da mulher do advogado, sem repulsa desta;
18
mas s era verdade a primeira parte do boato. Nem os princpios morais, nem
o temperamento de D. Leonor lhe consentiam outra coisa que no fosse repelir
o conselheiro sem o molestar. A arte com que o fez, iludiu os malvolos; da o
sussurro, j agora esquecido e morto. A reputao dos homens amorosos
parece-se muito com o juro do dinheiro: alcanado certo capital, ele prprio se
multiplica e avulta. O conselheiro desfrutou essa vantagem, de maneira que,
se no outro mundo lhe levassem  coluna dos pecados todos os que lhe
atribuam na terra, receberia dobrado castigo do que mereceu.
O coronel Macedo tinha a particularidade de no ser coronel. Era major.
Alguns amigos, levados de um esprito de retificao, comearam a dar-lhe o
ttulo de coronel, que a princpio recusou, mas que afinal foi compelido a
aceitar, no podendo gastar a vida inteira a protestar contra ele. Macedo tinha
visto e vivido muito; e, sobre o peclio da experincia, possua imaginao
viva, frtil e agradvel. Era bom companheiro, folgazo e comunicativo,
pensando srio quando era preciso. Tinha dois filhos, um rapaz de vinte anos,
que estudava em So Paulo, e uma moa de vinte e trs, mais prendada que
formosa.
Nos primeiros dias de agosto a situao de Helena podia dizer-se
consolidada. D. rsula no cedera de todo, mas a convivncia ia produzindo
seus frutos. Camargo era o nico irreconcilivel; sentia-se, atravs de suas
maneiras cerimoniosas, uma averso profunda, prestes a converter-se em
hostilidade, se fosse preciso. As demais pessoas, no s domadas, mas at
enfeitiadas, estavam s boas com a filha do conselheiro. Helena tornara-se o
acontecimento do bairro; seus ditos e gestos eram o assunto da vizinhana e o
prazer dos familiares da casa. Por uma natural curiosidade, cada um procurava
em suas reminiscncias um fio biogrfico da moa; mas do inventrio
retrospectivo ningum tirava elementos que pudessem construir a verdade ou
uma s parcela que fosse. A origem da moa continuava misteriosa; vantagem
grande, porque o obscuro favorecia a lenda, e cada qual podia atribuir o
nascimento de Helena a um amor ilustre ou romanesco,  hipteses
admissveis, e em todo o caso agradveis a ambas as partes.
Captulo V
Por esse tempo resolveu Estcio dar um passo decisivo. Ligado por amor 
filha de Camargo, desde antes da morte do conselheiro, hesitara sempre em
pedi-la ao pai, diferindo a resoluo para quando fosse propcio o ensejo. A
condio no era fcil, porque o sentimento que ele nutria em relao a
Eugnia tinha alternativas de tibieza e fervor. A causa disso pode crer-se
estava tambm em seu corao; mas principalmente residia nela. Num dos
primeiros dias de agosto, assentara Estcio de ir solicitar de Eugnia
autorizao para fazer oficialmente o pedido. Assim disposto, dirigiu-se  casa
de Camargo.
19
Mal o avistou de longe, desceu Eugnia  porta do jardim. O chapelinho de
palha, de abas largas, que lhe protegia o rosto dos raios do sol,  eram trs
horas da tarde,  tornava mais bela a figura da moa. Eugnia era uma das
mais brilhantes estrelas entre as menores do cu fluminense. Agora mesmo,
se o leitor lhe descobrir o perfil em camarote de teatro, ou se a vir entrar em
alguma sala de baile, compreender,  atravs de um quarto de sculo, 
que os contemporneos de sua mocidade lhe tivessem louvado, sem
contraste, as graas que ento alvoreciam com o frescor e a pureza das
primeiras horas.
Era de pequena estatura; tinha os cabelos de um castanho escuro, e os
olhos grandes e azuis, dois pedacinhos do cu, abertos em rosto alvo e
corado; o corpo, levemente refeito, era naturalmente elegante; mas se a dona
sabia vestir-se com luxo, e at com arte, no possua o dom de alcanar os
mximos efeitos com os meios mais simples.
Estcio contemplou-a namorado sem ousar dizer palavra; a primeira que
lhe ia sair dos lbios, era justamente o pedido que o levava ali. Mas Eugnia
deteve-lha, mostrando o anel que a madrinha, fazendeira de Cantagalo, lhe
mandara na vspera. Era uma opala magnfica, a tal ponto que Eugnia dividia
os olhos entre o namorado e ela. Esta simultaneidade esfriou o mancebo.
Entraram ambos em casa, onde D. Tomsia os esperava. A me de Eugnia
sabia combinar o decoro com os desejos de seu corao; no seria obstculo
aos dois namorados; infelizmente, a presena de duas visitas veio destruir o
clculo dos trs. Estcio espreitava uma ocasio de pedir a Eugnia a
autorizao que desejava; at ao jantar no se lhe deparou nenhuma.
Desceram todos ao jardim. D. Tomsia entreteve uma das visitas;
Camargo foi mostrar  outra a sua coleo de flores. Estcio e Eugnia
afastaram-se cautelosamente dos dois grupos, a pretexto de no sei que flor
aberta na manh daquele dia. A flor existia; Eugnia colheu-a e deu a Estcio.
 No v perd-la; h de entreg-la a Helena da minha parte. Diga-lhe
que estou com muitas saudades.
Estcio colocou a flor na botoeira.
 Vai cair! disse Eugnia. Quer que pregue um alfinete?
Estcio no teve tempo de responder, porque a filha de Camargo, tirando
um alfinete do cinto, prendeu o p da flor, gastando muito mais tempo do que
o exigia a operao. A moa no era mope; todavia aproximou de tal modo a
cabea ao peito do mancebo, que este teve mpetos de lhe beijar os cabelos, e
seria a primeira vez que seus lbios lhe tocassem.
 Pronto! disse ela. Diga a Helena que  a flor mais bonita do nosso
jardim. Sabe que eu gosto muito de sua irm?
 Acredito.
 Suponho que  minha amiga; h de s-lo com certeza. Oh! eu preciso
muito de uma amiga verdadeira!
 Sim?
20
 Muito! Tenho tantas que no prestam para nada, e s me do
desgostos, como Ceclia... Se soubesse o que ela me fez!
 Que foi?
Eugnia desfiou uma historiazinha de toucador, que omito em suas
particularidades por no interessar ao nosso caso, bastando saber que a razo
capital da divergncia entre as duas amigas fora uma opinio de Ceclia acerca
da escolha de um chapu.
Estcio no escutou a histria com a ateno que a moa desejara;
limitou-se a ouvir a voz de Eugnia, que era na verdade anglica. Alguma
coisa porm lhe ficou; e quando ela ps termo s suas queixas:
 O que me parece, observou o sobrinho de D. rsula,  que no valia a
pena brigar por to pouca coisa...
 Pouca coisa! exclamou Eugnia. Parece-lhe pouco chamar-me caprichosa
e de mau gosto?
 Fez mal, se o disse, em todo o caso...
Estcio fez uma pausa e continuou a andar. Eugnia esperou que ele
continuasse o que ia dizer; mas o silncio prolongou-se mais do que era
natural.
 Em todo o caso? repetiu a moa erguendo para ele os olhos lmpidos e
curiosos.
 Eugnia, disse Estcio, quer saber a verdadeira razo do mau sucesso
de suas afeies?  deixar-se levar mais pelas aparncias que pela realidade;
 porque d menos apreo s qualidades slidas do corao do que s frvolas
exterioridades da vida. Suas amizades so das que duram a roda de uma
valsa, ou, quando muito, a moda de um chapu; podem satisfazer o capricho
de um dia, mas so estreis para as necessidades do corao.
 Jesus! exclamou Eugnia, estacando o passo; um sermo por to pouca
coisa! Se tivesse algum pedao de latim, era o mesmo que estar ouvindo o
padre Melchior.
Estcio no respondeu; contentou-se com erguer os ombros, e os dois
continuaram a andar silenciosamente, acanhados e descontentes um do outro.
A diferena  que o enfado de Eugnia se manifestava por um movimento
nervoso de impacincia e despeito.
 Se o ofendi, perdoe-me, disse ela, com um leve tom de ironia.
 Oh! exclamou ele apertando-lhe a mo, como quem s esperava um
pretexto para reatar a conversa interrompida.
 Talvez ofendesse, continuou a moa; eu sei dizer as coisas como elas
me vm  boca, e parece que no so as mais acertadas...
 No digo que o sejam sempre, replicou Estcio sorrindo. Agora, pelo
menos, foi um pouco precipitada em zombar do que eu lhe dizia, que era justo
e de boa inteno. Francamente,  para lastimar uma amizade, ganha entre
duas quadrilhas e perdida por causa de um chapu? No vale a pena
esperdiar afetos, Eugnia; sentir mais tarde que essa moeda do corao no
se deve nunca reduzir a trocos midos nem despender em quinquilharias.
21
Eugnia ouviu calada as palavras do moo; no as entendeu muito. Sabialhes
a significao; no lhes viu porm nexo nem sentido; sobretudo, no lhes
sentiu a aplicao. O que a irritou mais foi o tom pedagogo de Estcio;
estouvada e voluntariosa, no admitia que ningum lhe falasse sem submisso
ou a repreendesse por atos seus, que ela julgava legtimos e naturais. A
insistncia do moo foi o ponto de partida a um desses arrufos, no raros
entre amantes, e comuns entre aqueles dois. Os de Eugnia no eram simples
silncios; seu esprito rebelde e livre no adormecia nesses momentos de
enfado; pelo contrrio, irritava-se e traduzia a irritao por meio de pirraas e
acessos de mau humor. Estcio viu murmurar, crescer e desabar a
tempestade. A moa articulava algumas frases soltas, batia no cho com o
pezinho mimoso, que por acaso esmagou uma pobre erva, alheia s
divergncias morais daquelas duas criaturas. Ora parava e desandava o
caminho; mas logo se dirigia para o moo, com as plpebras trmulas de
clera e um remoque nos lbios; comprazia-se em torcer a ponta da manga ou
morder a ponta do dedo. Estcio, afeito a essas exploses, no lhes sabia
remdio prprio: tanto o silncio como a rplica eram ali matrias inflamveis.
Contudo, o silncio era o menor dos dois perigos. Estcio limitava-se a ouvir
calado, olhando  sorrelfa para a filha de Camargo, cujo rosto parecia mais
belo quando a raiva o coloria. Uma terceira pessoa era a nica esperana de
pacificao; Estcio alongou o olhar pelo jardim em busca desse deus exmachina.
Apareceu ele enfim sob a forma de um Carlos Barreto,  estudante
de medicina, que cultivava simultaneamente a patologia e a comdia, mas
prometia ser melhor Esculpio que Aristfanes. Mal os viu de longe, apertou o
passo para o grupo.
 Vem gente, Eugnia, disse Estcio; no demos espetculos e...perdoeme.
Eugnia ergueu os ombros, procurou com os olhos o intruso que da a
pouco lhes estendia a mo.
O cu no ficou logo claro; mas o vento amainou, e era de esperar que o
sol se desfizesse enfim do seu capote de nuvens. Carlos Barreto deu a Eugnia
a agradvel notcia de que trouxera a seu pai um convite para o baile que
daria no sbado prximo uma de suas parentas. A perspectiva do baile foi uma
brisa salutar que dispersou o resto das nuvens; Eugnia sorriu. Jai ri; me
voil dsarme, como na comdia de Piron. Vinte minutos depois, no havia
em Eugnia vestgio da cena do jardim. Mas a idia do casamento estava
adiada.
O efeito foi agro e doce para Estcio. Estimando ver dissipada a clera,
doa-lhe que a causa fosse, no a prpria virtude do amor, mas um motivo
comparativamente ftil. A resoluo de a consultar sobre o pedido de
casamento esvaiu-se-lhe como de outras vezes. Saiu dali  noite, antes do
ch, aborrecido e azedo. Esse estado no durou muito; dez minutos depois de
deixar a casa de Camargo, sentiu alguma coisa semelhante  dentada de um
remorso. O amor de Estcio tinha a particularidade de crescer e afirmar-se na
22
ausncia e diminuir logo que estava ao p da moa. De longe, via-a atravs da
nvoa luminosa da imaginao; ao p era difcil que Eugnia conservasse os
dotes que ele lhe emprestava. Da, um dissentimento provvel e um remorso
certo. Agora que a deixava, ia ele irritado contra si mesmo; achava-se ridculo
e cruel; chegava a adorar toda a graciosa futilidade de Eugnia; concedia
alguma coisa  idade,  educao, aos costumes,  ignorncia da vida.
Nesse estado de esprito entrou em casa, onde o esperava um incidente
novo.
Captulo VI
Chegando a casa, achou Estcio remdio ao mau humor. Era uma carta de
Lus Mendona, que dois anos antes partira para a Europa, donde agora
regressava. Escrevia-lhe de Pernambuco, anunciando-lhe que dentro de
poucas semanas estaria no Rio de Janeiro. Mendona fora o seu melhor
companheiro de aula. Havia entre eles certos contrastes de gnio. O de
Mendona era mais folgazo e ativo. Quando este partiu para a Europa, quis
que o antigo colega o acompanhasse, e o prprio conselheiro opinara nesse
sentido. Estcio recusou pelo receio de que, sendo diferente o esprito de um e
outro, a viagem tivesse de obrigar ao sacrifcio de hbitos e preferncias de
um deles.
A notcia da volta de Mendona encheu de contentamento o sobrinho de D.
rsula. D. rsula estava ento na sala de costura, relendo algumas pginas do
seu Saint-Clair, encostada a uma mesa. Do outro lado, ficava Helena, a
concluir uma obra de crochet.
 Titia, disse ele, dou-lhe uma novidade agradvel para mim.
 Que ?
 O Mendona chegou a Pernambuco; est aqui dentro de pouco tempo.
 O Mendona?
 Lus Mendona.
 O que foi para a Europa, sei. H quanto tempo?
 Dois anos.
 Dois anos! Parece que foi ontem.
 No lhe leio a carta que me escreveu por ser muito longa. Diz-me que
devo ir tambm  Europa, quanto antes. Querem ir?
 Eu? disse D. rsula, marcando a pgina do livro com os culos de prata
que at ento conservara sobre o nariz. No so folias para gente velha. Daqui
para a cova.
 A cova! exclamou Helena. Est ainda to forte! Quem sabe se no me
h de enterrar primeiro?
 Menina! exclamou D. rsula em tom de repreenso.
Helena sorriu de alegria e agradecimento; era a primeira palavra de
verdadeira simpatia que ouvia a D. rsula. Bem o compreendeu esta; e talvez
23
a mortificou aquela espontaneidade do corao. Mas era tarde. No podia
recolher a palavra, no podia sequer explic-la.
 Que tal vir o teu amigo? perguntou ela ao sobrinho. Era bom rapaz
antes de ir; um pouco tonto, apenas.
 H de vir o mesmo, respondeu Estcio; ou ainda melhor. Melhor
decerto, porque dois anos mais modificam o homem.
Estcio fez aqui um panegrico do amigo, intercalado com observaes da
tia, e ouvido silenciosamente pela irm. Vieram chamar para o ch. D. rsula
largou definitivamente o seu romance, e Helena guardou o crochet na cestinha
de costura.
 Pensa que gastei toda a tarde em fazer crochet? perguntou ela ao
irmo, caminhando para a sala de jantar.
 No?
 No, senhor; fiz um furto.
 Um furto!
 Fui procurar um livro na sua estante.
 E que livro foi?
 Um romance.
 Paulo e Virgnia?
 Manon Lescaut.
 Oh! exclamou Estcio. Esse livro...
 Esquisito, no ? Quando percebi que o era, fechei-o e l o pus outra
vez.
 No  livro para moas solteiras...
 No creio mesmo que seja para moas casadas, replicou Helena rindo e
sentando-se  mesa. Em todo o caso, li apenas algumas pginas. Depois abri
um livro de geometria... e confesso que tive um desejo...
 Imagino! interrompeu D. rsula.
 O desejo de aprender a montar a cavalo, concluiu Helena.
Estcio olhou espantado para a irm. Aquela mistura de geometria e
equitao no lhe pareceu suficientemente clara e explicvel. Helena soltou
uma risadinha alegre de menina que aplaude a sua prpria travessura.
 Eu lhe explico, disse ela; abri o livro, todo alastrado de riscos que no
entendi. Ouvi porm um tropel de cavalos e cheguei  janela. Eram trs
cavaleiros, dois homens e uma senhora. Oh! com que garbo montava a
senhora! Imaginem uma moa de vinte e cinco anos, alta, esbelta, um busto
de fada, apertado no corpinho de amazona, e a longa cauda do vestido cada a
um lado. O cavalo era fogoso; mas a mo e o chicotinho da cavaleira
quebravam-lhe os mpetos. Tive pena, confesso, de no saber montar a
cavalo...
 Quer aprender comigo?
 Titia consente?
D. rsula levantou os ombros com o ar mais indiferente que pde achar no
seu repertrio. Helena no esperou mais.
24
 Escolha voc o dia.
 Amanh?
 Amanh.
Estcio costumava dar um passeio a cavalo quase todas as manhs. O do
dia seguinte foi dispensado; comeariam as lies de Helena. Antes disso,
porm, escreveu Estcio  filha de Camargo uma carta rescendente a ternura
e afeto. Pedia-lhe desculpa do que se passara na vspera; jurava-lhe amor
eterno; coisas todas que lhe dissera mais de uma vez, com o mesmo estilo, se
no com as mesmas palavras. A carta dissipou-lhe a ltima sombra de
remorso. Antes que ela chegasse ao seu destino, reconciliara-se ele consigo
mesmo. O portador saiu para o Rio Comprido, e ele desceu ao terreiro que
ficava nos fundos da casa, ao p do qual estava situada a cavalaria. Naquele
lado da casa corria a varanda antiga, onde a famlia costumava s vezes tomar
caf ou conversar nas noites de luar, que ali penetrava pelas largas janelas.
Do meio da varanda descia uma escada de pedra que ia ter ao terreiro.
J ali estava Helena. D. rsula emprestara-lhe um vestido de amazona,
com que algumas vezes montara, antes da morte do irmo. O vestido ficavalhe
mal; era folgado demais para o talhe delgado da moa. Mas a elegncia
natural fazia esquecer o acessrio das roupas.
 Pronta! exclamou Helena apenas viu o irmo assomar no alto da escada.
 Oh! isso no vai assim! respondeu Estcio. No suponha que h de
montar j hoje como a moa que ontem viu passar na estrada. Vena
primeiramente o medo...
 No sei o que  medo, interrompeu ela com ingenuidade.
 Sim? No a supunha valente. Pois eu sei o que ele .
 O medo? O medo  um preconceito dos nervos. E um preconceito
desfaz-se; basta a simples reflexo. Em pequena educaram-me com almas do
outro mundo. At a idade de dez anos era incapaz de penetrar numa sala
escura. Um dia perguntei a mim mesma se era possvel que uma pessoa morta
voltasse  terra. Fazer a pergunta e dar-lhe resposta era a mesma coisa. Lavei
o meu esprito de semelhante tolice, e hoje era capaz de entrar, de noite, num
cemitrio... E da talvez no: os corpos que ali dormem tm direito de no
ouvir mais um s rumor de vida.
Estcio chegara ao ltimo degrau da escada. As derradeiras palavras
ouviu-as ele com os olhos fitos na irm e encostado ao poial de pedra.
 Quem lhe ensinou essas idias? perguntou ele.
 No so idias, so sentimentos. No se aprendem; trazem-se no
corao. Senhor gemetra, continuou brandindo caprichosamente o chicote, 
veja se transcreve em algum compndio estas figuras de minha inveno, e
ande cavalgar comigo.
Com um movimento rpido travou da cauda do vestido, e caminhou para
diante. Estcio acompanhou-a, a passo lento, como solicitado por dois
sentimentos diferentes: a afeio que o prendia  irm, e a estranha
impresso que ela lhe fazia sentir. Quando chegou  porta da cavalaria, viu
25
aparelhados dois animais, o cavalo de seus passeios, e a gua que a tia
cavalgava uma ou outra vez.
 Que  isso? disse ele. Por ora vamos a algumas indicaes somente,
aqui no terreiro.
 Justamente! respondeu a moa.
Um escravo, que ali estava, trouxe um tamborete. Estcio aproximou-se de
Helena, que afagava com a mo alva e fina as crinas da gua.
 Como se chama? perguntou ela.
 Moema.
 Moema! Ora espere...  um nome indgena, no ?
Estcio fez um sinal afirmativo. Helena tinha um p sobre o tamborete;
repetiu ainda o nome da gua, como quem refletia sobre ele, sem que o irmo
percebesse que no era aquilo mais do que um disfarce. De repente, quando
ele menos esperava, Helena deu um salto, e sentou-se no selim. A gua alteou
o colo, como vaidosa do peso. Estcio olhou para a irm, admirado da
agilidade e correo do movimento, e sem saber ainda o que pensasse
daquilo. Helena inclinou-se para ele.
 Fui bem? perguntou sorrindo.
 No podia ir melhor; mas o que me admira...
As patas de Moema interromperam a reflexo do moo. A cavaleira
brandira o chicotinho, e o animal sara a trote largo pelo terreiro fora. Estcio,
no primeiro momento, deu um passo e estendeu a mo como para tomar a
rdea ao animal; mas a segurana da moa logo lhe deixou ver que ela no
fazia ali os primeiros ensaios. Ficou parado, de longe, a admirar-lhe o garbo e
a destreza. No fim de vinte passos, Helena torceu a rdea e regressou ao
ponto donde sara.
 Que tal? disse ela logo que estacou. Terei jeito para a equitao?
 Criana!
 Que  isso? J aprendeu? interveio D. rsula, do alto da varanda, onde
acabava de chegar.
 Estava caoando conosco, disse Estcio. V como sabe montar?
 Ela sabe tudo, murmurou D. rsula entre dentes.
Estcio montou no cavalo. Consultou o relgio; eram sete horas e meia.
 Permite que o acompanhe? perguntou Helena.
 Com uma condio, disse ele;  que h de ter juzo. No quero
temeridades; a gua  aparentemente mansa, convm no brincar com ela. J
vejo que voc  capaz de muitas coisas mais...
 Prometo ir pacificamente.
Helena cumprimentou a tia com um gesto gracioso, deu de rdea ao
animal e seguiu ao lado do irmo. Transposto o porto, seguiram os dois para
o lado de cima, a passo lento. O sol estava encoberto e a manh fresca.
Helena cavalgava perfeitamente; de quando em quando a gua, instigada por
ela, adiantava-se alguns passos ao cavalo; Estcio repreendia a irm, a seu
26
pesar, porque ao mesmo tempo que temia alguma imprudncia, gostava de
lhe ver o airoso do busto e a firme serenidade com que ela conduzia o animal.
 No me dir voc, perguntou ele, por que motivo, sabendo montar,
pedia-me ontem lies?
 A razo  clara, disse ela; foi uma simples travessura, um capricho... ou
antes um clculo.
 Um clculo?
 Profundo, hediondo, diablico, continuou a moa sorrindo. Eu queria
passear algumas vezes a cavalo; no era possvel sair s, e nesse caso...
 Bastava pedir-me que a acompanhasse.
 No bastava. Havia um meio de lhe dar mais gosto em sair comigo; era
fingir que no sabia montar. A idia momentnea de sua superioridade neste
assunto era bastante para lhe inspirar uma dedicao decidida...
Estcio sorriu do clculo; logo depois ficou srio, e perguntou em tom
seco:
 J lhe negamos algum prazer que desejasse?
Helena estremeceu e ficou igualmente sria.
 No! murmurou; minha dvida no tem limites.
Esta palavra saiu-lhe do corao. As plpebras caram-lhe e um vu de
tristeza lhe apagou o rosto. Estcio arrependeu-se do que dissera.
Compreendeu a irm; viu que, por mais inocentes que suas palavras fossem,
podiam ser tomadas  m parte, e, em tal caso, o menos que se lhe podia
argir era a descortesia. Estcio timbrava em ser o mais polido dos homens.
Inclinou-se para ela e rompeu o silncio.
 Voc ficou triste, disse Estcio; mas eu desculpo-a.
 Desculpa-me? perguntou a moa erguendo para o irmo os belos olhos
midos.
 Desculpo a injria que me fez, supondo-me grosseiro.
Apertaram-se as mos, e o passeio continuou nas melhores disposies do
mundo. Helena deu livre curso  imaginao e ao pensamento; suas falas
exprimiam, ora a sensibilidade romanesca, ora a reflexo da experincia
prematura, e iam direitas  alma do irmo, que se comprazia em ver nela a
mulher como ele queria que fosse, uma graa pensadora, uma sisudez
amvel. De quando em quando faziam parar os animais para contemplar o
caminho percorrido, ou discretear acerca de um acidente do terreno. Uma vez,
aconteceu que iam falando das vantagens da riqueza.
 Valem muito os bens da fortuna, dizia Estcio; eles do a maior
felicidade da terra, que  a independncia absoluta. Nunca experimentei a
necessidade; mas imagino que o pior que h nela no  a privao de alguns
apetites ou desejos, de sua natureza transitrios, mas sim essa escravido
moral que submete o homem aos outros homens. A riqueza compra at o
tempo, que  o mais precioso e fugitivo bem que nos coube. V aquele preto
que ali est? Para fazer o mesmo trajeto que ns, ter de gastar, a p, mais
uma hora ou quase.
27
O preto de quem Estcio falara, estava sentado no capim, descascando
uma laranja, enquanto a primeira das duas mulas que conduzia, olhava
filosoficamente para ele. O preto no atendia aos dois cavaleiros que se
aproximavam. Ia esburgando a fruta e deitando os pedaos de casca ao
focinho do animal, que fazia apenas um movimento de cabea, com o que
parecia alegr-lo infinitamente. Era homem de cerca de quarenta anos; ao
parecer, escravo. As roupas eram rafadas; o chapu que lhe cobria a cabea,
tinha j uma cor inverossmil. No entanto, o rosto exprimia a plenitude da
satisfao; em todo o caso, a serenidade do esprito.
Helena relanceou os olhos ao quadro que o irmo lhe mostrara. Ao
passarem por ele, o preto tirou respeitosamente o chapu e continuou na
mesma posio e ocupao que dantes.
 Tem razo, disse Helena: aquele homem gastar muito mais tempo do
que ns em caminhar. Mas no  isto uma simples questo de ponto de vista?
A rigor, o tempo corre do mesmo modo, quer o esperdicemos, quer o
economizemos. O essencial no  fazer muita coisa no menor prazo;  fazer
muita coisa aprazvel ou til. Para aquele preto o mais aprazvel , talvez, esse
mesmo caminhar a p, que lhe alongar a jornada, e lhe far esquecer o
cativeiro, se  cativo.  uma hora de pura liberdade.
Estcio soltou uma risada.
 Voc devia ter nascido...
 Homem?
 Homem e advogado. Sabe defender com habilidade as causas mais
melindrosas. Nem estou longe de crer que o prprio cativeiro lhe parecer
uma bem-aventurana, se eu disser que  o pior estado do homem.
 Sim? retorquiu Helena sorrindo; estou quase a fazer-lhe a vontade. No
fao; prefiro admirar a cabea de Moema. Veja, veja como se vai faceirando.
Esta no maldiz o cativeiro; pelo contrrio, parece que lhe d glria. Pudera!
Se no a tivssemos cativa, receberia ela o gosto de me sustentar e conduzir?
Mas no  s faceirice,  tambm impacincia.
 De qu?
 Impacincia de correr por essa estrada da Tijuca fora, e beber o vento
da manh, espreguiando os msculos, e sentindo-se alguma coisa senhora e
livre. Mas que queres tu, minha pobre gua? continuou a moa inclinando a
cabea at s orelhas do animal; vai aqui ao p de ns um homem muito mau
e medroso, que  ao mesmo tempo meu irmo e meu inimigo...
 Helena! interrompeu Estcio; voc  muito capaz de disparar a correr.
 E se fosse?
 Eu deixava-a ir, e nunca a traria em meus passeios. Voc monta bem;
mas no desejo que faa temeridades. Ns somos responsveis, no s por
sua felicidade, mas tambm por sua vida.
Helena refletiu um instante.
 Quer dizer, perguntou ela, que se eu fosse vtima de um desastre, no
faltaria quem o imputasse  minha famlia?
28
 Justo.
 Singular gente! No h de ser tanto assim... Pois se eu me lembrasse 
 uma suposio  se eu me lembrasse de deixar a vida por aborrecimento ou
capricho, seria voc acusado de me haver propinado o veneno? No h melhor
modo de me fazer evitar a morte.
 Deixemos conversas lgubres, e voltemos para casa, interrompeu
Estcio.
 J!
 Raras vezes passo daqui; e no pense voc que  perto.
 Parece-me que ainda agora samos de casa. Vamos uns cinco minutos
adiante? Sim?
Estcio consultou o relgio.
 Cinco minutos justos, disse ele.
 At quela casa que ali est com uma bandeira azul.
Havia, efetivamente, cerca de quatro minutos adiante,  esquerda da
estrada, uma casa de insignificante aparncia, sobro cujo telhado flutuava
uma bandeira azul presa a uma vara. Estcio conhecia a casa, mas era a
primeira vez que via a bandeira. Helena pediu-lhe a explicao daquele
apndice.
 V l saber, disse o irmo rindo.
Helena deu de rdea  gua e adiantou-se alguns passos. Estcio apertou o
animal e alcanou-a.
 No v fazer tolices! disse ele em tom de branda repreenso. Aquilo 
fantasia do morador, ou algum sinal de pssaros, ou qualquer outra coisa que
no vale a pena de uma travessura. Contemplemos antes a manh, que est
deliciosa.
Helena no atendeu  proposta do irmo e foi andando, a passo lento, na
direo da casa. A casa era velha, abrindo por uma porta para o alpendre
antigo que lhe corria na frente. As colunas deste estavam j lascadas em
muitas partes, aparecendo, aqui e ali, a ossada de tijolo. A porta estava meio
aberta. Havia absoluta solido, aparente ao menos. Quando eles lhe passaram
pela frente, a porta abriu-se, mas se algum espreitava por ela, ficou sumido
na sombra, porque ningum de fora o viu.
Cerca de cinco braas adiante, Estcio resolveu definitivamente regressar,
e Helena no ps objeo nenhuma. Torceram a rdea aos animais e
desceram.
 No poderei falar  bandeira? perguntou a moa. Deixe-me ao menos
dizer-lhe adeus.
Tinha j tirado da algibeira o seu fino leno de cambraia; agitou-o na
direo da casa. Quis o acaso que a bandeira, at ento quieta, se movesse ao
sopro de uma aragem que passou.
 V como ela me respondeu? No se pode ser mais corts! exclamou
Helena, rindo.
29
Estcio riu tambm da lembrana da irm, e, ambos desceram, a passo
lento, como haviam subido. Helena vinha taciturna e pensativa. Os olhos,
cravados nas orelhas de Moema, no pareciam ver sequer o caminho que o
animal seguia. Estcio, para arranc-la ao silncio, fez-lhe uma observao
acerca de um incidente do caminho. Helena respondeu distraidamente.
 Que tem voc? perguntou ele.
 Nada, disse ela; ia... ia embebida naquela toada. No ouve?
Ouvia-se, efetivamente, a algumas braas adiante, uma cantiga da roa,
meio alegre, meio plangente. O cantor apareceu, logo que os cavaleiros
dobraram a curva que a estrada fazia naquele lugar. Era o preto, que pouco
antes tinham visto sentado no cho.
 Que lhe dizia eu? observou a irm de Estcio. Ali vai o infeliz de h
pouco. Uma laranja chupada no capim e trs ou quatro quadras,  o bastante
para lhe encurtar o caminho. Creia que vai feliz, sem precisar comprar o
tempo. Ns poderamos dizer o mesmo?
 Por que no?
A moa recolheu-se ao silncio.
 Helena, isso que voc acaba de dizer... Vamos, estamos ss; confesse
alguma tristeza que tenha.
 Nenhuma, respondeu a moa. Peo-lhe, entretanto, uma coisa.
 Diga.
 Peo-lhe que me comunique todas as ms impresses que tiver a meu
respeito. Explicarei umas, procurarei desvanecer-lhe outras, emendando-me.
Sobretudo, peo-lhe que escreva em seu esprito esta verdade:  que sou uma
pobre alma lanada num turbilho.
Estcio ia pedir explicao mais desenvolvida daquelas ltimas palavras;
mas Helena, como se esperasse a pergunta, brandira o chicote, e deitou a
gua a correr. Estcio fez o mesmo ao cavalo; da a alguns minutos entravam
na chcara, ele aturdido e curioso, ela com a face vermelha e a bater-lhe
violentamente o corao.
Captulo VII
Apearam-se os dois no terreiro e dirigiram-se para a escada que ia ter 
varanda. Pisando o primeiro degrau, disse Estcio:
 Helena, explique-me suas palavras de h pouco.
 Quais?
E como Estcio levantasse os ombros, com ar de despeito, continuou
Helena:
 Perdoe-me; a pergunta no tem nem podia ter outra resposta mais do
que a simples recusa. No lhe direi mais nada. Nunca se devem fazer meias
confisses; mas, neste caso, a confisso inteira seria imprudncia maior. Se se
tratasse de fatos, creia que a ningum melhor podia confi-los do que a voc;
30
mas por que motivo irei perturbar-lhe o esprito com a narrao de meus
sentimentos, se eu prpria no chego a entender-me?
Estcio no insistiu. Subiram a escada, atravessaram a varanda e entraram
na sala de jantar, onde acharam D. rsula dando as ordens daquele dia a dois
escravos. Estcio entrou pensativo; Helena mudou totalmente de ar e
maneiras. Alguns segundos antes era sincera a melancolia que lhe
ensombrava o rosto. Agora regressara  jovialidade de costume. Dissera-se
que a alma da moa era uma espcie de comediante que recebera da natureza
ou da fortuna, ou talvez de ambas, um papel que a obrigava a mudar
continuamente de vesturio. D. rsula viu-a entrar risonha e ir a ela dar-lhe
os costumados  bons dias  que eram sempre um beijo,  ou antes dois, 
um na mo, outro na face.
 Demorei-me muito? perguntou ela voltando rapidamente o corpo, de
maneira a ver o relgio que ficava do outro lado da sala. Nove horas! Que
passeio, Sr. meu irmo!
Estcio olhava para ela silencioso e no lhe respondeu. Foram logo mudar
de roupa, e o almoo reuniu a famlia. D. rsula props, durante ele, algumas
mudanas na disposio da chcara, mudanas que foram longamente
discutidas com o sobrinho, e aceitas afinal por este. O dia estava sombrio e
fresco; D. rsula desceu  chcara com Estcio. As alteraes foram ainda
estudadas e combinadas no prprio terreno, com assistncia do feitor. Logo
que acabou a deliberao e que o projeto de D. rsula foi definitivamente
assentado, Estcio reteve-a e lhe disse:
 Preciso falar-lhe um instante.
 Tambm eu.
 Quais so os seus sentimentos atuais em relao a Helena? Oh! no
precisa franzir a testa nem fazer esse gesto de aborrecimento. Tudo so meras
aparncias. No creio que seja absolutamente amiga dela; mas no pode
negar que a antipatia desapareceu ou diminuiu muito.
 Diminuiu, talvez.
 E com razo. Pensa que tambm eu no tive repugnncias, depois que
ela aqui entrou? Tive-as; mas se no houvessem desaparecido, 
desapareceriam hoje de manh.
 Como?
Estcio referiu  tia a cena do captulo anterior e as palavras que lhe
dissera Helena. D. rsula sorriu ironicamente.
 No a impressiona isto? perguntou Estcio.
 No, respondeu D. rsula com deciso; a frase de Helena  achada em
algum dos muitos livros que ela l. Helena no  tola; quer prender-nos por
todos os lados, at pela compaixo. No te nego que comeo a gostar dela; 
dedicada, afetuosa, diligente; tem maneiras finas e algumas prendas de
sociedade. Alm disso,  naturalmente simptica. J vou gostando dela; mas 
um gostar sem fogo nem paixo, em que entra boa dose de costume e
necessidade. A presena de outra mulher nesta casa  conveniente, porque eu
31
estou cansada. Helena preenche essa lacuna. Se alguma coisa, entretanto, a
podia prejudicar nas nossas relaes  esse dito.
Estcio tomou calorosamente a defesa da irm.
 O que eu lhe contei, disse ele, foram apenas as palavras. No pude nem
poderia reproduzir a expresso sincera com que ela as proferiu, e a profunda
tristeza que havia em seus olhos. No lhe nego que, ao v-la mudar to
depressa e entrar alegre na sala, senti tal ou qual abalo de dvida, mas
passou logo. Ela tem o poder de concentrar a amargura no corao; tambm a
dor tem suas hipocrisias...
 Mas que dor? que amargura? interrompeu D. rsula. A dor de ser
legitimada? a amargura de uma herana?
Estcio protestou calorosamente contra aquele caminho que a tia dava s
suas idias; enfim pediu-lhe que interrogasse com cautela a irm.
 Um homem, concluiu ele,  menos apto para obter tais confisses; uma
senhora, respeitvel e parenta, est mais no caso de lhe captar a confiana e
obter tudo. Quer incumbir-se desse delicado papel?
 Pedes muito, respondeu D. rsula. Verei se te posso dar metade disso.
Era s o que tinhas para dizer?
 S.
 Uma criancice! Eu tenho coisa mais sria. O Dr. Camargo escreveu-me;
trata-se...
 No precisa dizer mais nada, interrompeu Estcio; l vem ele.
Camargo aparecera efetivamente a vinte passos de distncia.
 Doutor, disse D. rsula, logo que este se aproximou deles, chega um
pouco fora de propsito. Eu mal tive tempo de assustar meu sobrinho, que
ainda no sabe o que o senhor lhe quer.
 Saber agora;  s bastante que a senhora lhe diga que me aprova.
 Completamente.
 Trata-se... disse Estcio.
 De uma conspirao; todos conspiramos em seu benefcio.
D. rsula retirou-se para casa; os dois ficaram ss. Uma vez ss, Camargo
pousou a mo no ombro de Estcio, fitou-o paternalmente, enfim perguntoulhe
se queria ser deputado. Estcio no pde reprimir um gesto de surpresa.
 Era isso? disse ele.
 Creio que no se trata de um suplcio. Uma cadeira na cmara! No  a
mesma coisa que um quarto no aljube...
 Mas a que propsito...
 Esta idia apoquentava-me h algumas semanas. Doa-me v-lo vegetar
os seus mais belos anos numa obscuridade relativa. A poltica  a melhor
carreira para um homem em suas condies; tem instruo, carter, riqueza;
pode subir a posies invejveis. Vendo isso, determinei met-lo na Cadeia...
Velha. Fala-se em dissoluo. Para facilitar-lhe o sucesso, entendi-me com
duas influncias dominantes. O negcio afigura-se-me em bom caminho.
32
Estcio ouviu com desagrado as notcias que lhe dava o mdico.
 Mas, doutor, disse ele depois de curto silncio, houve de sua parte
alguma precipitao. Pelo menos, devia consultar-me. Do modo por que
arranjou as coisas, quase me acho desobrigado de lhe agradecer a inteno.
Quanto a aceitar, no aceito.
Camargo no perdeu a tramontana; deixou passar por cima da cabea a
primeira onda de desagrado, surgiu fora e insistiu tranqilamente:
 Vejamos as coisas com os culos do senso comum. Em primeiro lugar,
no creio que tenha outros projetos na cabea...
 Talvez.
 Duvido que sejam mais vantajosos do que este. A cincia  rdua e seus
resultados fazem menos rudo. No tem vocao comercial nem industrial.
Medita alguma ponte pnsil entre a Corte e Niteri, uma estrada at Mato
Grosso ou uma linha de navegao para a China?  duvidoso. Seu futuro tem
por ora dois limites nicos, alguns estudos de cincia e os aluguis das casas
que possui. Ora, a eleio nem lhe tira os aluguis nem obsta a que continue
os estudos; a eleio completa-o, dando-lhe a vida pblica, que lhe falta. A
nica objeo seria a falta de opinio poltica; mas esta objeo no o pode
ser. H de ter, sem dvida, meditado alguma vez nas necessidades pblicas,
e...
 Suponha,   mera hiptese,  que tenho alguns compromissos com a
oposio.
 Nesse caso, dir-lhe-ei que ainda assim deve entrar na cmara  embora
pela porta dos fundos. Se tem idias especiais e partidrias, a primeira
necessidade  obter o meio de as expor e defender. O partido que lhe der a
mo,  se no for o seu,  ficar consolado com a idia de ter ajudado um
adversrio talentoso e honesto. Mas a verdade  que no escolheu ainda entre
os dois partidos; no tem opinies feitas. Que importa? Grande nmero de
jovens polticos seguem, no uma opinio examinada, ponderada e escolhida,
mas a do crculo de suas afeies, a que os pais ou amigos imediatos
honraram e defenderam, a que as circunstncias lhe impem. Da vm
algumas legtimas converses posteriores. Tarde ou cedo o temperamento
domina as circunstncias da origem, e do boto luzia ou saquarema nasce um
magnfico lrio saquarema ou luzia. Demais, a poltica  cincia prtica; e eu
desconfio de teorias que s so teorias. Entre primeiro na cmara; a
experincia e o estudo dos homens e das coisas lhe designaro a que lado se
deve inclinar.
Estcio ouviu atento estas vozes com que a serpente lhe apontava para a
rvore da cincia do bem e do mal. Menos curioso que Eva, entrou a discutir
filosoficamente com o rptil.
 Entra-se na poltica, disse ele, por vocao legtima, ambio nobre,
interesse, vaidade, e at por simples distrao. Nenhum desses motivos me
impele a dobrar o cabo Tormentrio...
33
 Da Boa Esperana, emendou Camargo rindo; no suprima trs sculos
de navegao.
Estcio riu tambm. Depois falou ao mdico da sua ndole e ambies. No
negava que tivesse ambies; mas nem s as havia polticas, nem todas eram
da mesma estatura. Os espritos, disse ele, nascem condores ou andorinhas,
ou ainda outras espcies intermdias. A uns  necessrio o horizonte vasto, a
elevada montanha, de cujo cimo batem as asas e sobem a encarar o sol;
outros contentam-se com algumas longas braas de espao e um telhado em
que vo esconder o ninho. Estes eram os obscuros, e, na opinio dele, os mais
felizes. No seduzem as vistas, no subjugam os homens, no os menciona a
histria em suas pginas luminosas ou sombrias; o vo do telhado em que
abrigaram a prole, a rvore em que pousaram, so as testemunhas nicas e
passageiras da felicidade de alguns dias. Quando a morte os colhe, vo eles
pousar no regao comum da eternidade, onde dormem o mesmo perptuo
sono, tanto o capito que subiu ao sumo estado por uma escada de mortos,
como o cabreiro que o viu passar uma vez e o esqueceu duas horas depois.
Suas ambies no eram to nfimas como seriam as do cabreiro; eram as do
proprietrio do campo que o capito atravessasse. Um bom peclio, a famlia,
alguns livros e amigos,  no iam alm seus mais arrojados sonhos.
Um sorriso de lstima foi a primeira resposta do mdico.
 Meu caro Estcio, disse ele depois, esse trocadilho de andorinhas e
cabreiros  a coisa mais extraordinria que eu esperava ouvir a um
matemtico. Saiba que detesto igualmente a filosofia da obscuridade e a
retrica dos poetas. Sobretudo, gosto que respondam em prosa quando falo
em prosa.
 Parece-lhe que poetei? perguntou Estcio rindo.
 Despropositadamente. Ora, eu falo de coisas srias; e convm no
confundir alhos, que so a metade prtica da vida, com bugalhos, que so a
parte ideolgica e v.
 Eu serei idelogo.
 No tem direito de o ser.
 Pois bem, deixe-me com as minhas matemticas, as minhas flores, as
minhas espingardas.
 No! H de intercalar tudo isso com um pouco de poltica.
Puxando-o familiarmente pela gola do palet, Camargo f-lo sentar ao p
de si, no banco que ali estava mais prximo. Depois falou. O novo discurso foi
o mais longo que proferiu em todos os seus dias. Nenhuma das vantagens da
vida pblica deixou de ser apontada com uma complacncia de tentador;
todas as glrias, pompas e satisfaes da poltica, e no s as reais, mas as
fictcias ou duvidosas, foram inventariadas, pintadas, douradas e iluminadas
pelo mdico. A palavra revelou um poder de evocao, uma veemncia, uma
energia, que ningum era capaz de supor-lhe. O taciturno desabrochou
tagarela. Para falar tanto e com tal fora era preciso que o animasse um
grande sentimento ou um grande interesse.
34
Estcio, lisonjeado com a afeio que ele lhe mostrava, no teve ensejo de
fazer essa reflexo. Nem se animou a repetir a recusa; adotou o alvitre de
diferir a resposta para outra ocasio.
 J lhe disse o que sinto a tal respeito. Contudo, estou pronto a refletir, e
a consultar o padre Melchior e Helena.
O nome de Helena produziu em Camargo uma careta interior.
Exteriormente, no passou o efeito de um sorriso sardnico e dissimulado.
Interveio uma pitada de rap, que o mdico inseriu lentamente, depois de a
extrair de uma boceta de tartaruga, presente do conselheiro Vale.
 Helena! disse ele com alguma hesitao. Que vem fazer sua irm neste
negcio?
  um voto, redargiu Estcio; e menos leve do que lhe parece. H nela
muita reflexo escondida, uma razo clara e forte, em boa harmonia com as
suas outras qualidades feminis.
Entre as sobrancelhas de Camargo projetou-se uma longa ruga, e foi toda
a expresso de seu espanto e desgosto. A resposta de Estcio revelara-lhe
uma situao nova na famlia: o voto de Helena, consultivo agora, podia vir a
ser preponderante. Esta soluo, que porventura faria estremecer de alegria
os ossos do conselheiro, no a previra o mdico. Limitou-se a not-la de si
para si; e, terminando subitamente a conversa, disse:
 Consulte as pessoas de seu agrado. Quem no estiver com a minha
opinio, no  seu amigo. Em todo o caso, ningum lhe poder afirmar que
no  a amizade, a longa amizade...
Estcio cortou-lhe a palavra, apertando-lhe afetuosamente a mo. Tinhamse
levantado. Era quase meio-dia; Camargo despediu-se ali mesmo; ia ver
dois doentes no caminho da Tijuca. O filho do conselheiro atravessou sozinho
a chcara; ia pensativo, e aborrecido. A poltica, na sua opinio, era uma noiva
importuna; mas, se todos conspirassem a favor dela, no seria ele obrigado a
despos-la? A esta reflexo respondeu a voz do padre Melchior, do alto de
uma janela:
 Venha c, senhor deputado; quando teremos o seu primeiro discurso?
Captulo VIII
D. rsula tinha j confiado ao velho capelo a proposta de Camargo.
Consultado por Estcio, respondeu o padre:
 Consulte as suas foras e a responsabilidade do cargo, e escolha.
 J escolhi, disse Estcio; pedia-lhe conselho para apoiar melhor a minha
prpria deciso. No  esse o destino de todos os conselhos? Decidi que no
aceito a candidatura. A vida poltica  turbulenta demais para o meu esprito.
Estou pronto para a ao, mas no h de ser exterior. Dado o meu
temperamento, que iria eu buscar  cmara, alm de algumas prerrogativas e
um papel acessrio? Eu s me meteria na poltica se pudesse oficiar; mas ser
apenas sacristo...
35
 Entre o oficiante e o sacristo, observou Melchior, est o pregador, que
 cargo nobre e influente.
 Mas o tema do sermo, padre-mestre? retorquiu Estcio rindo; falta-me
o tema.
D. rsula, a quem seduziam exclusivamente a posio e o rumor pblico
em favor do sobrinho, viu naquelas razes um pretexto ou uma puerilidade.
Defendeu, como pde, a causa de Camargo; instou com o sobrinho para que
refletisse maduramente, antes de qualquer resposta definitiva. Estcio
prometeu como prometera ao mdico, por simples condescendncia; mas
sobretudo para por termo ao assunto e ir saber a causa do sorriso quase
imperceptvel que viu roar os lbios de Helena. A moa erguera-se e dirigirase
para uma das janelas; Estcio foi at ali.
 Adivinhei, pelo seu sorriso, disse ele, que tudo isto lhe parece pueril, e
que eu fao bem em no aceitar o que se me oferece.
Helena olhou um pouco espantada para ele, mas respondeu com
tranqilidade:
 Pelo contrrio, penso que deve aceitar. Alm de haver consentimento de
minha tia, parece ser um grande desejo do pai de Eugnia.
Era a primeira vez que Helena aludia ao amor de Estcio, e fazia-o por
modo encoberto e oblquo. Estcio escapou dessa vez  regra de todos os
coraes amantes: resvalou pela aluso e discutiu gravemente o assunto da
candidatura. Era pesado demais para cabea feminina; Helena intercalou uma
observao sobre dois passarinhos que bailavam no ar, e Estcio aceitou a
diverso, deixando em paz os eleitores.
Durante dois dias no saiu ele de casa. Tendo recebido alguns livros novos,
gastou parte do tempo em os folhear, ler alguma pgina, coloc-los nas
estantes, alterando a ordem e a disposio dos anteriores, com a prolixidade e
o amor do biblifilo. Helena ajudava-o nesse trabalho,  um pouco parecido
com o de Penlope,  porque a ordem estabelecida ao meio-dia era s vezes
alterada s duas horas, e restaurada na seguinte manh. Estcio, entretanto,
no ficava todo entregue aos livros; admirava a solicitude da irm, a ordem e
o cuidado com que ela o auxiliava. Helena parecia no andar; o vulto
resvalava silenciosamente, de um lado para outro, obedecendo s indicaes
do irmo, ou pondo em experincia uma idia sua. Estcio parava s vezes,
fatigado; ela continuava imperturbavelmente o servio. Se ele lhe fazia algum
reparo, a moa respondia erguendo os ombros ou sorrindo, e prosseguia.
Ento Estcio segurava-lhe nos pulsos e exclamava rindo:
 Sossega, borboleta!
Helena parava, mas eram s poucos minutos; volvia logo ao trabalho com
a mesma serena agitao. Era assim que as horas se passavam na intimidade
mais doce, e que a recproca afeio ia excluindo toda a preocupao alheia;
era assim que a influncia de Helena assumia as propores de voto
preponderante.
36
No terceiro dia, D. Tomsia e Eugnia foram jantar a Andara. Eugnia
estava nesse dia mais sisuda e dcil que nunca; dissera-se que trazia a alma
to nova como o vestido, e menos enfeitada que ele. Estcio sentiu-se
satisfeito; o ideal reconciliava-se com o real. Puderam falar sozinhos, mais de
uma vez; todas as pessoas da casa pareciam conspiradas para lhes deixar a
solido. Foi ela quem recordou a proposta poltica do pai, da qual soubera
casualmente, ouvindo a narrao que este fizera a D. Tomsia. O desejo de
Eugnia era pela afirmativa; e Estcio, receoso de despertar os caprichos
adormecidos da moa, frouxamente resistiu, e consentiu ainda mais
frouxamente em reconsiderar o assunto.
 Deputado! exclamava Eugnia com os olhos no cu.
Estcio acompanhou Eugnia e D. Tomsia na carruagem que as levou ao
Rio Comprido. O dia fora mais ou menos alegre; a viagem foi divertida e
palreira como um regresso de romaria. Os cavalos mostravam-se to lpidos
como as pessoas que iam no carro, e encurtaram alguns minutos o caminho,
com desgosto de Eugnia.
Voltando a Andara, Estcio trazia a alma pura de todas as ms impresses
que lhe deixavam usualmente as visitas  casa de Camargo. Nenhum
dissentimento houvera naquele dia. Eugnia parecia modificada. Em casa
esperava-o, porm, uma desagradvel notcia: a tia sentira-se incomodada
pouco depois que ele sara e recolhera-se ao quarto. O caso afligiu-o, mas no
tardou a aparecer Helena, que o tranqilizou, dizendo-lhe que D. rsula tinha
apenas uma forte dor de cabea, j diminuda com o emprego de um remdio
caseiro.
No dia seguinte de manh, informado de que a tia dormia
sossegadamente, Estcio abriu uma das janelas do quarto e relanceou os
olhos pela chcara. A alguns passos de distncia, entre duas laranjeiras, viu
Helena a ler atentamente um papel. Era uma carta, longa de todas as suas
quatro laudas escritas. Seria alguma mensagem amorosa?
Esta idia molestou-o muito. Afastou-se da janela, conchegou as cortinas,
e pela fresta procurou observar a irm. Helena estava de p, no mesmo lugar,
e percorria rapidamente as linhas, at ao final da ltima pgina. Ali chegando,
deu dois passos, tornou a parar, volveu ao princpio da carta, para a ler de
novo, no j depressa, mas repousadamente. Estcio sentiu-se movido de
imperiosa curiosidade,  qual vinha misturar-se uma sombra de despeito e
cime. A idia de que Helena podia repartir o corao com outra pessoa
desconsolava-o, ao mesmo tempo que o irritava. A razo de semelhante
exclusivismo no a explicou ele, nem tentou investig-la; sentiu-lhe somente
os efeitos, e ficou ali sem saber que faria. Duas vezes saiu da janela para ir ter
com a irm, mas recuou de ambas, refletindo que a curiosidade pareceria
impolidez, se no era talvez tirania. Ao cabo de alguns minutos de hesitao,
saiu do quarto e dirigiu-se  chcara.
Quando ali chegou, Helena passeava lentamente, com os olhos no cho.
Estcio parou diante dela.
37
 J fora de casa! exclamou em tom de gracejo.
Helena tinha a carta na mo esquerda; instintivamente a amarrotou como
para escond-la melhor. Estcio, a quem no escapou o gesto, perguntou-lhe
rindo se era alguma nota falsa.
 Nota verdadeira, disse ela, alisando tranqilamente o papel, e dobrandoo
conforme recebera;  uma carta.
 Segredos de moa?
 Quer l-la? perguntou Helena, apresentando-lha.
Estcio fez-se vermelho e recusou com um gesto. Helena dobrou
lentamente o papel e guardou-o na algibeira do vestido. A inocncia no teria
mais puro rosto; a hipocrisia no encontraria mais impassvel mscara. Estcio
contemplava-a, a um tempo envergonhado e suspeitoso; a carta fazia-lhe
ccegas; o olhar ambicionava ser como o da Providncia que penetra nos mais
ntimos refolhos do corao. Vieram, entretanto, dizer a Helena que D. rsula
lhe pedia fosse ter com ela. Estcio ficou s. Uma vez s, entregou-se a um
inqurito mental sobre a procedncia da misteriosa missiva. Um indcio havia
de que podia conter alguma coisa secreta: era o gesto com que ela a
escondeu. Mas no podia ser de alguma antiga companheira do colgio, que
lhe confiava segredos seus? Estcio abraou com alvoroo esta hiptese.
Depois, ocorreu-lhe que, ainda provindo de uma amiga, a carta podia tratar de
algum idlio de colgio, em que Helena fosse protagonista, idlio vivo ou morto,
pgina de esperana ou de saudade. Ainda nesse caso, que tinha ele com isso?
Fazendo esta ltima reflexo, Estcio sacudiu do esprito o assunto e
seguiu a examinar as novas obras da chcara, entre as quais figurava um
vasto tanque. J ali estavam os operrios; ia comear o trabalho do dia.
Estcio viu a obra feita e deu vrias indicaes novas. Algumas eram
contrrias ao plano assentado; como lhe fizessem tal observao, Estcio
retificou-as. Depois admirou-se de no ver um vaso, que alis dois dias antes
mandara remover; enfim, recomendou a rega de uma planta, ainda mida da
gua que o feitor lhe deitara nessa manh.
D. rsula no estava de todo boa, mas pde almoar  mesa comum. O
sobrinho apareceu aborrecido, a sobrinha triste; o dilogo foi mastigado como
o almoo. No fim deste, recebeu Estcio uma carta de Eugnia. Era uma
tagarelice meio frvola, meio sentimental, mistura de risos e suspiros, sem
objeto definido a no ser pedir-lhe que escrevesse se no pudesse ir v-la.
Acabava ele de ler a carta, quando Helena lhe apareceu  porta do
gabinete. No a escondeu; lembrou-lhe mostr-la  irm, na esperana de que
esta, pagando-lhe com igual confiana, lhe mostrasse a sua. Helena percorreu
com os olhos a carta de Eugnia e esteve algum tempo silenciosa.
 Permite-me um conselho? perguntou ela.
E como Estcio respondesse com um gesto de assentimento:
 V ter com Eugnia, solicite licena para ir pedi-la a seu pai, e conclua
isso quanto antes. No  verdade que se amam? Dela creio poder afirmar que
sim; de voc...
38
 De mim?
 Penso que  mais duvidoso; ou voc  mais hbil. H de ser isso.
Naturalmente parece-lhe fraqueza amar,  isto , a coisa mais natural do
mundo,  a mais bela,  no direi a mais sublime. Os homens srios tm
preconceitos extravagantes. Confesse que ama, que no  indiferente a esse
sentimento inexprimvel que liga, ou para sempre, ou por algum tempo, duas
criaturas humanas.
 Ou por algum tempo! repetiu mentalmente Estcio.
E estas quatro palavras, to naturais e to comuns, tinham ares de uma
revelao nova no estado de esprito em que ele se achava. Se Helena tivesse
propsito de lhe lanar a perplexidade na alma, no empregaria mais eficaz
conceito. Seria na verdade aquele amor, to travado de desnimos,
dissentimentos e alternativas, to discutido em seu prprio corao, uma
afeio destinada a perecer no ocaso da primeira lua matrimonial?
 Pois sim, concordou ele, ao cabo de alguns instantes,  verdade.
Eugnia no me  indiferente; mas poderei estar certo dos sentimentos dela?
Ela mesma poder afirmar alguma coisa a tal respeito? H ali muita frivolidade
que me assusta; ilude-a, talvez, uma impresso passageira.
 Pode ser; mas ao marido cabe a tarefa de fixar essa impresso
passageira... O casamento no  uma soluo, penso eu;  um ponto de
partida. O marido far a mulher. Convenho que Eugnia no tem todas as
qualidades que voc desejaria; mas, no se pode exigir tudo: alguma coisa 
preciso sacrificar, e do sacrifcio recproco  que nasce a felicidade domstica.
As reflexes eram exatas; por isso mesmo Estcio as interrompeu. O filho
do conselheiro achava-se numa posio difcil. Caminhara para o casamento
com os olhos fechados; ao abri-los, viu-se  beira de uma coisa que lhe
pareceu abismo, e era simplesmente um fosso estreito. De um pulo poderia
transp-lo; mas, se no era irresoluto nem dbil, tinha ele acaso vontade de
dar esse salto?
Insistindo Helena, prometeu ele que nessa tarde iria visitar Camargo. De
tarde desabou um temporal violento. A fora do vento e da trovoada
abrandou; mas a chuva continuou a cair com a mesma violncia; era
impossvel ir ao Rio Comprido. Estcio estimou aquele obstculo; era melhor
adorar de longe a imagem da moa do que ir colher algum desgosto junto a
ela.
De p, encostado a uma das vidraas da sala de visitas, via cair as grossas
toalhas de gua. Ao lado estava sentada Helena, no alegre, mas taciturna e
melanclica.
  to bom ver chover quando estamos abrigados! exclamou ele. Tenho
l na estante um poeta latino que diz alguma coisa neste sentido... Que tem
voc?
 Estou pensando nos que no tm abrigo ou o tm mau; nos que no
tm, neste momento, nem tetos slidos nem coraes amigos ao p de si.
39
A voz da moa era trmula; uma lgrima lhe brotou dos olhos, to rpida
que ela no teve tempo de a dissimular. Surpreendida nessa manifestao de
sensibilidade, inexplicvel talvez para o irmo, ergueu-se e procurou gracejar
e rir. O riso parecia uma cristalizao da lgrima, e o gracejo tinha ares de
responso. Estcio no se iludiu; nada daquilo era claro, ou era to claro como
a carta. O olhar, severo e frio, interrogou mudamente a moa. Helena, que
tivera tempo de se tranqilizar, voltou o rosto para a rua, e comeou a rufar
com os dedos na vidraa.
Captulo IX
Naquela mesma noite, D. rsula, que no havia de todo melhorado,
adoeceu deveras. A famlia, mal convalescida da perda do velho chefe, via-se
agora ameaada de uma nova dor, em todo o caso, exposta a novos receios.
Dr. Camargo declarou que o caso era grave, e deu princpio a rigoroso
tratamento.
Helena era naquela ocasio a natural enfermeira. Pela primeira vez
patenteou-se em todo o esplendor a dedicao filial da moa. Horas do dia, e
no poucas noites inteiras, passava-as na alcova de D. rsula, atenta a todos
os cuidados que a gravidade da enferma exigia. Os remdios e o pouco
alimento que esta podia receber, no lhe eram dados por outras mos. Helena
velava  cabeceira, durante o sono leve e interrompido da doente, achando
em suas prprias foras a resistncia que a natureza confiou especialmente s
mes. Quando dava algum repouso ao corpo, no era ele ininterrupto nem
longo; e mais de uma vez, alta noite, erguia-se do leito, colocado
provisoriamente no quarto contguo, para ir espreitar a mucama que, em seu
lugar, acompanhava a enferma. As prescries do mdico era ela que as
recebia e cumpria. A voz seca e dura com que Camargo lhe falava, no era
prpria a torn-lo amvel e aceito; mas Helena cerrava os ouvidos  antipatia
do homem para s obedecer ao mdico. Este no tinha outra pessoa a quem
interrogasse acerca dos fenmenos da doena, nem podia achar quem melhor
os observasse e referisse; fora lhe era aceit-la. Assim, essas duas pessoas
que se repeliam e detestavam, iam de acordo, desde que se tratava da vida de
um terceiro.
O que completava a pessoa de Helena, e ainda mais lhe mereceu o
respeito de todos,  que, no meio das ocupaes e preocupaes daqueles
dias, no fez padecer um s instante a disciplina da casa. Ela regeu a famlia e
serviu a doente, com igual desvelo e benefcio. A ordem das coisas no foi
alterada nem esquecida fora da alcova de D. rsula; tudo caminhou do mesmo
modo que antes, como se nada extraordinrio se houvesse dado, Helena sabia
dividir a ateno sem a dispersar.
De si  que ela no curou muito. O vestido era singelo. Os cabelos,
colhidos  pressa e presos por um pente no alto da cabea, no receberam,
em todo aquele tempo, a forma elegante e graciosa com que ela os sabia
40
realar. Acrescia o abatimento, que era impossvel evitar no meio de tanta
fadiga, certo cansao dos olhos, que os fazia moles e talvez mais adorveis,
um rosto sem riso nem viveza, um silncio atento e laborioso.
A doena durou cerca de vinte dias. Afinal, venceu a prpria natureza de D.
rsula, robusta apesar dos anos. A convalescena comeou; com ela volveu a
satisfao da famlia. O papel de Helena no estava acabado; diminua,
contudo, e Estcio interveio para que a irm tivesse, enfim, alguns dias de
absoluto repouso. Ela recusou, dizendo que o repouso perdido aos poucos
seria aos poucos recuperado.
Havia no corao de D. rsula uma fonte de ternura, que Helena devia
tocar, para jorrar livre e impetuosamente. A dedicao, em tal crise, foi a vara
misteriosa daquela Horeb. A afeio da tia era at ento frouxa, voluntria e
deliberada. Depois da molstia, avultou espontnea. A experincia do carter
da moa dera esse resultado inevitvel. Toda a preveno cessou; a gratido
da vida ligou fortemente o que tantas circunstncias anteriores pareciam
separar. No o ocultou a irm do conselheiro; j no tinha acanhamento nem
reserva, as palavras subiam do corao  boca sem atenuao nem clculo;
fez-se carinhosa e me.
No dia em que ela pde sair do quarto pela primeira vez, Helena deu-lhe o
brao e levou-a at  sala de costura e das reunies ntimas. Estcio amparoua
do outro lado. Ali chegando, foi ela sentada numa poltrona. Estcio abriu um
pouco a janela, para penetrar, alm da luz, um pouco de ar. D. rsula respirou
 larga, como lavando o pulmo com aquela primeira onda de vida. Depois,
segurando as mos de Helena, que ficara de p a seu lado, f-la inclinar a
fronte, e imprimiu-lhe um beijo longo e verdadeiramente maternal. Estcio
aproximara-se; aquela manifestao encheu-o de jbilo.
 Bem merecido beijo! exclamou ele. Helena foi um anjo em todo este
tempo.
 Bem sei, retorquiu D. rsula; foi um verdadeiro anjo, foi mulher, me e
filha. Obrigada, Helena! Pode ser que a medicina tenha ajudado a cura, mas o
principal mrito  s teu.
Helena abraou a convalescente.
 Estcio, disse esta, agradece  tua irm, como eu fiz.
Estcio inclinou-se para Helena, a fim de lhe pousar na fronte o casto
sculo de irmo. No o conseguiu, porque Helena, desviando o busto,
estendeu-lhe sorrindo a mo esquerda e disse:
 No foi servio que merecesse tanta paga; basta um aperto de mo e o
afeto de todos.
Estcio apertou-lhe a mo, e sentiu-lha trmula. Aquele movimento de
castidade no lhe pareceu exagerado nem descabido; achou-a assim mais
bela. Uma criatura to ciosa de si mesma, que nem admitia a carcia do irmo,
no era digna de honrar o nome da famlia?
A convalescena de D. rsula foi lenta, e no a houve mais rodeada de
cuidados e atenes. Os dois sobrinhos no a deixaram um instante sozinha, e
41
inventavam toda a sorte de recreio com que pudessem distra-la: jogos de
famlia ou leitura, msica ou simples palestra ntima. Uma vez, lembraram-se
de representar, s para ela, uma comdia de duas pessoas. Outra vez, Helena
organizou um sarau musical, em que tomaram parte Eugnia Camargo e mais
trs moas da vizinhana. Foi a primeira vez que a ouviram cantar. O sucesso
no podia ser mais completo. Como o aplauso que lhe deram pareceu
desconsolar um pouco a filha do mdico, Helena preparou-lhe habilmente um
triunfo, fazendo-a executar ao piano uma composio brilhante, sua favorita.
Estcio, que quase no tirava os olhos da irm, percebeu-lhe a inteno, e
disse-lho. Helena esquivou-se  aluso; mas, insistindo ele:
 No h nada que admirar, disse ela; Eugnia toca perfeitamente; era
justo que tambm fosse aplaudida. Se h arte no que fiz, parece-me que  a
mais singela do mundo. O melhor modo de viver em paz  nutrir o amorprprio
dos outros com pedaos do nosso. Mas, olhe; Eugnia nem precisa
disso; tem a primazia da beleza. Veja se h criatura mais deliciosa.
Estcio dirigiu os olhos para onde Helena lhe indicava. Era um grupo de
duas moas e dois rapazes. Eugnia, pelo brao de um deles, estava de p,
ouvindo sem atender as palavras que ali diziam, porque os olhos inquietos
derramavam-se-lhe por toda ela e pela sala. Admirava-se e espreitava a
admirao dos outros. A figura era realmente graciosa; mas Estcio quisera-a
mais inconsciente, menos preocupada do efeito que produzia.
 H cem belezas como aquela, disse ele.
 Estcio! exclamou Helena com ar de repreenso.
 A beleza  como a bravura; vale mais se no a metem  cara dos
outros.
 Voc  um ingrato.
Naquela noite ficou mais patente que nunca a preponderncia ganha por
Helena, que se tornara a verdadeira dona da casa, a diretora ouvida e
obedecida. D. rsula cedera, em poucas semanas, o que lhe negara durante
meses.
Por que razo, pensando em todas as coisas, no conseguira ela apressar o
casamento de Estcio? Estcio continuava a hesitar, a recuar, a adiar; pedia
tempo para refletir. Ia agora menos ao Rio Comprido; os dias, quase todos,
eram desfiados no remanso da famlia. Mas Helena insistiu tanto que ele
prometeu fazer o solene pedido no primeiro dia do ano.
Estcio no havia esquecido a carta lida pela irm; entretanto, por mais
que a espreitasse e estudasse, nada descobria que lhe fizesse supor afeio
encoberta. Nenhum dos homens que iam ali,  e eram poucos,  parecia
receber de Helena mais do que a cortesia comum. D. rsula, a quem ele
incumbira de interrogar a irm acerca das palavras que esta lhe dissera na
manh do primeiro passeio, no obteve resposta mais decisiva.
A promessa de ir pedir Eugnia, f-la Estcio na segunda semana de
dezembro, em uma noite sem visitas, que eram as melhores noites para ele.
42
No dia seguinte de manh, erguendo-se tarde, soube que Helena sara a
cavalo.
 Sozinha?
 Com o Vicente.
Vicente era o escravo que, como sabemos, se afeioara, primeiro que
todos, a Helena; Estcio designara-o para servi-la. A notcia do passeio no lhe
agradou. O tempo andava com o passo do costume, mas  ansiedade do
mancebo afigurava-se mais longo. Estcio chegava  janela, ia at ao porto
da chcara, com ar de aparente indiferena, que a todos iludia, a comear por
ele prprio. Numa das vezes em que voltou a casa, achou levantada D. rsula;
falou-lhe; D. rsula sorriu com tranqilidade.
 Que tem isso? disse ela. J uma vez saiu a passeio com o Vicente e no
aconteceu nada.
 Mas no  bonito, insistiu Estcio. No est livre de um ato de
desateno.
 Qual! Toda a vizinhana a conhece. Demais, Vicente j no  to
criana. Tranqiliza-te, que ela no tarda. Que horas so?
 Oito.
 Dez ou quinze minutos mais. Parece-me que j ouo um tropel!...
Os dois estavam na sala de jantar; passaram  varanda, e viram
efetivamente entrar no terreiro Helena e o pajem. Helena deu um salto e
entregou a rdea de Moema ao pajem que acabava de apear-se. Depois subiu
a escada da varanda. Ao colocar o p no primeiro degrau, deu com os olhos no
irmo e na tia. Fez-lhes um cumprimento com a mo, e subiu a ter com eles.
 J de p! exclamou abraando D. rsula.
 J, para lhe ralhar, disse esta sorrindo. Que idia foi essa de bater a
linda plumagem?  a segunda vez que voc se lembra de sair sem o urso do
seu irmo.
 No quis incomodar o urso, replicou ela voltando-se para Estcio. Tinha
imensa vontade de dar um passeio, e Moema tambm. Apenas hora e meia.
Aquele dia foi o de maior tristeza para a moa. Estcio passou quase todo
o tempo no gabinete; nas poucas ocasies em que se encontraram, ele s
falou por monosslabos, s vezes por gestos. De tarde, acabado o jantar,
Estcio desceu  chcara. J no era s o passeio de Helena que o
mortificava; ao passeio juntava-se a carta. Teria razo a tia em suas primeiras
repugnncias? Como ele fizesse essa pergunta a si mesmo, ouviu atrs de si
um passo apressado e o farfalhar de um vestido.
 Est mal comigo? perguntou Helena com doura.
Ao ouvir-lhe a voz, fundiu-se a clera do mancebo. Voltou-se; Helena
estava diante dele, com os olhos submissos e puros. Estcio refletiu um
instante.
 Mal? disse ele.
 Parece que sim. No me fala, no se importa comigo, anda carrancudo...
Seria por eu sair de manh?
43
 Confesso que no gostei muito.
 Pois no sairei mais.
 No; pode sair. Mas est certa de que no corre nenhum perigo indo s
com o pajem?
 Estou.
 E se eu lhe pedir que no saia nunca sem mim?
 No sei se poderei obedecer. Nem sempre voc poder acompanhar-me;
alm disso, indo com o pajem,  como se fosse s; e meu esprito gosta, s
vezes, de trotar livremente na solido.
 Naturalmente a pensar de coisas amorosas... acrescentou Estcio
cravando os olhos interrogadores na irm.
Helena no respondeu; tomou-lhe o brao e os dois seguiram
silenciosamente uns dez minutos. Chegando a um banco de madeira, Estcio
sentou-se; Helena ficou de p diante dele. Olharam um para o outro sem
proferir palavra; mas o lbio de Estcio tremera duas ou trs vezes como
hesitando no que ia dizer. Por fim, o moo venceu-se.
 Helena, disse ele, voc ama.
A moa estremeceu e corou vivamente; olhou em volta de si, como
assustada, e pousou as mos nos ombros de Estcio. Refletiu ela no que disse
depois?  duvidoso; mas a voz, que nessa ocasio parecia concentrar todas as
melodias da palavra humana, suspirou lentamente:
 Muito! muito! muito!
Estcio empalideceu. A moa recuou um passo, e, trmula, ps o dedo na
boca, como a impor-lhe silncio. A vergonha flamejava no rosto; Helena voltou
as costas ao irmo e afastou-se rapidamente. Ao mesmo tempo, a sineta do
porto era agitada com fora, e uma voz atroava a chcara:
 Licena para o amigo que vem do outro mundo!
Captulo X
Estcio dirigiu-se ao porto. Abriu-o; um moo que ali estava entrou
precipitadamente. Era Mendona. Os dois mancebos lanaram-se nos braos
um do outro. Helena, a alguma distncia, presenciou aquela efuso, e no lhe
foi difcil adivinhar quem era o recm-chegado.
A efuso cessou, ou antes interrompeu-se, para repetir-se. Quando os dois
rapazes se julgaram assaz abraados, tomaram o caminho da casa. Helena,
que estava um pouco adiante deles, foi apresentada a Mendona. Ao ouvir que
era irm de Estcio, Mendona ficou espantado. Cortejou cerimoniosamente a
moa, e os dois seguiram at a casa, onde pouco depois entrou Helena.
Mendona era da mesma estatura que Estcio, um pouco mais cheio,
ombros largos, fisionomia risonha e franca, natureza mbil e expansiva. Vestia
com o maior apuro, como verdadeiro parisiense que era, arrancado de fresco
ao grand boulevard, ao caf Tortoni e s rcitas do Vaudeville. A mo larga e
44
forte calava fina luva cor de palha, e sobre o cabelo, penteado a capricho,
pousava um chapu de fbrica recente.
Estcio, antes de entrar, explicou ao amigo a situao de Helena, cujas
qualidades e educao louvou, com o fim de lhe fazer compreender o respeito
e a afeio que ela de todos merecia. Helena adivinhou esse trabalho
preparatrio do irmo, logo que entrou na sala.
Mendona divertiu a famlia uma parte da noite, contando os melhores
episdios da viagem. Era narrador agradvel, fluente e pinturesco, dotado de
grande memria e certa fora de observao. Esprito galhofeiro, achava
facilmente o lado cmico das coisas e mais se comprazia em dizer os
incidentes de um jantar de hotel ou de uma noite de teatro que em descrever
as belezas da Sua ou os destroos de Roma.
A visita durou pouco mais de hora. Estcio quis acompanh-lo at 
cidade; ele no consentiu que fosse alm do porto. Atravessando a chcara,
falaram do passado, e um pouco do futuro, a trechos soltos, como o lugar e a
ocasio lhes permitiam. Mendona, vendo que Estcio no tocava em um
ponto essencial, foi o primeiro que o aventou.
 Falaste-me em uma de tuas cartas de certa Eugnia...
 A filha do Camargo.
 Justo. Negcio roto?
 Quase terminado.
 Terminado... na igreja, suponho?
 Tal qual.
 Quando?
 Brevemente.
 Marido, enfim! Era s o que te faltava. Nasceste com a bossa conjugal,
como eu com a bossa viajante, e no sei qual de ns ter razo.
 Talvez ambos.
 Creio que sim. Tudo depende do gosto de cada um. O casamento  a
pior ou a melhor coisa do mundo; pura questo de temperamento. Eu vi
algumas vezes essa moa; era ento muito menina. No te pergunto se  um
anjo...
  um anjo.
 Como todas as noivas. Feliz Estcio! Segues a carreira de tua vocao,
enquanto que eu...
 Tu?
 Interrompo a minha, e talvez para sempre. Preciso cuidar da vida; no
sou capitalista, nem meu pai tampouco. Adeus, viagens!
 Tanto melhor! Arranjo-te noiva. No  a tua vocao, mas no sers o
primeiro que a erre, sem que da venha mal ao mundo.
 Pois arranja l isso... Em todo caso no ser tua irm.
 Oh! no, disse vivamente Estcio.
 Na verdade,  bonita; mas... se permites a franqueza de outrora, acholhe
uma costela de desdm...
45
 Que idia!  a mais afvel criatura do mundo. Vers mais tarde; hoje
estava, talvez, preocupada. Em todo o caso, no havias de querer que ela
saltasse a danar contigo na sala, de mais a mais sem msica.
Mendona acabava de acender um charuto; apertou a mo de Estcio e
saiu. Estcio acordou de um sonho. A realidade ps-lhe as mos de chumbo e
repetiu-lhe ao ouvido a confisso interrompida de Helena. Ansioso por saber o
resto, entrou ele imediatamente em casa. A diligncia foi estril, porque a
irm se recolhera ao quarto. Estcio imitou-a. Era foroso esperar uma noite
inteira, demora que o afligia, porque, dizia ele consigo mesmo, cumpria-lhe
velar pela sorte de Helena, como irmo e chefe de famlia, indagar de seus
sentimentos, e ordenar o que fosse melhor. Uma noite no era muito;
contudo, a preocupao retardou-lhe o sono. A confisso sbita, lacnica e
eloqente da irm ficara-lhe no esprito, como se fora o eco perptuo de uma
voz extinta.
Nem no dia seguinte, nem nos subseqentes alcanou o que esperava.
Helena, ou evitava ficar a ss com ele, ou esquivava-se a maior explicao.
Nos passeios matinais, que eram freqentes, procurou Estcio, mais de uma
vez, tratar do assunto que o preocupava. Helena ouvia com um sorriso, e
respondia com um gracejo; depois, dava de rdea  conversao e galopava
na direo oposta. Como a fantasia era campo vasto, nunca mais o moo
lograva traz-la ao ponto de partida.
Um dia, a insistncia de Estcio teve tal carter de autoridade, que pareceu
constranger e molestar Helena. Ela replicou com um remoque; ele redargiu
com uma advertncia spera. Iam ambos a p, levando os animais pela rdea.
Ouvindo a palavra do irmo, Helena susteve o passo, e fitou-o com um olhar
digno, um desses olhares que parecem vir das estrelas, qualquer que seja a
estatura da pessoa. Estcio possua estas duas coisas, a retratao do erro e a
generosidade do perdo. Viu que cedera a um mau impulso, e confessou-o;
mas confessou-o com palavras tais que Helena travou-lhe da mo e lhe disse:
 Obrigada! Se me no dissesse isso, ver-me-ia disparar por este caminho
fora at ao fim do mundo ou at ao fim da vida.
 Helena!
 Oh! no  vo melindre,  a prpria necessidade da minha posio. Voc
pode encar-la com olhos benignos; mas a verdade  que s as asas do favor
me protegem... Pois bem, seja sempre generoso, como foi agora; no procure
violar o sacrrio de minha alma. No insista em pedir a explicao de palavras
mal pensadas e ditas em m hora...
 Mal pensadas? Pode ser; mas por isso  que so verdadeiras; se voc
tivesse tempo de as meditar, guard-las-ia consigo, avara de seus segredos e
suspeitosa de coraes amigos. Meu fim era somente ajud-la a ser venturosa,
destruir...
  tarde! interrompeu a moa, consultando o reloginho preso  cintura.
Vamos?
46
Estcio sorriu melancolicamente; ofereceu-lhe o joelho, ela pousou nele o
pezinho afilado e leve e saltou no selim. A volta foi menos alegre do que
costumava ser. Eles falavam, mas a palavra vinha aos lbios, como uma onda
vagarosa e surda; nenhuma clera, mas nenhuma animao. Assim correu
aquele dia; assim correriam outros, se no fora a vara mgica de Helena. O
natural influxo era to forte que o irmo voltou desde logo s boas, sendo as
melhores horas as que passava ao p dela, a escut-la e a v-la, ambos
contentes e felizes. O episdio da confisso vinha s vezes, como hspede
importuno, projetar entre eles o nebuloso perfil; mas o esprito de Estcio
repelia-o, e a alegria da irm fazia o resto.
Entretanto, graas ao amigo recm-chegado, o filho do conselheiro saiu um
pouco de suas regras habituais, e comeou a provar alguma coisa mais da vida
exterior. Mendona buscava realizar, em miniatura, o seu esvado ideal
parisiense; havia nele o movimento, a agitao, a galhofa, que absolutamente
faltavam a Estcio, e vieram dar-lhe  vida a variedade que ela no tinha.
Alguns espetculos e passeios, uma ou outra ceia alegre, tal foi o programa de
uma parte nfima da existncia de Estcio. Para contrastar com ela, tinha ele
as manhs do Andara e algumas noites do Rio Comprido. Ao amigo e  sua
conscincia, dizia o moo que estava a despedir-se da liberdade.
A influncia de Mendona estendeu-se  prpria casa de Estcio. Mendona
gostava sobretudo da variedade no viver; no tolerava os mesmos prazeres
nem os mesmos charutos; para os apreciar tinha necessidade de os alternar
freqentemente. Se fosse possvel, era capaz de fazer-se monge durante um
ms, antes do carnaval, trocar o hbito por um domin, e atar as ltimas
notas das matinas com os preldios da contradana. A fidelidade  moda
custava-lhe um pouco, quando esta no ia a passo com a impacincia. Em sua
opinio, o que distinguia o homem do co era a faculdade de fazer que uma
noite se no parecesse com outra. O Rio de Janeiro no lhe oferecia a mesma
variedade de recursos que Paris; tendo o gnio inventivo e frtil, no lhe
faltaria meio de fugir  uniformidade dos hbitos.
O pior que lhe acontecia era a disparidade entre os desejos e os meios.
Filho de um comerciante, apenas remediado, no teria ele podido realizar a
viagem  Europa, nas propores largas em que o fez, a no ser a interveno
benfica de uma parenta velha, que se incumbira de lhe ministrar os recursos
de que ele carecesse durante aquela longa ausncia. Nem a parenta
continuaria a abrir-lhe a bolsa, nem o pai queria criar-lhe hbitos de
ociosidade. Tratava este, portanto, de obter-lhe um emprego pblico.
Mendona estava longe de recusar; pedia somente que o emprego o no
deslocasse da Corte.
Inquieto, amigo da vida ruidosa e fcil, inteligente sem largos horizontes,
possuindo apenas a instruo precisa para desempenhar-se regularmente de
qualquer comisso de certa ordem, Mendona, com todos os seus defeitos e
boas qualidades, era homem agradvel e aceito. Os defeitos eram antes do
esprito que do corao. A variedade que ele pedia para as coisas externas e
47
de menor tomo, no a praticava em suas afeies, que eram geralmente
inalterveis e fiis. Era capaz de sacrifcio e dedicao; sobretudo se lhe no
pedissem o sacrifcio deliberado ou a dedicao refletida, mas aquele que
exige uma circunstncia imprevista e sbita.
No admira que a presena de tal homem viesse modificar o tom da
sociedade de que era centro a famlia de Estcio, quando ele ali fazia alguma
apario. Era o sol daquela terra. No tinha a rijeza do figurino, nem o ar do
estrangeirado. A tesoura do alfaiate no lhe dissimulara a ndole expansiva e
franca. Acolhido como um filho, achava ali uma poro de casa. Que melhor
aspecto podia ter a vida em tais condies, naquela famlia ligada por um
sentimento de amor?
A noite do ltimo dia do ano veio turvar a limpidez das guas.
Captulo XI
Naquele dia fazia anos Estcio, e D. rsula assentara receber algumas
pessoas a jantar, e outras mais  noite, em reunio ntima. Ela e Helena
tomavam a peito fazer que a pequena festa de famlia fosse digna do objeto.
Estcio opinou pela supresso do sarau; mas era difcil alcanar a desistncia
de coraes que o amavam.
Logo de manh, como ele se levantasse cedo, encontrou Helena que o
convidou a segui-la  sala de costura.
 Quero dar-lhe o meu presente de anos, disse ela.
Ali entrados, abriu a moa uma pasta de desenhos, na qual havia um s,
mas significativo: era uma parte da estrada de Andara, a mesma por onde
eles costumavam passear, mas com algumas particularidades do primeiro dia.
Dois cavaleiros, ele e ela, iam subindo a passo lento; ao longe, e acima via-se
a velha casa da bandeira azul; no primeiro plano desciam o preto e as mulas.
Por baixo do desenho uma data: 25 de julho de 1850.
Estcio no pde conter um gesto de admirao, quando a moa retirou de
cima do desenho a folha de papel de seda que o cobria. Apertou a mo de
Helena e examinou o trabalho. Notou a firmeza das linhas, a exao das
circunstncias locais, as impresses de uma hora fugitiva que o lpis da irm
tivera a arte de fixar no papel.
 No podia fazer-me presente melhor, disse ele; d-me uma parte de si
mesma, um fruto de seu esprito. E que fruto! No h muita moa que
desenhe assim. Era talvez por isso que voc saa algumas vezes sozinha com o
pajem?
Estcio contemplou ainda instantes o desenho; depois levou-o aos lbios.
O beijo acertou de cair na cabea da cavaleira. Foi o original que corou.
 Andavam a gabar os meus talentos, disse Helena aps um instante; tive
a vaidade de dar uma pequena amostra...
48
 Excelente amostra! No acha, titia? disse o moo a D. rsula, que nesse
instante aparecera  porta, trazendo o seu presente, numa bocetinha de
joalheiro.
D. rsula no tinha, decerto, o instinto da arte; mas o amor da famlia lhe
ensinara uma esttica do corao, e essa bastou a faz-la admirar o trabalho
de Helena.
 Mas que digo eu todos os dias? exclamou D rsula. Esta pequena sabe
tudo!
 Quase tudo, emendou Helena; ignoro, por exemplo, como lhes hei de
agradecer...
 O qu, tontinha? interrompeu a tia. Algum disparate, naturalmente,
imprprio em qualquer dia, mas muito mais ainda no dia de hoje.
Enquanto as duas senhoras foram tratar das disposies do dia, Estcio
mandou selar o cavalo e saiu. Queria comparar ainda uma vez o desenho de
Helena com o stio copiado. A fidelidade era completa, e o quadro seria
absolutamente o mesmo, se se dessem algumas circunstncias da primeira
ocasio. Helena no ia ao lado dele; mas a vinte braas de distncia flutuava a
bandeira azul da casa do alpendre. Estcio afrouxou o passo do cavalo, como
saboreando as recordaes da primeira manh, quando Helena se lhe
mostrara to singularmente comovida. Volveu a refletir na situao dela, e na
paixo que lhe confessara, dias antes, com tamanha veemncia. Se se tratava
de uma felicidade possvel, embora difcil, Estcio prometeu a si mesmo
alcanar-lha. No era isso servir o sangue do seu sangue?
A casa do alpendre, at ali indiferente a Estcio, criava agora para ele um
interesse especial.  medida que se aproximava, ia achando no edifcio a fiel
reproduo do desenho. Este no apresentava todas as particularidades da
vetustez; mas continha as mesmas disposies exteriores, como se fora feito
diante do original.
A uma das janelas estava um homem, com a cabea inclinada, atento a ler
o livro que tinha sobre o peitoril. Nessa atitude no era fcil examin-lo;
afigurava-se, entretanto, uma criatura mscula e bela. A duas braas de
distncia, o indivduo levantou a cabea, e cravou em Estcio um par de olhos
grandes e serenos; imediatamente os retirou, baixando-os ao livro.
 Mal sabes tu, filsofo matinal, disse Estcio consigo, mal sabes tu que a
tua casa teve a honra de ser reproduzida pela mais bela mo do mundo!
O filsofo continuou a ler, e o cavalo continuou a andar. Quando Estcio
regressou da a alguns minutos, achou somente a casa; o morador
desaparecera; circunstncia indiferente, que escapou de todo  ateno do
moo. Nem ele pensava mais naquilo; o esprito trotava largo,  inglesa, como
o ginete, e ambos bebiam o ar, como ansiosos de chegar ao ponto da partida.
49
Captulo XII
A festa correu animada, posto a reunio fosse restrita. Alguns giros de
valsa, duas ou trs quadrilhas, jogo e msica, muita conversa e muito riso, tal
foi o programa da noite, que a encheu e fez mais curta.
Se as honras da casa foram feitas por Helena, a alma da festa era
Mendona, cujo esprito havia j recebido e colhido o sufrgio universal.
Eugnia dera-lhe, antes de todos, o seu voto. Havia entre ambos tal ou qual
afinidade de ndole, que naturalmente os aproximava. Mendona lisonjeava os
caprichos de Eugnia, aplaudia-a, compreendia-a, obedecia-lhe sem
constrangimento nem reparo. Quando Mendona valsava com Eugnia, todos
os olhos se concentravam neles. Eram valsistas de primeira ordem. As
ondulaes do corpo de Eugnia, e a serenidade e segurana de seus passos
adaptavam-se maravilhosamente quela espcie de dana. Era belo v-los
percorrer o vasto crculo deixado aos movimentos; v-los enfim parar com a
mesma preciso e sem o menor sintoma de cansao. Eugnia punha toda a
ateno no gesto de brao com que, logo que interrompia ou cessava de todo
a valsa, conchegava ao corpo a saia do vestido. O prazer com que fazia esse
gesto, e a graa com que o acompanhava de uma leve inclinao do corpo
mostravam que, mais ainda a faceirice do que a necessidade, lhe movia o
corpo e a mo.
Esta sorte de triunfos enchia a alma de Eugnia; e, porque ela no possua
nem a modstia nem a arte de a simular, via-se-lhe no rosto o orgulho e a
satisfao. A dana no era para a filha de Camargo um gozo ou um recreio
somente; era tambm um adorno e uma arma. Da vinha que o valsista mais
intrpido e constante era tambm o principal parceiro do seu esprito; e
ningum disputava esse papel ao filho do comerciante.
 Sua filha  a rainha da noite, murmurou o Dr. Matos ao ouvido de
Camargo, em um intervalo do voltarete.
 No  verdade? acudiu o mdico.
E a alma do pai voava enrolada nas pontas da fita que apertava a cintura
de Eugnia, no regressando ao domiclio seno quando a moa parava. Ento
volvia Camargo um olhar em torno de si, como pedindo igual admirao.
Depois, ficava sombrio, e mais do que usualmente, caa em longos e mortais
silncios. Trs ou quatro vezes aproximara-se de Helena sem lograr det-la,
nem achar em si mais que duas palavras triviais. Insistia; no a perdia de
vista, parecia ansioso de a conversar sobre alguma coisa.
Helena repartia-se entre todas as pessoas, atenta aos mil cuidados que a
noite requeria. Cantou uma vez, danou uma quadrilha, e no valsou. Em vo
Mendona insistira com ela; a moa desculpou-se dizendo que a valsa lhe fazia
vertigens. Na opinio do filho do comerciante esta razo encobria somente a
ignorncia de Helena. Estcio pensava antes que era a castidade selvagem da
irm que lhe no permitia o contato de um homem, idia que lhe fez bem ao
corao.
50
Pela volta da meia-noite, terminada a ceia, comeou aquela hora de
repouso que precede a total disperso. As senhoras trocavam impresses e
comentrios, os rapazes fumavam, os jogadores decidiam as ltimas remissas.
A noite no refrescara, e a agitao aumentara o calor. Helena, to cansada
como D. rsula, retirara-se por alguns instantes para a sala contgua 
principal; ali sentou-se num sof, e derreou levemente o corpo, deixando cair
os clios, no sei se pensativos, se pesados de sono. O esprito no tivera
tempo de encadear duas idias ou esboar um sonho, quando uma voz a
acordou:
 J dormindo!
Era Camargo.
Helena abriu os olhos sobressaltada. A voz de Camargo produzira-lhe a
impresso de desagrado que lhe fazia sempre. Sorriu a moa
contrafeitamente, e, vendo que ele se dispunha a sentar-se no sof, no
arredou o vestido, como se quisesse deixar entre ambos larga distncia.
Camargo sentou-se.
 Parece que se assustou? disse ele.
 Um pouco.
Camargo agitou entre as mos os perendengues do relgio, to numerosos
como eles se usavam naquele tempo; depois pegou familiarmente no leque da
moa, abriu-o, contou as varetas, tornou a fech-lo e restituiu-o com um
elogio. Helena respondeu-lhe com um sorriso. Ia levantar-se quando ele a
deteve com estas palavras:
 Estimei ach-la s, porque precisava pedir-lhe um conselho.
A testa de Helena contraiu-se interrogativamente.
 Um conselho e um favor, continuou o mdico. No ser, creio eu, a
primeira vez que a velhice consulte a mocidade. Demais, trata-se de assunto
em que a gente moa l de cadeira.
Helena olhou para ele desconfiada. Nunca vira o mdico to afvel, e essa
mudana de maneiras e de tom  que lhe fazia medo. Verdade  que ele ia
pedir-lhe alguma coisa. Camargo no se deteve. Fez uma exposio rpida de
suas relaes com a famlia do conselheiro, da amizade que o ligava a ela.
 A perda do meu finado amigo, concluiu ele, no pde ser suprida por
nenhuma coisa; mas, h alguma compensao na afeio que sobrevive e me
faz considerar esta famlia como minha prpria. Estou certo de que seu irmo
e D. rsula sentem a meu respeito do mesmo modo. Quanto  senhora, 
recente na famlia, mas no tem menor direito que ela. Via-a to pequena!
 A mim? perguntou Helena.
Camargo fez um gesto afirmativo, enquanto a moa olhava em volta da
sala, receosa de que algum tivesse entrado e ouvido. Uma vez segura de que
ningum havia, recebeu impresso contrria  primeira; envergonhou-se
daquele receio. A vergonha aumentou quando o mdico acrescentou em voz
baixinha:
 No falemos nisso...
51
 Pelo contrrio! exclamou ela. Pode falar com franqueza; diga tudo. Era
minha me. No sei o que foi para o mundo; mas, se me perdoaram a
irregularidade do nascimento, no creio que me pedissem em troca a renncia
do meu amor de filha; a lei que o ps em meu corao  anterior  lei dos
homens. No repudio uma s das minhas recordaes de outro tempo. Sei e
sinto que a sociedade tem leis e regras dignas de respeito; aceito-as tais
quais; mas deixem-me ao menos o direito de amar o que morreu. Minha pobre
me! Vi-a expirar em meus braos, recolhi o seu ltimo suspiro. Tinha apenas
doze anos; contudo, no consenti que outra pessoa velasse  cabeceira a
ltima noite que passou sobre a terra... Oh! no a esquecerei nunca! nunca!
nunca!
Helena proferiu estas palavras num estado de exaltao que at ali se lhe
no vira. Em vo Camargo procurou duas ou trs vezes interromp-la, receoso
de que a ouvissem fora, porque a moa tinha levantado a voz. Helena no
obedeceu; no viu sequer o gesto suplicante do mdico. O seio, castamente
velado pelo corpinho, que subia at o pescoo, estava ofegante e onduloso
como a gua do mar. A ltima palavra saiu-lhe como um soluo. Camargo
sentiu-se surpreendido com aquela exploso de ternura. Era evidente que ele
esperava outra coisa. Seguiu-se um breve silncio, durante o qual Helena
mordia a ponta do leno, como para conter a palavra que lhe tumultuava no
corao. O mdico prosseguiu enfim:
 Ningum lhe pede que a esquea, disse ele, todos respeitam esses
sentimentos de piedade filial. O passado morreu, e o menos que se deve aos
mortos  o silncio. A senhora tem o direito de lhe dar o amor e a saudade.
Mas falemos dos vivos; e perdoe-me se lhe toquei, sem querer, em to
dolorosa recordao.
 No! no  dolorosa! disse ela, abanando a cabea.
 Falemos dos vivos. No est certa do amor de sua famlia?
Helena fez um gesto afirmativo.
 No poderia encontrar outra melhor nem to boa. D. rsula  uma santa
senhora; Estcio, um carter austero e digno. Venhamos agora ao conselho.
H muito tempo ando com idia de ir  Europa; estou caminhando para a
velhice; no quero deixar de ir ver alguma coisa, alm do nosso Po dAcar.
J desfiz o projeto mais de uma vez. Cuido que agora vou definitivamente
realiz-lo. D-se, porm, uma circunstncia grave. Sabe que minha filha ama
seu irmo? Meus olhos descobriram desde muito tempo essa inclinao de um
e outro, porque tambm seu irmo ama minha filha. Merecem-se; e de algum
modo continuam a afeio dos pais; a natureza completa a natureza. Esta  a
situao. O que eu desejava, porm,  que me dissesse se devo partir j,
levando-a; ou se  melhor esperar que eles se casem.
Helena ouvira o mdico sem olhar para ele; quando ele acabou, fitou-o
admirada e curiosa. A puerilidade da pergunta era to evidente que a moa
procurou ler no rosto do interlocutor o pensamento verdadeiro e oculto.
Camargo apressou-se a explicar-se.
52
 Estcio, disse ele, pode amar Eugnia com idias matrimoniais; mas
tambm pode no passar isto de um captulo de romance, como o que se l
em uma viagem da Corte a Niteri. O carter  srio; o corao tem leis
especiais. Confesso que o procedimento de Estcio nada me afirma a tal
respeito. H nele umas mudanas pouco explicveis. O tempo decorrido 
mais que muito suficiente para que... Est refletindo?
 Estou.
 E...
 Suponho que pede mais do que me disse. Quer que eu indague a tal
respeito as intenes de Estcio?
 Isso.
 Mas por que no se dirige a ele mesmo?
 No havia inconveniente; estabeleceu-se, porm que um pai no deve
ser o primeiro a falar em tais coisas.  preciso respeitar a dignidade paterna.
Acresce que Estcio  rico, e tal circunstncia podia fazer supor de minha
parte um sentimento de cobia, que est longe de meu corao. Podia falar a
D. rsula; creio, porm, que ela no tem a sua habilidade, e... por que o no
direi? a sua influncia no esprito de Estcio.
 Eu!
 Oh! influncia incontestvel! A senhora veio completar a alma de seu
irmo.  visvel a afeio e o respeito que ele lhe tem. Demais, em tais
assuntos uma irm  natural confidente e conselheira.
Helena deu trs pancadinhas no joelho com a ponta do leque, e enfiou os
olhos pela porta de comunicao entre aquela e a sala principal. Depois
voltou-se para o mdico.
 Sei que eles se amam, disse ela, e j dei a minha opinio a tal respeito.
Eugnia parece ser minha amiga; meu irmo  meu irmo; desejo-lhes todas
as felicidades. H, porm, um limite  interveno de uma irm; e no desejo
ir alm. Demais, seu pedido  ocioso.
 Por qu?
 Anuncie a viagem, e Estcio se apressar a pedir-lhe sua filha. Se o no
fizer,  porque a no ama, conforme ela merece, e em tal caso mais vale
perder um casamento do que o fazer mau.
 Sim? perguntou Camargo.
 Naturalmente.
 O conselho  excelente, disse o mdico depois de um instante, mas tem
o defeito substancial de suprimir a sua interveno, que me  necessria.
Vejamos o meio de combinar as coisas. Suponhamos que, anunciada a
viagem, Estcio no corresponde s minhas esperanas. Que devo fazer?
 Embarcar.
 Embarcar  arriscar o casamento. Ora, este casamento...  um de meus
sonhos. Desejo que os filhos continuem a afeio dos pais. Se Estcio recuar,
minhas esperanas esvaem-se como fumo; o tempo cavar um abismo entre
os dois; Eugnia amar outro... Enfim, conto com a senhora.
53
 Comigo?
 A senhora tem uma fora de resoluo, uma fertilidade de expedientes,
um esprito capaz de empresas delicadas; e, tratando-se da felicidade de um
irmo, creio que empenhar todas as foras para levar a cabo a mais pura das
ambies. No lhe peo um absurdo, peo-lhe a felicidade de minha filha.
Helena no respondeu; olhou de revs para ele, e cravou depois os olhos
na guia branca tecida no tapete, sobre o qual pousava o p impaciente e
colrico. Podia referir mais detidamente qual o seu papel junto de Estcio, a
respeito de Eugnia, os pedidos que lhe fez, e a promessa do irmo, que
deveria ser cumprida, se o fosse, em algum dos seguintes dias. Mas, nem quis
dar esperanas que os acontecimentos podiam dissipar, nem o corao lhe
consentia mais larga confidncia. Ambos eles viam que se detestavam
cordialmente; mas, se em Helena havia clera abafada, em Camargo havia
tranqilidade e observao. Ele contemplava a moa, com o olhar fixo e
metlico dos gatos; a mo esquerda, pousada sobre o joelho, rufava com os
dedos magros e peludos. Nada dizia; todo ele era uma interrogao imperiosa.
Helena olhou ainda uma vez para o mdico.
 D-me o seu brao at  sala? perguntou.
Camargo sorriu.
 S isso? Eu dizia comigo outra coisa.
 Que dizia ento? perguntou Helena.
 Dizia que muito se devia esperar da dedicao de uma moa, que acha
meio de visitar s seis horas da manh uma casa velha e pobre, no to pobre
que a no adorne garridamente uma flmula azul...
Helena fez-se lvida; apertou nervosamente o pulso de Camargo. Nos olhos
pareciam falar-lhe ao mesmo tempo o terror, a clera e a vergonha. Atravs
dos dentes cerrados Helena gemeu esta palavra nica:
 Cale-se!
 Falo entre ns e Deus, disse Camargo.
Uma onda de sangue invadiu a face da moa, com a mesma rapidez com
que ela lhe empalidecera. Helena quis erguer-se, mas sentiu-se exausta.
Ningum da sala pde perceber a impresso e o movimento; ningum olhava
para ali. Camargo, entretanto, inclinou-se para Helena e proferiu algumas
palavras de animao, que ela interrompeu, murmurando com amargura:
 O senhor  cruel!
 Sou pai, respondeu o mdico; pai extremoso e discreto, mais discreto
ainda que extremoso. Conto com a senhora.
Captulo XIII
Dissolvida a reunio, Helena recolheu-se  pressa com o pretexto de que
estava a cair de sono, mas realmente para dar  natureza o tributo de suas
lgrimas. O desespero comprimido tumultuava no corao, prestes a irromper.
54
Helena entrou no quarto, fechou a porta, soltou um grito e lanou-se de golpe
 cama, a chorar e a soluar.
A beleza dolorida  dos mais patticos espetculos que a natureza e a
fortuna podem oferecer  contemplao do homem. Helena torcia-se no leito
como se todos os ventos do infortnio se houvessem desencadeado sobre ela.
Em vo tentava abafar os soluos, cravando os dentes no travesseiro. Gemia,
entrecortava o pranto com exclamaes soltas, enrolava no pescoo os
cabelos deslaados pela violncia da aflio, buscando na morte o mais pronto
dos remdios. Colrica, rompeu com as mos o corpinho do vestido; e o jovem
seio, livre de sua casta priso, pde  larga desafogar-se dos suspiros que o
enchiam. Chorou muito; chorou todas as lgrimas poupadas durante aqueles
meses plcidos e felizes, leite da alma com que fez calar a pouco e pouco os
vagidos de sua dor.
Calar somente, no adormec-la, porque ela a lhe ficou, companheira
daquela noite cruel, para velarem ambas. Quando os olhos cansaram, e foram
mais intervalados os soluos, Helena jazeu imvel no leito, com o rosto sobre
o travesseiro, fugindo com a vista  realidade exterior. Uma hora esteve
assim, muda, prostrada, quase morta, uma hora longa, longa, longa, como s
as tem o relgio da aflio e da esperana.
Quando a tormenta pareceu extinta, a moa sentou-se na cama e olhou
vagamente em torno de si. Depois ergueu-se; dirigiu-se trpega ao quarto de
vestir; ali parou diante do espelho, mas fugiu logo, como se lhe pesasse
encarar consigo mesma. Uma das janelas estava aberta. Helena foi ali aspirar
um pouco do ar da noite. Esta era clara, tranqila e quente. As estrelas tinham
uma cintilao viva que as fazia parecer alegres. Helena enfiou um olhar por
entre elas como procurando o caminho da felicidade. Esteve  janela cerca de
meia hora; depois entrou, sentou-se e escreveu uma carta.
A carta era longa, escrita a golfadas, sem nexo nem ordem; continha
muitas queixas e imprecaes, ternura expansiva de mistura com um
desespero profundo; falava daqueles que, tendo nascido sob a influncia de
m estrela, s tm felicidades intermitentes e mutveis; dizia que para ela a
prpria felicidade era um germe de morte e dissoluo,  idia que repetia
trs vezes, como se tal observao fosse o transunto de suas experincias
certas. A carta falava tambm de um homem, cujo egosmo de pai no
conhecia limites, e que a todo o transe queria que a filha desposasse uma
grande riqueza e uma grande posio,  homem, dizia ela, que me viu a
princpio com olhos avessos, pela diminuio que eu trazia  herana. No fim
dizia que havia naquelas linhas muito de obscuro e incompleto, que
oportunamente contaria tudo, mas que desde j podia dar a triste notcia de
que lhe era foroso abster-se de sair.
Helena releu o escrito e meditou longo tempo sobre ele; acrescentou ainda
algumas linhas; depois, rasgou o papel em dois pedaos, chegou-os  vela, e
os destruiu. Como arrependida, voltou a escrever outra carta, mas no chegou
a acabar seis linhas; rasgou-a como fizera  primeira, e s ento recorreu ao
55
remdio melhor de uma alma ulcerada e pia: rezou. A prece  a escada
misteriosa de Jac: por ela sobem os pensamentos ao cu; por ela descem as
divinas consolaes.
Entretanto, a noite comeava a inclinar a urna das horas s mos da
madrugada. O sono fugira dos olhos de Helena; mas era foroso repousar.
Assim mesmo vestida, atirou-se sobre o leito. No dormiu, no se pode dizer
que dormisse; ficou ali num estado que no era viglia nem sono, at que a
manh rompeu inteiramente. Abrindo os olhos, pareceu acordar de um sonho;
a imaginao recomps as fases todas do acontecimento da vspera. Depois
suspirou, e ficou longo tempo a olhar para o cho, com a fixidez trgica e
solene da morte.
 Era justo! murmurava de quando em quando.
Levantou-se enfim; levantou-se abatida e cansada. Viu-se ao espelho; a
descor da face e a linha roxa que lhe circulava as plpebras dificilmente
podiam deixar de impressionar a famlia. Helena disfarou como pde esses
vestgios da tempestade; explicou-os do modo mais verossmil: o cansao da
vspera e a insnia de toda uma noite. A explicao no achou obstculo no
nimo da tia e do irmo. Somente o padre Melchior, presente a ela, fitou na
moa um olhar dubitativo, que a obrigou a baixar os clios.
Se Helena padecia, o lugar de Estcio no era ao p dela? Assim pensou o
sobrinho de D. rsula, que em todo esse dia resolveu no sair de casa.
Cercou-a de cuidados, buscou distra-la, pediu-lhe que fosse repousar um
instante. Para justificar a explicao que dera, Helena obedeceu s instrues
do irmo. Este foi encerrar-se no gabinete, onde se ocupou em examinar e
colecionar alguns papis. Era o dia marcado para solicitar de Eugnia o
consentimento matrimonial, e ele no cogitava em ir ao Rio Comprido. Na
irm, sim; na irm pensava ele, ora relendo as pginas de sua predileo, ora
mandando saber se dormia sossegada, ora contemplando o desenho com que
ela o presenteara na vspera. Sentia-se to feliz naquela aurora do ano!
Pouco antes do jantar, ouviu no corredor um rumor de saias, e no tardou
que a irm aparecesse  porta. Vinha como fora; mas a Estcio pareceu que
efetivamente o descanso e o sono lhe haviam restaurado as foras. A razo
era o sorriso estudado que lhe avivava o rosto. Helena parou e Estcio foi ter
com ela, travou-lhe da mo, f-la entrar.
 Ests melhor? perguntou.
 Estou boa.
 No dizia eu que era melhor desistir da idia da reunio? Essas festas
prolongam-se, e fatigam, sobretudo as pessoas franzinas...
Helena ergueu os ombros.
 Anda sentar-te um pouco.
 Primeiro h de responder-me a uma coisa.
 Que ?
 Que dia  hoje? perguntou ela.
 Ano bom.
56
 Lembra-se do que me prometeu?
 Perfeitamente. Vs estes papis? disse ele mostrando sobre a secretria
uma poro de papis classificados e postos por ordem. Ocupei-me at agora
em liquidar o passado; faltam-se umas ltimas contas, que o procurador h de
trazer amanh. Depois, irei...
Helena abanou a cabea com ar de desaprovao.
 No, disse ela; no h de ir depois, h de ir hoje mesmo. Que tm as
contas com a autorizao que deve pedir a Eugnia? V logo de noite. Sou
supersticiosa; creio que o pedido feito no dia de hoje  de excelente agouro.
Dar um ano feliz.
 Minha inteno era ir dentro de quatro ou cinco dias, respondeu Estcio,
depois de um silncio; mas no tenho dvida em faz-lo. Uma vez preenchida
a formalidade...
 Pedi-la- imediatamente ao pai.
 No!
 Por qu?
 Porque precisarei meditar ainda vinte e quatro horas, pelo menos. Vinte
e quatro horas no  muito para quem tem de amarrar-se eternamente. Quero
sondar meu prprio esprito, e...
 Mas tudo isso  uma extravagncia! interrompeu Helena sentando-se na
borda da rede em que Estcio costumava ler. Pretender voc recuar depois
de lhe falar, a ela?
 Oh! no! Mas, uma vez que caminho para soluo to grave, no h
inconveniente em ir p ante p. Admiras-te? perguntou ele, vendo que a irm
fazia um gesto de impacincia.
 Zango-me.
 Mas...
 Voc  insuportvel. Falta ao que prometeu.
 J disse que hei de cumprir.
 No recuar?
 No.
 Ir pedi-la hoje mesmo?
 A ela.
 A ela e ao pai.
 Ao pai escreverei uma carta.
 Pois seja uma carta! Contanto que acabe com isso. O casamento ser...
 Quando convier ao Dr. Camargo.
 Antes do fim do ms.
 To cedo!
 Dou-lhe ms e meio. Nem uma hora mais! Estou morta por v-los
casados, tanto por voc como por ela, coitada! que o ama tanto...
 Crs? perguntou vivamente Estcio.
 Se creio! Posso afirm-lo. No ser amor como voc quisera que fosse,
mas  o amor que ela lhe pode dar, e  muito... Est dito! Palavra?
57
Estcio estendeu silenciosamente a mo, que Helena apertou.
 Vou confiar todo o meu destino  cabea mais leve do universo, disse
Estcio, com os olhos fitos no cho. No  de seu corao que me queixo; mas
de seu esprito, que nunca deixou as roupas da infncia. Demais,  medida
que me aproximo da hora solene, sinto que me repugna o estado conjugal. 
to boa a minha vida de solteiro! to cheios os meus dias...
Helena tapou-lhe a boca com uma das mos; com a outra fez-lhe um gesto
para que se calasse. Depois, fugiu. Uma vez s, Estcio refletiu longamente na
situao em que se achava; reconheceu que estava moralmente obrigado a
pedir Eugnia, desde que seus coraes se tinham aberto um para o outro,
celebrando um contrato, que ele s no podia romper. A conscincia rebelouse
contra as irresolues do corao, e a deciso foi curta.
Naquela mesma noite, ouviu Eugnia a esperada palavra. A alegria que se
lhe derramou nos olhos, foi imensa e caracterstica. Um pouco mais de recato
no era descabido em tal ocasio. No houve nenhum; o primeiro ato da
mulher foi uma meninice. Eugnia ignorava tudo, at a dissimulao do sexo.
Concedendo a mo a Estcio, no era uma castel que entregava o prmio,
mas um cavaleiro que o recebia com alvoroo e submisso.
Transposto o Rubicon, no havia mais que caminhar direito  cidade eterna
do matrimnio. Estcio escreveu no dia seguinte uma carta ao Dr. Camargo,
pedindo-lhe a mo de Eugnia, carta seca e digna, como as circunstncias a
pediam. Antes de a remeter, mostrou-a a Helena, que recusou l-la. No a
leu, nem lhe pegou. Ele teve-a alguns instantes na mo, sem se atrever a dla
ao escravo que esperava por ela. Por fim, deitou-a sobre a secretria.
 Amanh, disse ele sorrindo para Helena.
Helena lanou mo da carta e deu-a ao escravo.
 Leva  casa do Sr. Dr. Camargo, ordenou a moa. No tem resposta.
Captulo XIV
Camargo ia sentar-se  mesa quando lhe entregaram a carta de Estcio;
leu-a para si, mas a filha leu-a nos olhos dele. Uma aura de bem-aventurana
desrugou a fronte do mdico; seus lbios,  coisa pasmosa!  abriram-se
num sorriso franco, sorriso que chegou a desabrochar em gargalhada, a
primeira que D. Tomsia lhe ouviu. Acabado o jantar, Camargo deu conta do
pedido  mulher, e os dois pais chamaram a filha  sala. Eugnia ouviu a
notcia sem baixar os olhos nem corar. Interrogada, respondeu que era muito
do seu gosto o casamento.
 Sim? perguntou Camargo, simulando espanto.
Eugnia fez uma leve inclinao de cabea, com certo ar de quem dizia no
acreditar no espanto do pai. Este pegou nas mos da filha e puxou-a para si.
 Assim, pois, meu anjo, disse ele, casas-te por tua livre vontade? Estcio
 o eleito de teu corao? Louvo a escolha, que no podia ser mais digna.
58
Sers herdeira das virtudes de tua me, que te proponho como o melhor
modelo da terra.
 O mais consciencioso pelo menos, acudiu D. Tomsia, satisfeita e
vaidosa do louvor do marido. H de ser boa esposa, modesta, solcita e
econmica.
 Econmica, sem avareza, emendou Camargo. A riqueza no deve ser
dissipada, mas  certo que impe obrigaes imprescindveis, e seria da maior
inconvenincia viver a gente abaixo de seus meios. No fars isso nem cairs
no extremo oposto; procura um meio-termo, que  a posio do bom senso.
Nem dissipada, nem miservel.
D. Tomsia concordou com esta explicao do marido, enquanto Eugnia,
olhando alternadamente para um e outro, parecia no lhes dar a mnima
ateno. O pensamento estava em Andara; ela via j na imaginao a
cerimnia do consrcio, as carruagens, o apuro do noivo, a sua prpria graa,
a coroa de flores de laranjeira, que a havia de adornar; enfim talhava j o
vestido branco e pregava as rendas de Malines com que havia de levar os
olhos a ambas as metades do gnero humano. Daquele sonho foi despertada
pelo pai, que lhe imprimiu na testa o seu segundo beijo. O primeiro, como o
leitor se h de lembrar, foi dado na noite da morte do conselheiro. O terceiro
seria provavelmente no dia em que ela casasse.
 Sabes que te amo, Eugnia? disse Camargo olhando para ela.
 Papai!
Camargo no pde dizer mais nada. O amor, um instante expansivo,
volveu a aninhar-se no fundo do corao, onde sempre estivera. A satisfao
do mdico precisava do silncio e do recolhimento para saborear-se. Foi ento
que Eugnia passou s mos de D. Tomsia. A mulher do Dr. Camargo via
aquele casamento com olhos diferentes do marido. O que ela sobretudo via,
eram as vantagens morais da filha. Sentou-a ao p de si e recitou-lhe um
catecismo de deveres e costumes, que Eugnia interrompia de quando em
quando, com exclamaes de obedincia filial:
 Sim, mame!... Deixe estar!... Mame h de ver!...
D. Tomsia sentia-se feliz. O rosto, cuja expresso era vulgar, tinha
naquela ocasio alguma coisa que o tornava sublime. Ela fez que a filha se lhe
sentasse no regao; e esta sentindo que a molestava, deixou-se lentamente
cair de joelhos, ficando entre os dela, a olhar para ela.
Camargo, entretanto, j no era daquele mundo. Passeava de um para
outro lado, com as mos para trs, a morder a ponta do bigode. De quando
em quando parava e olhava para o grupo das duas senhoras, mas era s
maquinalmente; o seu olhar bao indicava que ele ia mergulhado em
profundas cogitaes.
Naquele homem cptico, moderado e taciturno, havia uma paixo
verdadeira, exclusiva e ardente: era a filha. Camargo adorava Eugnia: era a
sua religio. Concentrara esforos e pensamentos em faz-la feliz, e para o
alcanar no duvidaria empregar, se necessrio fosse, a violncia, a perfdia e
59
a dissimulao. Nem antes nem depois sentira igual sentimento; no amou a
mulher; casou porque o matrimnio  uma condio de gravidade. O maior
amigo que teve foi o conselheiro Vale; mas essa mesma amizade que o ligara
ao pai de Estcio, nunca recebera a contraprova do sacrifcio; alis apareceria
em toda a sinceridade a natureza do mdico. Ele s conhecia os afetos, por
assim dizer, caseiros e inertes, os que no sabem nem podem afrontar as
intempries da vida. Nas relaes morais dos homens possua somente o troco
mido da polidez; a moeda de ouro dos grandes afetos nunca lhe entrara nas
arcas do corao. Um s existia ali: o amor de Eugnia.
Mas esse mesmo amor, alis violento, escravo e cego, era uma maneira
que o pai tinha de amar-se a si prprio. Entrava naquilo uma soma larga de
fatuidade. Menos graciosa, Eugnia seria, talvez, menos amada. Ele
contemplava-a com o mesmo orgulho com que o joalheiro admira o adereo
que lhe saiu das mos. Era a ternura do egosta; amava-se na prpria obra.
Caprichosa, rebelde, superficial, Eugnia no teve a fortuna de ver emendados
os defeitos; antes foi a educao que lhos deu. Dos lbios de Camargo nunca
saiu a expresso corretiva; nenhum de seus atos revelou esse procedimento
vigilante e diretor, que  a nobre atribuio da paternidade. Se a ndole da
filha fosse m, a cumplicidade do pai f-la-ia pssima.
No era, felizmente; o corao conhecia as douras da bondade; a rebeldia
era um hbito, no um vcio nativo. A prpria frivolidade foi-lhe desenvolvida
pela educao, nada podendo o zelo da me contra as complacncias do pai.
Esta era a explicao tambm da fascinao que exercia nela o tumulto
exterior da vida. Quase se pode dizer que ela no conhecera o vestido curto; a
modista a desmamou; uma contradana foi a sua primeira comunho.
No era fcil dar a Eugnia a felicidade que o pai ambicionava e a que mais
lhe apetecia a ela. Posto no fosse perdulrio, eram poucos os haveres do
mdico, de modo que a filha no podia caber peclio suficiente a satisfazer
todas as veleidades. Ele espreitou durante longo tempo um noivo, armando
com algum dispndio a gaiola em que o pssaro devia cair. No dia em que
percebeu a inclinao de Estcio, fez quanto pde para prend-lo de vez.
Esperou muitos meses a iniciativa de Estcio; e quando ela lhe entrou a fugir
para a regio das coisas problemticas, suspeitou a influncia de Helena. J
era muito que esta moa diminusse a herana do futuro genro; arrancar-lhe o
genro era demais. Camargo no hesitou um instante, foi direito ao fim. O
resultado confirmou-lhe a suspeita.
O casamento era muito, mas no bastava. Camargo cuidara na carreira
poltica de Estcio, como um meio de dar certo relevo pblico ao da filha, e,
por um efeito retroativo, a ele prprio, cuja vida fora tanto ou quanto obscura.
Se o marido de Eugnia se confinasse no repouso domstico, entre a horta e a
lgebra, a ambio de Camargo padeceria imenso. Vimo-lo apresentar a
Estcio a ma poltica; recusada a princpio, foi-lhe de novo apresentada, e
finalmente aceita com a noiva. Esta dupla vitria foi o momento mximo da
vida do mdico. Ele ouvia j o rumor pblico; sentia-se maior,  antegostava
60
as delcias da notoriedade,  via-se como que sogro do Estado e pai das
instituies.
 Vou entrar na cova dos lees, sem a convico de Daniel, suspirou
Estcio na ocasio em que cedeu s instncias de Camargo.
 Seu talento amansar os lees, acudiu este.
Assentou-se logo ali que o casamento seria celebrado na primeira semana
de maro. Os dois meses de intervalo foram destinados s formalidades
eclesisticas e ao preparo do enxoval. Estcio aceitou tudo sem objeo. D.
rsula e Helena aprovaram o plano. A primeira acrescentou uma clusula: 
os noivos viriam morar com elas em Andara.
O padre Melchior, consultado sobre o casamento, deu-lhe inteira
aprovao, e s lhe pareceu que o prazo era longo demais. A efuso com que
abraou Estcio, as palavras de aplauso que lhe disse, impressionaram
vivamente o mancebo.
 Desejava muito este casamento? perguntou ele.
 Muito! Seu pai h de aprov-lo no cu!
At os mortos conspiravam contra ele; Estcio aceitou resolutamente o
destino. A alegria do padre, ordinariamente contida e digna, transps os
limites do costume, para se mostrar quase infantil; D. rsula no cabia em si
de contente; Helena parecia colher naquele casamento a sua prpria
felicidade. Era a bem-aventurana universal que Estcio ia comprar a troco de
um vnculo eterno.
Surgiu, entretanto, um obstculo temporrio. A madrinha de Eugnia, a
fazendeira que lhe mandara um dia a opala, que a moa admirou namorando
ao mesmo tempo os olhos do futuro noivo, a madrinha de Eugnia adoeceu
gravemente, menos ainda da molstia que a acometeu que dos anos que lhe
pesavam nos ombros. Era senhora rica, viva, flanqueada por duas sobrinhas
solteiras, uma cunhada, um primo, dois filhos destes e uma vintena de
afilhados. J daqui se pode inferir a estreiteza das esperanas de Camargo.
Posto que ele no tivesse nunca preterido os deveres que lhe impunha o
vnculo espiritual, dando  fazendeira todas as provas possveis de um grande
afeto, ainda assim era de recear que a ltima vontade da moribunda no
trouxesse o cunho da estrita justia, ou, quando menos, de razovel eqidade.
Nestas circunstncias, a viagem a Cantagalo era urgentssima, e cumpria
realiz-la  custa dos maiores incmodos. Todo o incmodo  aprazvel quando
termina em legado. Camargo no perdia a esperana desse desenlace
igualmente afetuoso e pecunirio. Resolveu ir com a famlia toda, e avisou por
carta ao futuro genro.
Estcio estimou o obstculo, mas no contou com o que ele trazia no bojo.
Chegando ao Rio Comprido achou aflitos o mdico e D. Tomsia; Eugnia
recusava sair da Corte. Em vo lhe mostravam a convenincia de
corresponder, em ocasio to grave,  afeio da madrinha; debalde lhe
diziam que era ser ingrata no ir recolher o ltimo suspiro da venervel
senhora, sua me espiritual. Eugnia recusava a ps juntos.
61
Assistiu o noivo  ltima fase da luta entre os pais e a filha. Esta trazia os
olhos vermelhos de chorar; batia com as mos uma na outra, declarando que
s iria  fora. Estcio procurou cham-la  razo, apoiando as reflexes do
pai, sem alcanar mais do que ele. Enfim, Eugnia ps uma condio  sua
aquiescncia:
 Irei, se o Dr. Estcio for conosco.
Camargo aprovou a condio in petto; verbalmente, ops-se ao sacrifcio.
Estcio enfiara; posto entre a espada e a parede, j a viagem de Eugnia lhe
parecia suprflua.
 Acompanha-nos? insistiu a moa.
 No  possvel, acudiu o mdico, tamanho incmodo por um simples
capricho...
 Pois ento no vou!
D. Tomsia ficou um tanto vexada com a teima de Eugnia. Estcio mordia
o lbio, olhando para a moa, cujo rosto o interrogava instantemente. Venceuo
o decoro; considerando Eugnia sua mulher, quis cortar por uma cena que
lhe parecia ridcula.
 Acompanh-los-ei, disse ele, sem entusiasmo.
A soluo era favorvel a todos; os trs aceitaram de boa feio. Marcouse
a viagem para dois dias depois. D. rsula, apesar dos bons olhos com que
via o casamento, achou desnecessria a ida do sobrinho, mas no
empreendeu dissuadi-lo. Helena aprovou tudo. Ele fez sentir s duas parentas
a extenso do sacrifcio, e esteve a ponto de retirar a palavra. Era tarde. A
ltima noite passada em Andara foi cruel para ele; as horas voaram ligeiras
como nunca. Como devia sair no dia seguinte, logo cedo, ali mesmo se
despediu da tia e da irm, despedida de alguns dias que lhe custou como se
fora de anos. Prometeu, entretanto, que o regresso seria breve.
O que ele no podia prometer era conjurar o drama que se lhes preparava,
drama que ia enfim desenvolver-se, intenso, funesto e irremedivel,  do qual
no o consolariam jamais nem as douras da paz domstica, nem as glrias da
vida pblica.
Captulo XV
Estcio levantou-se ao amanhecer. Uma vez pronto, quis surpreender a tia
e a irm com uma lembrana sua, e escreveu numa folha de papel estas
simples palavras: At  volta; 6 horas da manh. Dobrou-a e foi p-la sobre
a mesa de costura de D. rsula. Dali passou  sala de jantar, depois 
varanda. Aqui chegando, deu com os olhos em Helena, que o esperava ao p
da escada.
 Silncio! disse graciosamente a moa. No faa espantos, que pode
acordar titia. Vim saber se voc precisa de alguma coisa.
 De nada, respondeu Estcio comovido. Mas que imprudncia foi essa de
se levantar to cedo?
62
 Cedo! O sol no tarda a cumprimentar-nos. Adeus! muitas
recomendaes a Eugnia. No lhe falta nada, no  assim?
 Nada.
Estcio recebeu a mo que Helena lhe estendera e ficou a olhar para ela.
 Olhe que  tarde!
Dizendo isto, Helena apertou-lhe a mo e procurou retirar a sua; Estcio
reteve-a.
 Se soubesses como me custa ir!
 So apenas alguns dias...
 Valem por meses, Helena! Adeus, no te esqueas de mim. Escreve-me;
eu escreverei logo que chegar. No faas imprudncias no saias a passeio
enquanto eu estiver ausente.
 Adeus!
 Adeus!
Estcio quis dar-lhe o abrao da despedida; mas a moa, menos ainda com
a palavra que com o gesto, f-lo recuar.
 No, disse ela afastando-se; as despedidas mais longas so as mais
difceis de suportar.
Recuou at  porta da sala de jantar, fez um gesto de despedida e entrou.
Estcio desceu a custo as escadas. Helena viu-o descer e sair; depois subiu
cautelosamente ao seu aposento. Ali sentou-se alguns minutos, pensativa e
triste. Ergueu-se enfim, vestiu rapidamente as roupas de montar; colocou o
chapelinho preto sobre os cabelos penteados  ligeira, e desceu. Na chcara
esperava-a Vicente, com a gua ajaezada e pronta. Helena montou sem
demora; o pajem cavalgou uma das duas mulas que havia na cavalaria e os
dois saram a trote na direo da casa do alpendre e da bandeira azul.
A casa estava ainda silenciosa; porta e janelas conservavam-se
hermeticamente fechadas. Helena apeou-se e bateu de mansinho; repetiu as
pancadas progressivamente mais fortes. Ningum lhe respondeu. Helena
impaciente rodeou a casa; mas, parece que achou igualmente fechadas as
portas do fundo, porque volveu logo. Colou o ouvido  porta e esperou.
Quando lhe pareceu que era baldado o esforo, tirou da algibeira um lpis e
um pedacinho de papel; colocou o p no degrau de tijolo e sobre o joelho
escreveu algumas palavras; dobrou depois o papel e introduziu-o por baixo da
porta. Esperou ainda alguns minutos, caminhou para a gua, montou e
regressou a casa.
Vinha triste e pensativa. A gua, a passo vagaroso, no sentia o esforo da
cavaleira, que a deixava ir, frouxa a rdea, intil o chicote. O pajem levava os
olhos na moa com um ar de adorao visvel; mas, ao mesmo tempo, com a
liberdade que d a confiana e a cumplicidade fumava um grosso charuto
havans, tirado s caixas do senhor.
D. rsula no estava ainda levantada; Helena no lhe ocultou o passeio. O
dia correu triste e solitrio, como os seguintes, sem embargo da companhia
que iam fazer s duas senhoras as pessoas mais ntimas. Mendona, a quem
63
Estcio as recomendara, era ali pontual; conseguia disfarar um pouco as
saudades do moo ausente. O padre Melchior prolongava visitas quotidianas.
O mesmo sentimento ligava a todas as pessoas.
O mesmo era, e no nico, porque outro e mais egosta e pessoal veio ali
viar tambm. Mendona sentiu que metade de seu destino estava acabada, e
que a outra metade ia comear, mais circunspecta que a primeira. O relgio
em que ele viu bater essa hora fatdica, foram os olhos de Helena. Mendona
comeava a amar. Estouvado, e no corrupto, atravessara o delrio dos
primeiros anos sem perder a flor dos castos afetos, sem sequer a haver
colhido. Helena sentiu nascer e crescer essa adorao silenciosa, sem parecer
que a descobrira. No animou o mancebo nem o repeliu; redobrou de
confiana,  dessa confiana que s se d aos simples familiares, e que
mostra claramente a um namorado a inanidade de suas esperanas. Ao
parecer de estranhos, a situao afigurava-se de perfeita concrdia. O coronelmajor
piscou um dia os olhos ao Dr. Matos; o Dr. Matos proferiu um  latet
anguis in herba  e ambos foram repartir o po das conjeturas com a esposa
do advogado, senhora muito perspicaz nos namoros de salo. A opinio dos
trs  que o casamento era coisa provvel, e talvez certa. Um s obstculo
podia haver; eram os escrpulos do pai de Mendona. Esse mesmo obstculo
no existia, porquanto, alm das qualidades estimveis da moa, havia o
reconhecimento legal e social, pblico e domstico; acrescendo (observao
do Dr. Matos) que duzentas e tantas aplices mereciam um cumprimento de
chapu e no davam lugar a cinco minutos de reflexo.
As primeiras cartas de Estcio chegaram uma tarde em que as duas
senhoras e Mendona se achavam na varanda, acabado o jantar, bebendo as
ltimas gotas de caf. D. rsula, depois de por em atividade trs mucamas
para lhe irem procurar os culos, levantou-se e foi ela prpria  cata deles,
com a sua carta na mo. Helena ficou com a que lhe era dirigida; estava
sentada junto a uma das janelas, abriu-a e leu-a para si:
Quando esta carta te chegar s mos, estarei morto, morto de saudades
de minha tia e de ti. Nasci para os meus, para a minha casa, os meus livros,
os meus hbitos de todos os dias. Nunca o senti tanto como agora que estou
longe do que h mais caro neste mundo. Poucos dias l vo, e j me parecem
meses. Que seria se a separao no fosse to limitada?
Na carta que escrevo a titia dou conta da nossa viagem e da sade de
todos. D. Clara est, na verdade,  beira da morte; mas pode durar ainda
alguns dias, e o Dr. Camargo resolveu esperar at dar-lhe os ltimos adeuses.
A recepo que nos fez a famlia foi cordialssima. H aqui uma cunhada da
enferma, um primo, trs sobrinhos, outros parentes e vrios afilhados. O
primo  comendador e tenente-coronel; ele e os outros so a gente mais
afvel do mundo. Os homens da famlia so influncias eleitorais; quando
souberam da minha candidatura, ofereceram-me logo os seus servios, com a
clusula nica de que haja prvia recomendao do Rio de Janeiro. Agradeci o
favor, com muita abundncia dalma, porque a tal candidatura, que no me
64
seduzia nem seduz, no h remdio seno cuidar dela, de modo que o meu
nome no padea a injria da derrota. Que te parece esta pontazinha de
vaidade?
Mudemos de assunto, que este me aflige, e no quero filosofar sem ti, que
s a minha companheira nestas vadiaes de esprito. A no te lembrars,
talvez, das nossas palestras; aqui lembra-me tudo. De manh, dou o meu
passeio eqestre, como l; mas que diferena! Quem vai a meu lado  o
tenente-coronel, excelente homem, corao de pomba, com o defeito nico e
enorme de se no chamar D. Helena do Vale, a minha boa Helena, que l est
na Corte, a divertir-se sem seu irmo. Ele fala de tudo e muito: do caf, do
governo, das eleies, dos escravos, dos impostos. Eu ouo, que  o menos
que posso fazer, e deixo-o ir sem interrupo. s vezes, como que
desconfiado, recolhe-se ao silncio; eu ato o fio da conversa e ele encarregase
de desenrolar o novelo. To pouca coisa o faz feliz! J cacei uma vez;
confesso-te que  o que me pode distrair um pouco. Pensava ter perdido o
costume; mas no perdi. A modstia impede-me dizer mais.
A fazenda  vasta e a casa excelente. No te direi que gosto da vida
agrcola; no gosto, no me dou com ela. Mas viver num recanto como este, a
dois passos do mato, a tantas lguas da rua do Ouvidor, isso creio que se d
com a minha ndole. Consultaremos titia. Eu no sei o que  amar o tumulto
exterior; acho que  dispersar a alma e crestar a flor dos sentimentos. Nasci
para monge... e creio que tambm para dspota, porque estou a planear uma
vida ignorada e deserta, sem consultar tuas preferncias. Sou um Cromwell
com tendncias de frade; ou, por dizer tudo numa s palavra: sou um
Lutero... muito inferior.
Pobre Helena! J l vo quatro pginas s a falar de mim. Vejamos o que
tens feito. Andas muito triste? passeias? ls? jogas? tocas? Conta-me a tua
vida o mais miudamente que puderes. Conta-me a vida de todos. No me
escondas nada; se, por exemplo, ao abrir um livro ou tocar uma tecla do
piano, pensares em mim, escreve isso mesmo, marcando o dia e at a hora,
se puder ser. E depois dou-te o direito de perguntar onde ficou a minha
gravidade, e responderei que h uma puerilidade sria, e que os extremos se
tocam. Quando assim no seja, a culpa  do cu, que me no deu uma irm
criana; agora  preciso que comecemos pela primeira fase da vida.
Deixei muito recomendado ao Mendona que fosse  nossa casa com
freqncia. No sei se ele se ter lembrado e cumprido a promessa que me
fez. Se no tiver cumprido, hs de mandar-lhe dizer que eu o detesto e
abomino; que ele  o maior traidor que o cu cobre; que tudo fica acabado
entre mim e ele; que a amizade  um culto, etc. Dize o que te parecer e pelo
modo que te  usual.
Lembro-me de ti a propsito de tudo. Hoje de tarde, por exemplo, o
terreiro oferecia um aspecto bonito e caracterstico. Se ela estivesse aqui,
disse comigo, faria um magnfico desenho. Peguei de um lpis que trouxe,
meia folha de papel, e quis reproduzir o panorama. Escrevi um problema
65
algbrico! Foi um conselho que me deu o lpis: ningum se meta a fazer
aquilo que ignora. Eu ignorava o que era estar ausente da famlia; por que
motivo me determinei a tent-lo?
Interrompi esta carta para receber o Dr. Fris, que  o mdico de D.
Clara; veio ao meu quarto para me dizer que o estado da doente  perdido,
que a morte  certa; mas que a vida pode prolongar-se ainda por muitos dias.
V que perspectiva! Estou com raiva de mim mesmo; esses ltimos dias da
enferma pesam sobre mim como se fora o punho fechado do destino. Se a
morte  certa, por que viver alguns dias mais? E  vida isso, ou  morrer aos
goles, sem conscincia do que se perde nem do que se vai ganhar?
Est decidido; posso ir daqui a seis dias ou daqui a um ms. Ser o que
Deus quiser. Manda-me, entretanto, alguns livros. No meu quarto s achei um
Manual de medicina prtica. Manda-me alguma coisa que me faa lembrar o
Andara. Tira da estante oito ou dez volumes,  tua escolha. Manda tambm
algum trabalho de agulha teu; quero mostr-lo  cunhada de D. Clara, a quem
gabei muito os teus talentos. Se puderes desenhar alguma coisa,  pressa, o
tanque, a varanda ou qualquer outro lugar, faze-o, e manda com o resto.
Escreve-me longamente; conta-me tudo o que houver interessante; fala-me
de ti, que  o meio de consolar minhas saudades, que so imensas, imensas
como este amor que tenho  minha famlia toda. Vou fazer por voltar breve.
Adeus, minha boa Helena; adeus, minha vida, adeus,  mais bela e doce de
todas as irms!
P.S. Reli a carta, e fiquei envergonhado do trecho a respeito da vida da
doente. Perdoa-me a ferocidade, e leva-a em conta da solido.
Captulo XVI
Helena leu e releu a carta. Depois ficou silenciosa, a olhar para as folhas da
trepadeira, que do lado de fora viera a subir pela muralha da varanda e a
debruar-se enfim do parapeito para dentro. A carta ficara aberta sobre os
joelhos da moa. Mendona, a poucos passos, olhava para esta, sem ousar
falar-lhe.
Goethe escreveu um dia que a linha vertical  a lei da inteligncia humana.
Pode dizer-se, do mesmo modo, que a linha curva  a lei da graa feminil.
Mendona o sentiu, contemplando o busto de Helena e a casta ondulao da
espdua e do seio, cobertos pela cassa fina do vestido. A moa estava um
pouco inclinada. Do lugar em que ficava, Mendona via-lhe o perfil correto e
pensativo, a curva mole do brao, e a ponta indiscreta e curiosa do sapatinho
raso que ela trazia. A atitude convinha  beleza melanclica de Helena. O
rapaz olhava para ela sem movimento nem voz.
A tarde expirava; a cor verde do morro fronteiro ia tomando o aspecto
cinzento-escuro que precede a cor fechada da noite. A prpria noite desceu, e
um escravo entrou na varanda a acender as duas lmpadas que pendiam do
66
teto. Esta circunstncia acordou a moa, e bastou-lhe voltar um pouco a
cabea para ver o amigo de Estcio a alguns passos de distncia.
 Estava a? perguntou Helena, estremecendo.
 D. rsula no voltou, respondeu Mendona com timidez; no quis
interromper a leitura que a senhora fazia.
 A leitura? A leitura acabou h muito tempo.
 Mas tambm se l de cor.
Helena lanou-lhe um olhar suspeitoso.
 No sei ler de cor, disse ela, erguendo-se e saindo da varanda.
Mendona ficou aturdido. Que lhe dissera ele to grave que a pudesse
ofender? Repetiu as prprias palavras e no lhes achou sentido mau. Certo,
porm, de que a molestara, ali ficou aborrecido de si mesmo, desejoso de lhe
explicar tudo, se alguma coisa houvesse explicvel. Aps alguns instantes,
resolveu entrar tambm. Entrou; Helena no estava nem na sala de jantar,
nem na do jogo, onde achou D. rsula com o Dr. Matos e o coronel-major.
Dali passou  sala de visitas. Helena no o viu entrar; estava mergulhada
numa poltrona com a cabea nas mos. Comovido, deteve-se alguns instantes
a contempl-la; depois caminhou para ela e falou-lhe.
Helena ergueu a cabea.
 Perdoe-me, disse ele, se alguma coisa lhe disse que a magoou. Confesso
que no sei o que poderia haver em minhas palavras. Ficou triste por isso?
A moa cravou nele um olhar ainda suspeitoso, e no lhe respondeu logo.
Mendona adotou o melhor dos alvitres naquela ocasio; inclinou-se e recuou
para sair. Helena chamou-o; ele aproximou-se outra vez, com um ar de to
doce resignao que lisonjearia o mais levantado orgulho. Helena estendeu-lhe
a mo; ele apertou-a e teve mpetos de a beijar uma e muitas vezes,
triunfando naquele nico instante da hesitao de todos os dias; faltou-lhe
resoluo. Helena mostrou-lhe o trecho da carta em que Estcio se referia a
ele; falaram dos ausentes e dos presentes, de todos e de tudo, menos do
assunto que exclusivamente preocupava o moo. Ele saiu dali sem haver dito
nada de seu corao. Chegando  rua, achou-se poltro e ridculo, disse mil
nomes feios a si prprio; enfim, prometeu declarar tudo a Helena no dia
seguinte.
No dia seguinte, que era domingo, Helena dirigiu-se  capela a ouvir a
missa do padre Melchior. Acabada a cerimnia, no seguiu para casa, com D.
rsula, mas foi ter  sacristia, onde o padre acabava de tirar os paramentos.
Melchior, logo que soubera da carta de Estcio, nessa manh, pedira a Helena
que lha deixasse ver.
 Falam sempre ao corao as letras dos amigos, dissera ele.
Helena deu-lhe a carta, que o padre recebeu com uma expresso antes de
curiosidade que de afeto. Leu-a vagarosamente, como escrutando o sentido e
as palavras; e sendo longa a epstola, longo foi o tempo que ele despendeu
em a interpretar. Durante esse tempo, Helena admirava-lhe a figura austera, a
serenidade religiosa. A sacristia era pequena; duas altas janelas deixavam
67
entrar a luz, o ar e o aroma das folhas e das flores da chcara. Entre a cimalha
e o telhado algumas andorinhas haviam fabricado os ninhos, donde saam,
como pensamentos de juventude, a adejar ao sol da manh. Ao p daquele
quadro exterior de alegria e verdura, a sacristia tinha certo ar melanclico e
severo, que lanava nalma o esquecimento das vicissitudes humanas. Helena
deixou-se cativar desse sentimento de absteno e elevao; se alguma dor
ou remorso a pungia, esqueceu-os, por um minuto ao menos, entre aquelas
paredes desataviadas, diante de um padre, entre uma imagem de Jesus e as
obras vivas do Criador.
Lida a carta, Melchior dobrou-a com ar pensativo; depois entregou-a 
moa.
 J respondeu? perguntou ele.
 J; trouxe-lhe a carta que vou mandar hoje mesmo.
Melchior abriu-a e leu; no gastou menos tempo, ainda que era de
menores dimenses. O estilo era afetuoso, mas muito menos exuberante que
o da carta de Estcio. Ela contava-lhe, em suas feies gerais, a vida que ali
passavam, desde que ele partira, as ocupaes de cada dia e as distraes da
noite.
Vivemos, dizia a moa, como podem viver duas criaturas que sabem a
afeio que lhes tem um parente amigo, ausente embora, mas no esquecido,
 nem ingrato. O padre Melchior, algum dos vizinhos, e o Dr. Mendona so
as nossas visitas habituais. Voc sabe o que vale o padre;  a mais bela alma
que Deus mandou ao mundo. Os vizinhos so afveis, como sempre. O Dr.
Mendona  verdadeiramente digno da nossa afeio e confiana. Disse-lhe o
que voc me escreveu; ele riu, como homem seguro de escapar  punio.
Pena  que voc tenha de se demorar a tanto tempo; mas, se alguma
esperana pode haver de salvar a doente, damo-nos por bem pagas da
demora.  verdade que voc no  mdico; mas h a outra doente, para
quem , no s mdico, mas at toda a medicina. Por que razo me no
escreveu Eugnia? Eu no cuidei que essa amiga me esquecesse na vspera
de ser minha cunhada. Se estivssemos mais perto, ia puxar-lhe as orelhas.
Diga-lhe isto; e se tiver ocasio de emprestar-me os seus dedos, aplique-lhe o
castigo, declarando-lhe o delito cometido e o juiz que a sentenciou.
O que voc diz da vida solitria  muito justo, mas impraticvel. Os
amigos no nos iriam ver; e poderamos ns dispens-los? Tal  a opinio de
titia e a minha. O melhor de tudo  este meio-termo de Andara; nem estamos
fora do mundo nem no meio dele. O rudo externo pode ter os efeitos de que
voc fala; mas ele  s vezes preciso para aturdir e distrair o esprito.
Tambm a solido tem suas dores, e fundas; tambm ela abala o corao.
Nem um extremo nem outro.
A carta continha alguns perodos mais, no muitos; trs ou quatro vezes
falava em Eugnia, com tamanha insistncia que punha em relevo o silncio a
tal respeito conservado por Estcio; falava-lhe da beleza da noiva, do
68
casamento prximo, do amor que os faria felizes, e da ventura que ambos
dariam a todos os seus.
Quando o padre acabou de ler a resposta, abriu os braos a Helena; depois
abrangeu com as mos a cabea da moa e contemplou-a durante alguns
segundos.
 Toda a sua alma est nesse escrito, disse ele; vejo a a reflexo e o
afeto. Tanto melhor! H contudo uma lacuna: no transmite a seu irmo as
minhas saudades; h tambm uma excrescncia: louva mritos que no
possuo. Embora! Mande-a...
 Escreverei duas linhas mais.
 Pois sim. Diga-lhe que se apresse, porque estou velho e posso morrer
antes.
 Oh! protestou Helena.
Melchior olhou para ela silenciosamente.
 Cr que Estcio seja feliz? perguntou ele enfim.
 Creio.
 Tambm eu.
Outro silncio. O primeiro que o rompeu foi o padre.
 Por que se no casa tambm? disse ele.
 Eu?
 Decerto. Pode ser que muito breve, talvez...
 Talvez nunca.
Melchior franziu a testa; a fisionomia, de ordinrio meiga, tornou-se
severa, como a conscincia dele. O padre tinha uma das mos de Helena entre
as suas; deixou-a insensivelmente cair. Entre os dois estabeleceu-se um
silncio que os acabrunhava e que no ousavam romper; como subjugados
por um mistrio, receava cada um deles que o outro lho lesse na fronte;
instintivamente desviaram os olhos.
Melchior foi o primeiro que voltou a si. A reflexo corrigiu a
espontaneidade, e o padre reassumiu o gesto usual, com essa dissimulao
que  um dever, quando a sinceridade  um perigo.
 Vamos l, disse ele; ningum pode decidir o que h de fazer amanh;
Deus escreve as pginas do nosso destino; ns no fazemos mais que
transcrev-las na terra.
  verdade! confirmou ela com um gesto de cabea, e sem erguer os
olhos.
 Amanh, continuou o padre, o acaso,  isso a que os incrdulos
chamam acaso, e que  a deliberao da vontade infinita,  lhe apontar um
homem digno da senhora, e seu corao lhe dir:  este; e o suspiro
desalentado de hoje converter-se- num olhar de graas ao cu. Ora, o que eu
lhe peo, o que eu desejo,  que se apresse tanto que eu possa cas-los...
 Oh! mas no vai morrer amanh, interrompeu Helena.
69
 Estou velho, minha filha; estes cabelos brancos so j a neve desse mar
polar para onde navegamos todos. Conto sessenta anos. A morte pode colherme
um dia prximo...
 Vamos almoar, disse Helena sorrindo.
Saram da sacristia, atravessaram a capela, e penetraram na chcara. Na
ocasio em que iam transpor a porta da capela, viram Mendona entrar em
casa. Melchior estacou e olhou para Helena. Esta ia como acabrunhada e
absorta. O gesto do padre, quando ela lhe declarou que no se casaria talvez
nunca, ficara-lhe gravado na memria, como um enigma, que talvez receava
decifrar. Poucos minutos eram passados; contudo, ela pde refletir, e coligir os
elementos de uma resoluo. Detendo-se, com o padre,  porta da capela, viu
tambm entrar Mendona. Os olhos da moa e do padre interrogaram-se de
novo, mas desta vez nenhum deles os desviou.
 V aquele homem? perguntou Helena. Parece-lhe que seria bom marido?
 Excelente, decerto, disse vivamente Melchior; carter, educao,
sentimentos...
 Tem ainda uma virtude particular: ama-me.
 Sei.
 Ele lho disse?
 No, mas v-se.  sabido de todos os que freqentam esta casa. A
probabilidade do casamento  objeto de comentrios, e a opinio geral  que
ele se far dentro de pouco tempo. Confessou-lhe alguma coisa?
 Nada; mas os olhos da mulher amada no so menos sagazes que os
dos padres amigos. Acha que devo confirmar a opinio dos outros?
 Acho; consulte, porm, seu corao.
 J consultei.
 Neste nico instante?
 Nada menos.
 Deveras? disse Melchior, derramando um olhar de paternal ternura no
rosto srio de Helena.
 No digo que o ame desde j; mas a afeio que ele me tem, refletir
em meu corao, e eu virei a am-lo. O que importa saber  que  digno de
mim. De todos os que me pretendessem nenhum lhe seria superior.
 Ainda bem! Contudo, repare que vai contrair uma obrigao perptua, e
que um contrato destes no pode ser deliberado em poucos instantes.
 Oh! nesse ponto a minha ignorncia sabe mais do que a sua teologia.
Que so minutos e que so meses? Paixes de largos anos, chegando ao
casamento, acabam muitas vezes pela separao ou pelo dio, quando menos
pela indiferena. O amor no  mais que um instrumento de escolha; amar 
eleger a criatura que h de ser companheira na vida, no  afianar a
perptua felicidade de duas pessoas, porque essa pode esvair-se ou
corromper-se. Que resta  maior parte dos casamentos, logo aps os anos de
paixo? Uma afeio pacfica, a estima, a intimidade. No peo mais ao
casamento, nem lhe posso dar mais do que isso.
70
 No gosto de tanta reflexo em to verde idade, replicou benevolamente
Melchior; todavia, encanta-me esse raciocnio que, ao cabo de tudo, pode ser
verdadeiro. Mas no me desdigo; alguns minutos  pouco tempo; reflita ainda
vinte e quatro horas.
 Nem um instante mais, insistiu Helena. Minhas reflexes so lentas ou
sbitas: ou cinco minutos ou um ano; escolha.
 Pois reflita cinco minutos, replicou o padre sorrindo.
 J l vo quatro; aproveitarei o ltimo para lhe dizer que em nada disto
falaria, se no fossem as qualidades notveis desse moo; e para acrescentar
que a ele me liga certa simpatia de gnios...  talvez a semente do amor.
Tinham chegado ao primeiro degrau da escada da varanda. Subiram e
penetraram na sala de jantar, onde acharam D. rsula e Mendona, este a
percorrer com os olhos um jornal do dia. O almoo serviu-se imediatamente.
 Padre-mestre, disse D. rsula, demorou-se tanto que cuidei... tivesse
idia de me arrebatar Helena.
 Estive-a ouvindo de confisso, respondeu Melchior.
 E pde absolv-la?
 Decerto.
 Mas com grande penitncia, no?
 A mais fcil de todas, acudiu Helena, olhando para o padre.
 Oh! ento  que os pecados so leves! concluiu D. rsula. No lhe
parece?
Estas ltimas palavras foram dirigidas a Mendona, na ocasio em que
todos caminhavam para a mesa. Mendona no respondeu nada. Contra o
costume, falava pouco,  menos ainda que na vspera e nos dias anteriores.
D. rsula via a diferena mas no a compreendia.
 No quero saber que pecados confessou, disse ela sentando-se; estou
certa de que o maior deles no levaria ningum ao purgatrio.
 Veja o que  uma tia indulgente, observou Helena a Mendona,
sentando-se ao seu lado.
Preocupado com a conversa que acabava de ter na sacristia e na chcara,
Melchior pouca ateno prestou a princpio ao filho do comerciante. Analisava
as circunstncias do momento e pesava a responsabilidade que lhe podia vir
de qualquer resoluo que adotasse. Aps um longo dilogo com a
conscincia, o velho sacerdote inclinou os olhos ao mancebo, que lhe ficava
defronte, ao lado de Helena. Viu-os conversar. Ela mostrava-se graciosa,
solcita e atenta, como uma esposa amante; ele parecia enamorado da voz e
das falas da donzela; como que um claro interior lhe desvendara  alma os
horizontes infinitos da esperana. Familiarizado com Helena, tratado por ela
com esquisita ateno, era contudo a primeira vez que ela lhe falava, no
como a um confidente amigo, mas como a um homem que poderia vir a ser
seu esposo. Alguma seriedade, um olhar submisso, uma ateno continuada,
fizeram essa diferena, que antes foi sentida pelo corao do que descoberta
pelos olhos.
71
No fim do almoo, Melchior dirigiu-se para a sala de visitas, com Helena.
Mendona acompanhou-os. A resoluo do padre estava assentada de raiz; ele
aceitava aquele casamento como um presente do cu. Apenas entrados na
sala, travou as mos de um e outro e lhes disse, com voz comovida:
 Prometem no zangar-se comigo?
 Por qu? interrogou Mendona com os olhos.
Helena baixara os seus.
 Prometem?
 Padre-mestre... comeou Mendona sem poder concluir a frase.
O padre olhou silenciosamente para um e outro. Talvez hesitava falar;
talvez buscava o melhor meio de dizer o que tinha no corao. Urgia romper o
silncio; f-lo com solenidade:
 Serei duas vezes padre: segundo a natureza e segundo o Evangelho.
Quando duas criaturas se merecem,  servir a Deus emprestar a voz ao
corao que no ousa falar. O senhor ama esta menina; leio-lhe nos olhos o
sentimento que o arrasta para ela; so dignos um do outro. Se  a timidez que
lhe fecha os lbios, eu sou a voz da verdade e do amor infinito; se outro
motivo, serei juiz complacente para escut-lo.
Ouvindo estas palavras, Mendona ficou aturdido e mudo. No s a fortuna
lhe chegava s mos, quando ele menos esperava, mas at escolhera um
caminho desusado e estranho. A realidade confundia-se ali com o sonho. A
presena de um terceiro era suficiente motivo para acanhar os mais resolutos;
acrescia a veste sacra do sacerdote, que dava quilo um ar de solenidade e
consagrao. Mendona recobrou, enfim o uso dos sentidos; a resposta nica
e eloqente foi estender a mo a Helena, gesto a que a moa correspondeu
com simpleza e naturalidade.
 No se enganaram meus olhos, disse o padre. Ama-a, e pode dar-lhe a
felicidade que lhe desejo a ela. Tambm Helena o far venturoso, no?
perguntou ele, voltando-se para a moa.
 Mas  isto um sonho? perguntou enfim Mendona.
 A vida no  outra coisa, retorquiu o capelo; velho pensamento e velha
verdade. Faamos por que o sonho seja agradvel e no rido ou triste.
Prometem-me que se faro felizes?
 No ambiciono outra coisa, disse o rapaz; ser o meu cuidado e a minha
glria.
 Seu amor, continuou Melchior,  mais forte que o de Helena; eu
consultei-a antes, e li em seu corao. Elege-o com prazer, embora sem
entusiasmo. No  a paixo cega que a faz falar;  um sentimento brando e
singelo, por isso mesmo duradouro. A reflexo de um corrigir a violncia do
outro e os dois sentimentos se completaro pela virtude especial de cada um.
Esta explicao franca de Melchior teve o condo de ser agradvel aos
dois. Helena estimou que ele nem lisonjeasse as iluses de Mendona, nem a
desse como aceitando indiferente e estouvada o casamento proposto. Pela sua
parte, Mendona viu nas palavras do padre um indcio da sinceridade de
72
Helena, e aceitou o pouco oferecido, com a certeza de multiplic-lo. O carter
de Melchior e a venerao que mereciam suas virtudes, eram fianas de
veracidade e davam ao ato singelo que ali se passava, um forte cunho de
santidade e elevao. No era uma vulgar declarao de amor, sujeita s
variaes do esprito ou do interesse, mas verdadeiros esponsais em que a
religio era inspiradora e testemunha.
Captulo XVII
Aquele dia foi marcado no calendrio de Mendona com letras de ouro e
cetim; a noite desceu coroada de murta e rosas. Ele viveu essas horas todas
num estado de sonambulismo e xtase. Tencionava referir tudo  me, logo
que entrou em casa ao meio-dia; mas no se atreveu, porque ele mesmo no
estava certo se vivia a realidade ou se voava nas asas de uma quimera. De
noite voltou a Andara; achou em Helena o mesmo modo afetuoso, a mesma
solicitude e carinho; nenhuma ternura expansiva, nenhuma contemplao
namorada; um meio-termo que o continha a ele prprio, e no era menos
aprazvel ao corao. A nova situao era, entretanto, sensvel, porque os
vigilantes de fora trocaram entre si olhares cheios de graves descobertas; um
deles, o coronel-major, chegou a proferir uma aluso, que os interessados
fingiram no perceber.
Quando Mendona chegou  casa nessa noite, ia mais que nunca cheio de
comoo e nadando em plena glria. A cidade, apenas a entrou, pareceu-lhe
transformada por uma vara mgica; viu-a povoada de seres fantsticos e
rutilantes, que iam e vinham do cu  terra e da terra ao cu. A cor deste era
nica entre todas as da palheta do divino cengrafo. As estrelas, mais vivas
que nunca, pareciam saud-lo de cima com ventarolas eltricas, ou fazeremlhe
figas de inveja e despeito. Asas invisveis lhe roavam os cabelos, e umas
vozes sem boca lhe falavam ao corao. Os ps como que no pousavam no
solo; ia exttico e sem conscincia de si. Era aquele o galhofeiro de h pouco?
O amor fizera esse milagre mais.
Um dos teatros estava aberto; comprou um bilhete e entrou. No era
desejo de divertir-se ou interessar-se pelo drama, que alis expirava de
parceria com o protagonista; era necessidade de ver gente, de apalpar a
realidade das coisas, to quimrico se lhe afigurava tudo o que se passara
desde manh.
Um espectador, o filho do coronel-major, viu-o a alguma distncia e foi
sentar-se ao p dele.
 O senhor que tem melhor vista, disse o acadmico, desengane-me;
aquela moa que ali est, naquele camarote, no  a andorinha viajante?
 A andorinha viajante? repetiu Mendona, olhando para ele; que quer
dizer esse nome?
  a alcunha da irm de Estcio. Ser ela que est ali, com uma senhora
idosa?
73
 Mas por que lhe chamam assim?
 Eu sei! Naturalmente porque sai  rua todos os dias. Na verdade,  um
passear! Mal amanhece, l vai trepada no cavalinho, com o pajem atrs...
 Quem lhe ps essa alcunha?
 As alcunhas so como as mofinas: no tm autor.
Cara o pano; Mendona despediu-se ali mesmo e saiu. Na rua repetiu
mentalmente as palavras do jovem acadmico. Ao cabo de alguns minutos,
sorriu; compreendera que, apenas suspeitada a sua felicidade, j a inveja lhe
deitava na taa uma gota de veneno. Ergueu os ombros, resoluto a suportar
tranqilo essa lvida companheira do xito.
Guiou para casa, onde entrou pouco depois. Helena volvera a ocup-lo
exclusivamente. S, na alcova de solteiro, inventariou os acontecimentos
daquele dia e achou-se morgado da fortuna. Como precisava conversar com
algum, escreveu uma longa carta a Estcio, narrando-lhe toda a histria do
seu corao, as esperanas e a pronta realizao delas. A alma derramou-se
no papel impetuosa e exuberante. O estilo era irregular, a frase incorreta; mas
havia ali a eloqncia e a sinceridade da paixo. Quando fechou a carta,
anteviu o prazer que ia dar ao amigo, logo que ela lhe chegasse s mos,
levando a notcia de que os vnculos atados na aula iam apertar-se na famlia.
Vem quanto antes, dizia ele ao terminar a missiva; tenho nsia de abraar-te
e ouvir de ti mesmo o consentimento que me far o mais feliz dos homens!
Quando essa carta chegou a Cantagalo, Estcio voltava de uma pequena
excurso que fizera com o pai de Eugnia. Conheceu a letra do sobrescrito;
abriu negligentemente a carta; leu-a com assombro. A impresso foi to
visvel que Camargo lhe perguntou de que se tratava.
 Recebo uma notcia que me obriga a partir amanh, disse ele.
 Negcio grave?
 Grave.
 Ainda assim, nesta ocasio...
 Que tem? D. Clara pode ainda resistir  morte alguns dias; e, posto que
a minha ausncia no prejudique nada do fato a que aludo, contudo  mister
que me informe e providencie.
 Algum negcio relativo ao inventrio? aventurou Camargo, que nada
conhecia mais grave que o dinheiro.
 Justamente, respondeu maquinalmente Estcio.
Camargo consolou a filha do desgosto que lhe causava a partida do noivo;
falou-lhe a linguagem da razo; disse que havia assuntos prticos, a que os
sentimentos tinham de ceder o passo alguma vez. No dia seguinte de manh,
partiu Estcio na direo da Corte, no sem prometer que voltaria, se a
molstia ou qualquer outro motivo obrigasse a famlia a demorar-se em
Cantagalo.
Ningum esperava por ele em Andara. Entrando na chcara,  era de
noite,  viu Estcio que a sala que ficava no ngulo esquerdo da frente da
casa, estava alumiada e tinha gente. A sala ficava ao rs-do-cho e as janelas
74
estavam abertas. Parou a pouca distncia, e pde distinguir o coronel-major e
o Dr. Matos jogando o gamo; a mulher do advogado falava a D. rsula e
Melchior, em um dos lados; do outro estava assentada Helena, tendo
Mendona diante de si.
Estcio deu volta aos fundos da chcara, e entrou pela varanda. Os
escravos que o viram chegar, deram sinal da novidade, com vozes de alegria,
que, alis, no chegaram at s pessoas da sala. Estas s souberam do
recm-chegado quando ele assomou  porta. A satisfao de o ver foi geral e
sincera em todos. Estcio distribuiu abraos e apertos de mo. Melchior, que
se deixara ficar de lado, foi o ltimo com quem falou.
 O Dr. Camargo veio? perguntou D. rsula ao sobrinho, logo depois que
este cumprimentara a todos.
 No, respondeu Estcio, a doente no pode escapar, mas ainda a deixei
com vida.
 Imagino a impacincia dos herdeiros.
Esta observao filosfica do coronel-major no teve nenhum efeito.
Melchior, que a reprovara interiormente, fez mudar a conversa, informando-se
da famlia de Camargo. Estcio deu todas as notcias que podiam interessar;
depois, falou de alguns incidentes da viagem; enfim, retirou-se por alguns
minutos.
Mendona acompanhou o amigo, alcanando-o ainda na escada. Subiram
juntos e juntos entraram no quarto.
 Agora que estamos ss, perguntou Mendona, houve por l alguma
coisa?
 Nada.
 Tanto melhor!
Um escravo entrou no quarto, a fim de servir a Estcio; Mendona, ansioso
por lhe falar de Helena, contentou-se com trocar algumas vagas indicaes.
 Recebeste a minha carta? disse ele.
 Recebi.
 No esperavas por ela, aposto...
 No.
 Como eu no esperava escrev-la. Ests aborrecido?
 Estou cansado.
 Naturalmente, assentiu Mendona, abrindo um livro que achou sobre a
mesa e tornando-o a fechar.
O silncio prolongou-se alguns minutos, durante os quais Mendona tornou
a abrir o livro, examinou uma espingarda de caa, preparou um cigarro e
fumou. O escravo ajudava o senhor a mudar de roupa. Estcio continuava
mortalmente calado; Mendona falou algumas vezes, sobre coisas indiferentes,
e o tempo no correu, andou com a lentido que lhe  natural, quando trata
com impacientes. Logo que Estcio se deu por pronto, e o escravo saiu,
Mendona voltou diretamente ao assunto que o preocupava.
75
 Estava ansioso por ver-te, disse ele. No nos  possvel falar agora; no
temos tempo. Mas quero dar-te um abrao, ao menos, um abrao de
agradecimento pela felicidade...
 Parece que s esperavas a minha ausncia?
 Creio que no. J antes de seguires, comeava a sentir alguma coisa
nova, que vim a descobrir ser paixo violenta.
 Helena ama-te?
 Com igual amor, no creio; mas aceita-me; tem-me algum afeto.
 Tratarei de consult-la.
Mendona no pde continuar, porque Estcio descia a escada ao dar-lhe a
ltima resposta. Mendona desceu tambm. Na sala estavam ainda as
mesmas pessoas. Perto de uma janela conversava Helena com o padre. O ch
foi logo servido e a conversa tornou-se geral, ainda que sem grande animao.
Melchior falou menos que todos.
Nem por isso foi o primeiro que saiu; foi o ltimo. Na chcara, dirigindo-se
ao porto, ergueu os olhos ao firmamento, no para ver a lua e as estrelas,
seno para subir a regio mais alta. O que disse ningum o soube, mas o anjo
das rogativas humanas porventura colheu em seu regao os pensamentos do
ancio, e os levou aos ps do eterno e casto amor.
Captulo XVIII
 Helena, disse Estcio no dia seguinte, logo que pde falar a ss  irm,
 sabes por que vim mais depressa? Foi por tua causa. O Mendona escreveume
dizendo haver alcanado de ti uma promessa de casamento.
  verdade.
  verdade?
 At ao ponto em que a minha vontade tem um limite, que  a sua. Por
mim s nada posso decidir; mas no creio que voc se oponha de nenhum
modo. No  certo que deseja a minha felicidade?
Estavam sentados em um banco de pau, defronte do grande tanque.
Estcio ficou algum tempo a olhar para a gua.
 No entendo, disse ele enfim.
 Por qu?
 Mais de uma vez me confessaste no sei que paixo violenta, paixo que
parecia conter a tua vida toda. Que, sem embargo de um amor nico e forte,
uma mulher despose um homem que no  o preferido de seu corao,  caso
no vulgar e muita vez justificvel. Mas que este casamento seja para ela
felicidade, confesso que no o poderei entender nunca.
 Recusa ento o seu consentimento?
 No recuso; desejo compreender.
 Nada mais simples, retorquiu a moa.
 Ah!
76
 Falei-lhe de um amor forte,  certo, no extinto naquele tempo, mas
totalmente sem esperana. Que moa no tem dessas fantasias, uma vez ao
menos? A fantasia passou. Ou eu no devo casar nunca, ou posso desposar
um homem digno, que me ame. No casar foi algum tempo o meu desejo; no
o  hoje, desde que voc, titia e o padre Melchior ambicionam ver-me casada
e feliz. Para obter a felicidade, alm do casamento, escolhi pessoa que me
parece capaz de dar a paz domstica e os melhores afetos de seu corao.
 De maneira que te sacrificas a um desejo nosso?
 Quando fosse sacrifcio, f-lo-ia de boa cara; mas no .
 No se trata de um sacrifcio repugnante e odioso; entretanto, cumpre
examinar o que perdes. Dizes que a fantasia passou; no creio, Helena, no
creio que ela passasse. Tu amas decerto; amas violentamente algum; amas
sem esperana nem futuro; isto , levas para casa de teu marido um corao
que te no pertence, um sentimento intruso e inimigo...
Helena quis interromp-lo.
 Ouve, continuou Estcio. Esse sentimento, se vier a extinguir-se e se for
substitudo pela afeio que criares a teu marido, no te far desventurosa;
mas supe que no morre esse amor, qual ser a tua situao?
 Tudo isso  um castelo no ar, disse Helena sorrindo; eu amei, no amo;
ou amo somente a meu futuro marido.
Estcio abanou a cabea com ar de incredulidade. Seus olhos pousaram no
rosto plcido da irm, como tentando arrancar-lhe uma confisso silenciosa.
Os dela, firmes e tranqilos, cruzavam o olhar com os dele. Estcio conhecia j
o domnio que a moa exercia sobre si mesma; a tranqilidade no o
convenceu. Assim pensava, assim o disse, sem rebuo.
 Por que razo negaria eu a verdade? retorquiu Helena.
Estcio ergueu os ombros.
 Supondo que voc tenha razo, tornou ela, no deverei casar nunca?
 No digo isso; mas, h dois caminhos para a felicidade, alm de
Mendona.
 No os vejo.
 Esse amor misterioso ser realmente sem esperana? Nada h definitivo
no mundo, nem o infortnio nem a prosperidade. O que a tua imaginao
supe estar perdido, acha-se apenas transviado ou oculto...
 Adivinho o segundo caminho, atalhou Helena; no casando agora, posso
vir a amar um dia, mais do que a Mendona, algum homem to digno como
ele.
 Parece-te absurdo isso?
 No, mas  uma loteria: perco um bem certo por outro duvidoso. O
jogador no faz clculo diferente. Essa felicidade pode no vir; eu contento-me
com a que me cabe agora. Mendona ama-me deveras; senti-o desde algum
tempo. O padre Melchior abriu-me os olhos; aceito o destino que os dois me
oferecem. Esta  a razo e a realidade; o mais  iluso e fantasia.
77
Enquanto ela falava, Estcio, que tirara o chapu de Chile, ocupava-se em
fazer circular na copa a fita larga que o cingia. Houve entre ambos grande
silncio. Pela beira do tanque seguia uma longa carreira de formigas,
conduzindo as mais delas trechos de folhas verdes. Com um galho seco,
Estcio distraa-se em perturbar a marcha silenciosa e laboriosa dos pobres
animais. Fugiam todas, umas para o lado da terra, outras para o lado da gua,
enquanto as restantes apressavam a jornada na direo do domiclio. Helena
arrancou-lhe o galho da mo; Estcio pareceu acordar de largas reflexes;
ergueu-se, deu alguns passos e voltou a ela.
 Helena, declarou ele, no creio nada do que voc me diz; voc sacrificase
sem necessidade e sem glria. No consinto;  meu dever opor-me a
semelhante coisa...
Helena ergueu-se tambm.
 Mendona comea a ser o fruto proibido, observou ela, sorrindo;  o
meio seguro de o fazer amado.
A moa afastou-se na direo da casa. Estcio viu-a desaparecer por entre
as rvores, e ficou algum tempo entre o banco e o tanque. As formigas,
dispersas alguns minutos antes, tinham agora entrado no primeiro caminho,
com a mesma ordem anterior. Viu-as o moo, e comparou-as s prprias
idias, tambm necessitadas de que um galho invisvel as no dispersasse e
confundisse. No meio de suas reflexes, lembrou-lhe o padre; Estcio
atravessou a chcara, saiu  rua e dirigiu-se  casa de Melchior.
Melchior habitava uma casinha, situada no centro de um jardim diminuto, a
algumas braas da residncia de Estcio. Tinha duas salas o prdio, janelas
por todos os lados, uma porta na frente e outra nos fundos. A da frente abria
entre duas janelas de venezianas. A sala de visitas era ao mesmo tempo
gabinete de estudo e de trabalho. Simples era a moblia, nenhuns adornos,
uma estante de jacarand, com livros grossos in-quarto e in-flio; uma
secretria, duas cadeiras de repouso e pouco mais.
Na ocasio em que Estcio ali entrou, Melchior passeava de um para outro
lado, com um livro aberto nas mos, algum Tertuliano ou Agostinho, ou
qualquer outro da mesma estatura porque o padre amava contemplar os
grandes espritos do passado, quando no encarava os mistrios do futuro.
Naquele corpo mediano havia uma guia cativa. Entre as quatro paredes da
casa, limitada a vista pelos arbustos e as flores do jardim, Melchior olvidava o
tempo e eliminava o espao, vivendo a vida retrospectiva ou proftica, doce e
misteriosa volpia das almas solitrias. Melchior era um solitrio; sem
embargo das relaes sociais, que ele cultivava, amava sobretudo estar
separado dos homens. Nessas horas, que eram a maior parte do tempo, lia ou
meditava, esquecido ou estranho a todas as coisas do seu sculo.
Naquela ocasio lia. Vendo assomar  porta o vulto de Estcio, Melchior
fechou o rosto; contudo, recebeu-o afavelmente.
 Vim interromp-lo, disse Estcio; mas era preciso.
78
Melchior deps o livro sobre a mesa redonda que havia no meio da sala,
marcando a lauda com uma velha estampa. Depois sentaram-se ao p de uma
das janelas laterais. Estcio no se atreveu a dizer logo o motivo que o levara
ali; mas de sua prpria hesitao deduziu Melchior qual era ele.
 Era preciso? repetiu o padre.
 Trata-se de Helena. Sei que  nosso amigo, confio em seu conselho e
discrio. Como deseja a felicidade de minha famlia, buscou facilitar o
casamento de Helena e Mendona...
 Contando com a sua aprovao, explicou o padre.
 Hesito em d-la.
 Por qu?
Estcio explicou que Helena no tinha inclinao ao noivo que se lhe
propunha, ao que Melchior respondeu, referindo singelamente a verdade.
  certo que o no ama ardentemente, concluiu, mas aceita-o, aprecia-o,
est a meio caminho da felicidade que lhe devemos dar.
 H uma dificuldade, padre-mestre;  que ela ama a outro.
Melchior empalideceu; o olhar escrutador, como o de um juiz, cravou-se
imvel e afiado no rosto de Estcio. A fronte severa do moo no se alterou,
nem seus olhos baixaram a terra.
 Ama a outro, continuou ele; paixo violenta, mas sem esperana, e to
real quo misteriosa. Uma ou duas vezes aludiu a ela; nada mais lhe pude
arrancar. Agora mesmo, quando lhe falei a tal respeito, desviou da o sentido e
a conversao. Nada mais sei; sei, porm, que ama, e casar com outro em
tais circunstncias d dois inconvenientes igualmente graves: priva-se da
possibilidade de uma unio feliz com o homem que interiormente elegeu, e
leva para a casa do marido um sentimento de pesar e de remorso. Parece-lhe
isso tolervel?
 No h remorso, no h pesar onde no h esperana, redargiu o
padre. Helena aceita o Mendona por espontnea vontade; e conheo-a tanto
que no acho j possvel que ela recuse.
 Salvo o meu consentimento.
  claro; mas por que o no daria?
 Porque no desanimo de descobrir a pessoa a quem Helena entregou o
corao. Talvez ela ache impossvel aquilo que  simplesmente difcil. Demais,
no esqueamos que Helena mal tem dezessete anos.
 Valem por vinte e cinco.
 Pode ser; mas convm no aceitar de corao leve uma
condescendncia ou um capricho, ou qualquer outro motivo oculto que a
inspira nesta resoluo.
 Que motivo seria?
 Eu sei! Talvez a suspeita de que estimssemos v-la afastar-se de casa.
 No a calunie; Helena tem perfeita cincia e conscincia dos afetos que
a rodeiam e da estima em que  tida. Suas objees no valem nada diante da
79
declarao que ela prpria fez. No compliquemos uma situao simples e
definida.
Melchior proferiu estas palavras com voz branda, mas em tom firme;
Estcio no se animou a responder logo. Voltou, porm, ao primeiro
argumento; depois, aventurou uma objeo nova.
 Mendona  bom corao, disse ele; mas no possui as qualidades que,
em meu entender, devem distinguir o marido de Helena. Nunca exercer sobre
ela a influncia que deve ter um marido. Entre os dois inverte-se a pirmide.
Mas isto, ao menos, se destrua uma das condies do casamento, podia
conservar a felicidade domstica. O perigo maior  outro;  vir ele a perder a
estima da mulher. Nesse caso, que lhe daramos ns a ela? Um casamento
aparente e um divrcio real.
No olhava para ele o padre, mas para fora, com uns olhos dolorosos e o
gesto impaciente. Quando ele acabou, fitou-o com resoluo; disse-lhe que se
tratava de casar Helena, no com um marido especial, mas com o que ela
prpria escolhera de sua vontade livre; casamento que cumpria fazer sem
demora. Era certo que, como chefe de famlia, Estcio podia opor-se ao
casamento ou marcar-lhe condies; mas nem convinha isso ao interesse de
Helena nem ao prprio interesse da famlia.
Estcio ergueu-se quando o padre acabou; percorreu a sala, calado e
pensativo. No fim de alguns segundos, o padre foi a ele.
 V contar tudo  sua tia, disse; aprove sua irm; cas-los-ei a todos no
mesmo dia.
 Pois bem, disse Estcio, como concluindo um raciocnio interior; consinto
em que Helena se case, mas procuremos outro marido. Mendona, no; h de
ser outro. Vou casar-me tambm; receberei todas as semanas; algum rapaz
aparecer que a merea e de quem ela venha a gostar seriamente...  a
minha ltima resoluo.
Captulo XIX
No momento em que Estcio proferia estas palavras, transpunha Mendona
a porta do jardim do capelo. Preocupado com a frieza de Estcio, lembraralhe
falar a Melchior e pedir-lhe conselho. Melchior ia responder ao sobrinho de
D. rsula, quando ouviu rumor de passos na areia do jardim.
 A vem o noivo, disse ele.
Estcio deu dois passos para pegar no chapu; reconsiderou e foi sentar-se
ao p da mesa redonda. Havia ali um exemplar das Escrituras. Abriu-as ao
acaso; a pgina acertou ser um captulo dos Provrbios; leu este versculo:
Quem quer abrir mo de seu amigo, busca-lhe as ocasies; ele ser coberto
de oprbrio. Envergonhado, voltou a folha. Mendona entrara na sala. No
contava com Estcio, mas estimou v-lo ali.
 Venha, disse Melchior; tratvamos justamente do seu casamento.
80
Estcio lanou ao padre um olhar de exprobrao. O padre no o viu;
olhava para Mendona, que imediatamente lhe respondeu:
 No venho c para outra coisa. Uma vez que a fortuna o fez nosso
confidente, desejo constitu-lo meu conselheiro e diretor.
 Antes de tudo, sou advogado da sua causa, disse Melchior; estava
expondo agora as vantagens dela.
Mendona olhou fixamente para o amigo, e, depois de curta pausa:
 Rejeitas ou aceitas o noivo? perguntou ele.
Posto entre a espada e a parede, Estcio no soube logo que respondesse;
ficou a olhar para a lauda aberta, receoso de encontrar a vista dos dois. O
silncio era pior que a resposta; e nem o caso nem as pessoas permitiam to
grande pausa. Estcio fechou de golpe o livro e ergueu-se.
 Discutia somente as vantagens do casamento, disse ele.
 E qual  a tua opinio?
 Minha opinio  que Helena est ainda muito menina. Mas no  s
essa, nem  a principal; o voto, em todo o caso,  a favor do casamento. A
principal razo  o teu prprio crdito.
 Meu crdito?
 Helena pode vir a amar-te como lhe mereces; a verdade  que no
sente ainda hoje igual paixo  tua; foi o padre-mestre que mo disse. Estimate,
 certo; mas a estima  flor da razo, e eu creio que a flor do sentimento 
muito mais prpria no canteiro do matrimnio...
 H muita flor nesse ramalhete de retrica, interrompeu benevolamente
o padre. Falemos linguagem singela e nua. No creia literalmente o que lhe diz
este filsofo, prosseguiu ele, voltando-se para Mendona; ele gosta de ambos
e quer v-los felizes;  o prprio zelo que lhe faz falar assim. Numa palavra,
deseja que o senhor a conquiste, depois de campanha formal...
Mendona respondeu ao capelo com um sorriso plido, que lhe arrebitou
um pouco as pontas do bigode, recolhendo-se logo medroso e frio. O rosto
ficara carregado e pensativo; a lngua de Estcio tocara-lhe o corao.
Disposto a aceitar a estima e a simpatia de Helena com a esperana de
converter esse pequeno dote em avultado capital, no lhe ocorrera que, a
olhos estranhos, podia parecer que o fim exclusivo era a riqueza da moa.
Estcio rompera o vu a essa probabilidade. Uma s palavra desfizera a iluso
de poucos dias.
 Vamos l, disse o padre, abracem-se como irmos.
Nenhum deles se mexeu. Melchior sentiu toda a gravidade da situao; viu
perdidos os esforos, desfeita a unio assentada, um abismo cavado entre os
dois amigos, incerto o destino de Helena. Interveio outra vez com palavras de
brandura, que os dois ouviram sem interromper. Quando acabou:
 O Estcio tem razo, disse Mendona; meu crdito padecer, desde que
algum se lembre de dizer que o casamento foi arranjado sem nenhuma
preocupao das preferncias de D. Helena. Ela me desobrigar, em troca da
palavra que lhe restituo.
81
A frase brotou-lhe dolorida, mas sem hesitao nem fraqueza. Estcio
olhava para ele e sentia alguma coisa semelhante a um remorso. Uma voz
interior parecia dizer-lhe:  Sonmbulo, abre os olhos, tem conscincia de
tuas aes; teu abrao enforca; teus escrpulos fazem-te odioso; tua
solicitude  pior do que a clera. Viu o mancebo cortejar o padre; deteve-o
pelo brao.
 Onde vais? disse ele.
 Vou aonde me leva o pundonor, disse singelamente Mendona.
 Pobres rapazes! exclamou o padre. So dois estouvados, nada mais; um
quer catar argumentos onde sua irm s achou nobre e franca resoluo; o
outro rompe de corao leve uma promessa feita em presena de um
sacerdote. Estouvados, disse eu? So mais do que isso: so dois dementes.
Ora, como s eu tenho juzo e conseqente autoridade, digo que nem um h
de sair assim desenganado, nem o outro h de recusar a aquiescncia que lhe
peo em nome de seu finado pai.
Estcio estremeceu, Mendona conservou-se frio. A arma era rija, mas o
golpe excedia a necessidade. Mendona no quereria dever a esposa 
evocao do nome do conselheiro: equivalia a um rapto. Percebeu-o Melchior,
quando viu Estcio estender a mo ao amigo, mo que este recebeu com
dignidade e frieza. Contaria Estcio com essa mesma repulsa do pretendente?
O certo  que lhe disse, sem a menor sombra de hesitao:
 Meu zelo foi talvez excessivo; a inteno  boa e pura. Que posso eu
desejar seno ver felizes os meus? Amem-se; ser o remate das minhas
aspiraes. Prometes faz-la feliz?
 No prometo nada, disse Mendona; o casamento  j impossvel. Tu
abriste-me os olhos; no te quero mal por isso. Perco muito,  certo, mas no
me exponho  lngua dos maus.
Mendona foi buscar o chapu e disps-se a sair, no obstante a
interveno de Melchior, que procurou traz-lo a sentimentos de reconciliao.
No insistiu o padre; viu no rosto do mancebo uma resoluo digna e firme,
que era impossvel dobrar naquele momento. Quando Mendona lhe estendeu
a mo em despedida, ele apertou-lhe com ternura e esperana. Estcio tentou
ainda ret-lo; foi intil; Mendona saiu dali sem rancor, mas sem pesar. O
corao sangrava-lhe, a conscincia ia contente.
Melchior foi at  porta, a despedir-se de Mendona. Quando este saiu, ele
voltou o rosto para dentro, cruzou os braos e fitou o sobrinho de D. rsula. O
moo desviou os olhos.
 Viu? perguntou o padre. No sei qual seja a sua resoluo; mas
prometo-lhe que serei como Maom,  Deus me perdoe!  ainda que veja o
sol  minha direita e a lua  minha esquerda, no deixarei de executar o meu
desgnio. V ter com sua famlia; deixe-me alguns instantes com o meu
brevirio.
Estcio no pde resistir  intimao do sacerdote; no achou uma palavra
para lhe dizer. Saiu aturdido, desconsolado, colrico. Na rua e na chcara, ia
82
pensando na cena daquela ltima hora, e parecia apenas reconstruir um
sonho. Desconhecia-se, apalpava a inteligncia, chamava em seu auxlio todas
as foras da realidade; olhava para o cho, suspeitoso de que ia calcando as
nuvens. Quando a razo tomou p no meio de lembranas to desconcertadas,
ele viu claramente o resultado de suas aes: perdia um amigo de longos anos
e abdicava a direo da famlia, pelo menos em relao ao casamento da irm.
Se esta lhe agradecesse a resistncia, Estcio dar-se-ia por bem pago de tudo.
No era em seu favor que ele conspirara? Este pensamento levantou-lhe o
nimo; tivesse a aprovao de Helena, pouco lhe importaria o resto.
Helena ouviu-lhe a narrao fiel do que se passara em casa de Melchior.
Ouviu-a comovida; no fim reprovou tudo o que ele fizera.
 Mendona  j o fruto proibido, concluiu a moa; comeo a am-lo. Se
ainda me obrigar a desistir do casamento, ador-lo-ei.
 Chegamos ao capricho! exclamou ele;  o fundo do corao de todas as
mulheres.
Helena sorriu e voltou-lhe as costas. Subiu ao quarto, travou de uma pena
e escreveu um bilhetinho. A tinta secou primeiro que duas grossas lgrimas
cadas no papel; mas as lgrimas secaram tambm. Antes de fechar o bilhete,
desceu Helena a mostr-lo ao irmo.
Quando a moa entrou no gabinete, Estcio ia ter com ela. Tinha resoluo
assentada. Uma vez que a irm aceitava de boa feio o casamento, no havia
mais que o aprovar e celebrar. Encontraram-se na porta; Estcio recuou para
dentro.
 Helena, disse ele, faa-se a tua vontade.
 Consente?
Estcio fez um gesto afirmativo.
 No basta isso, tornou a moa; Mendona no voltar c depois do que
se passou. Peo-lhe a remessa deste bilhete.
Estcio abriu o bilhete; continha estas poucas palavras: Venha hoje a
Andara;  o meu corao que o pede e a nossa felicidade que o exige. Cinco
minutos gastou o moo a ler as duas linhas; leu o que estava escrito e o que
no estava. Helena desarmava os escrpulos de Mendona, tirando  futura
unio qualquer suspeita de interesse. Leu e fechou lentamente o papel.
 Aprova? perguntou a moa.
 Assim, pois, disse o moo tristemente, a tua felicidade exige que esse
homem venha c, que te cases com ele, que nos fujas? No te basta a famlia,
a afeio de nossa tia, a minha prpria afeio? Estes meses de doce
intimidade vo ser esquecidos em um s instante, sacrificados aos ps do
primeiro homem que te apraz escolher e seguir? No dia em que penetraste
nesta casa, entrou contigo um raio de luz nova, alguma coisa que nos faltava
e que tu trouxeste contigo; nossa famlia completou-se; nossos coraes
receberam um sentimento ltimo. Pensvamos que isto seria duradouro, e era
simplesmente fugaz. Oh! Helena, melhor fora no ter vindo!
83
Helena quis responder, a voz travou-se-lhe na garganta, e a palavra
retrocedeu ao corao. Apontou para o papel como pedindo-lhe, ainda uma
vez, que o enviasse e saiu.
De tarde, apareceu Melchior; ia tranqilo e resoluto a dar um golpe
decisivo. Estcio rendeu-se, antes que ele falasse.
 Padre-mestre, disse o moo logo que o viu, a reflexo venceu-me; faase
a vontade de todos.
 Fala de corao?
 De corao.
 Pois bem, seja completo, tornou o padre. Sou ministro de uma religio
que condena o orgulho. No h de ser em curar as feridas de um amigo; v
ter com o seu amigo; traga-o a esta casa, como irmo.
 Irei amanh.
 No; v hoje mesmo.
A noite caiu logo; Estcio foi dali vestir-se. No tendo enviado o bilhete de
Helena, meteu-o na algibeira para entreg-lo ele prprio; depois tirou-o e
releu-o; tendo-o relido, fez um gesto para rasg-lo, conteve-se e perpassou-o
ainda uma vez pelos olhos. A mo,  semelhana de mariposa indiscreta,
parecia atrada pela luz; resistiu algum tempo; enfim chegou o bilhete  vela e
queimou-o.
Captulo XX
A visita de Estcio no causou nenhum espanto a Mendona; ele a
esperava com a confiana das ndoles ingnuas e avessas ao dio. No era
crvel que um amigo de longos anos dormisse sobre a injustia de um minuto;
contudo dormiu. Foi na seguinte manh que Estcio procurou o pretendente de
Helena.
Entrou naturalmente em casa de Mendona, sem expanso nem secura. A
entrevista foi breve e cordial; houveram-se os dois com afetuosa dignidade.
Estcio explicou os escrpulos, declarou-se contente com a aliana. O
contentamento podia existir; todavia, a manifestao foi parca e seca. Houve
mais calor e expanso quando ele lhe pediu que desse vida feliz  irm.
 Ser para mim um eterno remorso, se Helena vier a ser desgraada,
disse ele. No tivemos o mesmo bero, vivemos nossa infncia debaixo de teto
diferente, no aprendemos a falar pelos lbios da mesma me. Importa
pouco; nem por isso lhe quero menos. Meu pai recomendou-a  nossa famlia,
e ela correspondeu ao sentimento que ditou essa ltima vontade.
Mendona no respondeu nada; refletira, durante a noite, nas palavras que
ouvira a Estcio no dia anterior;  palavras que bem podiam ser ditas ou
pensadas por outros, talvez por todos, logo que soubessem do casamento.
Helena viria a am-lo, talvez; mas, desde logo lhe levava para casa a chave da
independncia. Mendona recuou. Quando o padre Melchior o soube, no pde
84
conter um gesto de admirao; mas, se louvou o escrpulo, no aprovou a
resoluo, que vinha derrubar tudo.
 No tapar nunca a boca aos maus, disse o padre; eles acharo meio de
envenenar-lhe a generosidade.
 Pacincia! tornou o moo,  menor esse perigo. Se casar, diro que fao
uma operao vantajosa; talvez a famlia o suponha; talvez ela prpria o
pense.
Helena teve notcia dos receios do pretendente, e da resoluo a que
parecia inclinar o corao. Perguntou-lhe se era verdade. Mendona afirmou
que sim. Ela contemplou-o longamente, sem dizer palavra; travou-lhe das
mos, apertou-as com efuso; ele persistiu.
No desinteresse de Mendona havia porventura um pouco de faceirice. A
moa o percebeu, nem por isso deixou de crer na sinceridade do rapaz. Tentou
dissuadi-lo; e, posto nada alcanasse nos primeiros minutos, estava certa de
que venceria o derradeiro obstculo. Teria os olhos mais hbeis e felizes que
os lbios do padre. Foi o que ela disse ao capelo.
 Tomo  minha conta efetuar este casamento, continuou Helena.
 Resolvida a tudo?
 A tudo.
 Mas, se ele insistir...
 Se ele insistir, venc-lo-ei, ou por um modo ou por outro. Uma moa
que quer ser noiva, vale por um exrcito; eu sou um exrcito.
 Muito bem! Contudo, sua dignidade...
 Oh! em ltimo caso abro mo da herana.
 Era capaz disso? perguntou Melchior.
 Se era capaz? Desejo-o at, disse a moa com veemncia.
E acrescentou em tom mais brando:
 Sobre o homem de minha escolha desejo que no paire a mnima
desconfiana.
Tal era a situao, dois dias depois da volta de Estcio. O casamento podia
contar-se feito. Mendona no resistiu ao desinteresse de Helena. D. rsula
aprovou tudo com efuso e amor, nada sabendo das incertezas e contradies
dos ltimos dias.
Na noite desse dia, Estcio escreveu para Cantagalo dando notcias suas.
Do casamento de Helena falou pouco, quase nada. Tudo o descontentava;
tanto o que ele fizera e dissera, sem proveito, como o desenlace da situao.
No soubera opor-se com eficcia, nem aplaudir oportunamente.
Posto fosse tarde, o sono teimava em fugir-lhe, e ele velou at muito alm
da meia-noite. Ocupado, sem dvida, em adormecer organizaes menos
sensveis e existncias menos complicadas, o sono fez-lhe apenas uma curta
visita. Pelas cinco horas da manh, Estcio acordou e ergueu-se. A manh
estava fresca; quase toda a famlia dormia. Estcio desceu; o nico escravo
que achou levantado preparou-lhe uma xcara de caf. No tendo ainda
chegado os jornais, bebeu-a sem a leitura do costume.
85
Quem sabe por que fios tnues se prendem muitas vezes os
acontecimentos humanos? Estcio ouviu o som longnquo de um tiro; era
algum caador, talvez; a suposio deu-lhe idia de ir caar, foi buscar a
espingarda, proveu-se de plvora e chumbo, e saiu.
Se a habilidade no era muita, parecia ter ainda diminudo naquela manh,
ou porque a mo estivesse menos firme, ou porque a vista andasse menos
segura. Estcio caminhara longo tempo sem pensar no fim que o levava; ia
absorto, alheio ao lugar e s coisas. Fez algumas tentativas de caa. Quando
cansou de errar, consultou o relgio e viu que no era cedo. Tinha o brao
cansado de suster a espingarda; s ento reparou que no trouxera um pajem
consigo. Disps-se a voltar. Vendo uma parasita, colheu-a com a inteno de a
dar a Helena, como seu primeiro presente de npcias. Depois desceu, em
caminho para casa.
Vinha descendo, com a espingarda debaixo do brao, os olhos no cho, a
passo lento, apesar de ser tarde. De uma vez que ergueu os olhos, viu um
caso estranho, que lhe fez deter o passo. Um pouco abaixo, saa, de trs de
uma casa velha, o pajem de Helena, conduzindo a mula e a gua. Estcio no
soube que pensar daquilo; cedendo ao impulso, que no pde dominar, deu
um salto por cima da cerca de espinhos, agachou-se e esperou o resto.
O resto no se demorou muito. Assomou  porta da frente a figura de
Helena. Depois de olhar cautelosamente para um e outro lado, saiu e montou
a gua; o pajem cavalgou a mula e os dois desceram a trote.
Estcio sentiu uma nuvem cobrir-lhe os olhos; ao mesmo tempo, apertava
o primeiro objeto que achou debaixo das mos: era a cerca de espinhos. A dor
f-lo voltar a si; tinha a mo ensangentada. Ao longe, cavalgavam Helena e o
pajem. Logo que os viu desaparecer, Estcio saltou de novo  estrada. Sem
resoluo nem plano, caminhou em direo  casa donde vira sair a irm. Era
a mesma da bandeirinha azul que Helena cumprimentara de longe, alguns
meses antes, e no esquecera de reproduzir na paisagem que dera ao irmo,
no dia dos anos dele. Estas circunstncias, antes indiferentes, apareciam-lhe
agora como outros tantos artigos de um libelo.
O prdio parecia ainda mais velho do que a primeira vez que o vira; a
calia das paredes e das colunas ia caindo, e o esqueleto de tijolo estava a nu,
em mais de um lugar. Alguma erva mofina brotava a custo junto s paredes,
cobrindo com folhas descoloridas o cho desigual e mido. Por baixo de uma
das janelas havia um banco de pau, gretado pelo tempo, com as bordas rolias
de longo uso. Tudo ali respirava penria e senilidade.
 No, dizia Estcio consigo, no  este o asilo de um Romeu de
contrabando. Mora aqui alguma famlia pobre, que a caridade engenhosa de
Helena vem afagar de longe em longe.
A soluo do enigma pareceu-lhe to natural que o moo resolveu parar a
meio da aventura, e chegou a dar alguns passos para trs. Mas a suspeita  a
tnia do esprito; no perece enquanto lhe resta a cabea. Estcio sentiu o
desejo imperioso de indagar o que aquilo era, e voltou sobre seus passos. Para
86
entrar ali era necessrio um motivo ou pretexto. Procurou algum; a aventura
dera-lhe o melhor de todos. Olhou para a mo ferida e ensangentada, e foi
bater  porta.
Captulo XXI
Poucos instantes esperou Estcio. Veio um homem abrir-lhe a porta; era o
mesmo que ele vira ali uma vez. Entre ambos houve meio minuto de silncio,
durante o qual nem Estcio se lembrou de dizer o que queria, nem o
desconhecido de lhe perguntar quem era. Olhavam um para o outro.
 Que desejava? disse enfim o dono da casa.
 Um favor, respondeu Estcio, mostrando-lhe a mo ferida. Ia a cair h
pouco; procurando amparar-me, numa cerca de espinhos, feri-me, como v.
Podia dar-me um pouco dgua para lavar este sangue, e...
 Pois no, interrompeu o outro. Queira sentar-se a no banco, ou, se
prefere, entrar...  melhor entrar, concluiu, abrindo-lhe caminho.
Em qualquer outra ocasio, Estcio teria recusado o convite, porque o
espetculo da pobreza lhe repugnava aos olhos saturados de abastana.
Agora, ardia por haver a chave do enigma. Entrou. O desconhecido abriu uma
das janelas para dar mais alguma luz, ofereceu ao hspede a melhor cadeira e
foi por um instante ao interior.
Estcio pde ento examinar,  pressa, a sala em que se achava. Era
pequena e escura. A parede, pintada a cola j de longa data, tinha em si todos
os sinais do tempo; primitivamente de uma s cor, a pintura apresentava
agora uma variedade triste e desagradvel. Aqui o bolor, ali uma greta, acol
o rasgo produzido por um mvel; cada acidente do tempo ou do uso dava
quelas quatro paredes o aspecto de um asilo da desgraa. A moblia era
pouca, velha, mesquinha e desigual. Cinco ou seis cadeiras, nem todas ss,
uma mesa redonda, uma cmoda e uma marquesa, um aparador com duas
mangas de vidro cobrindo castiais de lato, sobre a mesa um vaso de loua
com flores, e na parede dois pequenos quadros cobertos de escumilha
encardida, tais eram as alfaias da sala. S as flores davam ali um ar de vida.
Eram frescas, colhidas de pouco. Atentando nelas, Estcio estremeceu:
pareceu-lhe reconhecer uma accia plantada em sua chcara. Quando a
suspeita germina na alma, o menor incidente assume um aspecto decisivo.
Estcio sentiu um calafrio.
Voltou o dono da casa, trazendo nas mos uma bacia, e nos braos uma
toalha, cuja alvura contrastava singularmente com a cor da parede e o aspecto
senil da casa. Estcio ergueu-se.
 Deixe-se estar, disse o desconhecido.
 Estou perfeitamente bem.
 Nesse caso, faa o favor de chegar  janela.
A bacia foi posta na janela; o desconhecido quis lavar ele prprio a mo do
hspede; o moo no lho consentiu.
87
 Ao menos, disse o dono da casa, h de consentir que a enxugue. Eu
entendo um pouco disto; infelizmente, no tenho aqui nenhum medicamento
caseiro para aplicar.
Estcio aceitou o oferecimento. O dono da casa abriu a toalha e comeou
cuidadosamente a operao. O sobrinho de D. rsula pde ento examin-lo 
vontade.
Era um homem de trinta e seis a trinta e oito anos, forte de membros, alto
e bem proporcionado. Uma cabeleira espessa e comprida, de um castanho
escuro, descia-lhe da cabea at quase tocar nos ombros. Os olhos eram
grandes, e geralmente quietos, mas riam, quando sorriam os lbios,
animando-se ento de um brilho intenso, ainda que passageiro. Havia naquela
cabea,  salvo as suas,  certo ar de tenor italiano. O pescoo, cheio e
forte, surgia dentre dois ombros largos, e, pela abertura da camisa, que um
leno atava frouxamente na raiz do colo, podia Estcio ver-lhe a alva cor e a
rija musculatura. Vestia pobre, mas limpamente, um rodaque branco, cala de
ganga e colete de brim pardo. O vesturio, disparatado e mesquinho, no
diminua a beleza mscula da pessoa; acusava somente a penria de meios.
Quando acabou de lavar os arranhes de Estcio,  eram pouco mais do
que isso,  props-se a ir buscar um pedao de pano. Estcio, com a outra
mo e os dentes, rasgou o leno que trazia, e o dono da casa completou o
sumrio curativo.
 Pronto! disse ele. Se tiver em casa algum medicamento apropriado, ser
conveniente aplic-lo. Toda a cautela  pouca; convm evitar alguma
inflamao.
 Obrigado, respondeu Estcio. Realmente, vim dar-lhe uma maada, sem
grande necessidade, talvez...
 Por qu?
 Podia fazer isto mesmo quando chegasse  casa.
 Mora perto?
 Um pedao abaixo.
 Foi conveniente curar j; nenhuma precauo  intil em coisa nenhuma
da vida.
 Mxima de prudncia, observou Estcio, procurando sorrir.
 Que s aprende tarde quem a no traz na massa do sangue, replicou o
outro, suspirando.
A no ser indiscreto ou falador, era difcil levar a conversa por diante. O
favor estava feito, o assunto esgotado. Restava agradecer, despedir-se e sair.
Estcio, entretanto, tinha necessidade de mais tempo; queria arrancar quele
homem uma palavra menos indiferente  situao, ou conhecer-lhe, se fosse
possvel, o carter e os costumes. Para isso havia, talvez, um meio;
contrafazer-se, empregar maneiras estranhas s suas, apegar-se  ocasio por
todas as bordas. Estcio, determinou-se a isso, confiando o resto ao acaso.
Voltou  cadeira e sentou-se.
 Consente que descanse um pouco? Estou fatigadssimo.
88
 No pelo que caou, disse o desconhecido, rindo.
 Volto com as mos abanando. Nunca fui bom caador, e tenho, no
obstante, a mania de atirar aos pssaros.
 No  esse o defeito de muita outra gente, em mais elevada ordem de
coisas? Eu fui vtima desse defeito mortal.
 Ah! exclamou Estcio com certa entonao interrogativa.
O dono da casa sorriu levemente, mas no pareceu molest-lo a
curiosidade do hspede; talvez mesmo no desejasse outra coisa.
  verdade, disse ele; devo a minha atual penria ao erro de teimar em
coisas estranhas  minha ndole e aptido, estranhas e totalmente opostas...
 H de perdoar-me, interrompeu Estcio com um ar de familiaridade
indiscreta, que lhe no era habitual; eu creio que um homem forte, moo e
inteligente no tem o direito de cair na penria.
 Sua observao, disse o dono da casa sorrindo, traz o sabor do
chocolate que o senhor bebeu naturalmente esta manh antes de sair para a
caa. Presumo que  rico. Na abastana  impossvel compreender as lutas da
misria, e a mxima de que todo o homem pode, com esforo, chegar ao
mesmo brilhante resultado, h de sempre parecer uma grande verdade 
pessoa que estiver trinchando um peru... Pois no  assim; h excees. Nas
coisas deste mundo no  to livre o homem, como supe, e uma coisa, a que
uns chamam mau fado, outros concurso de circunstncia, e que ns batizamos
com o genuno nome brasileiro de caiporismo, impede a alguns ver o fruto de
seus mais hercleos esforos. Csar e sua fortuna! Toda a sabedoria humana
est contida nestas quatro palavras.
O desconhecido proferiu isto com o tom mais simples e natural do mundo,
e uma facilidade de elocuo que Estcio mal lhe podia supor. Era aquilo uma
comdia ou a expresso da verdade? Estcio olhou fixamente para ele, como a
querer penetr-lo. Ao mesmo tempo, ouviu-se um rumor na parte da casa que
ficava alm da sala; Estcio voltou a cabea com um gesto de desconfiana. A
porta abriu-se e apareceu uma preta velha trazendo nas mos uma bandeja. A
criada estacou a meio caminho.
 Pe em cima da mesa, disse o dono da casa.  o meu almoo, continuou
ele, voltando-se para Estcio; almoo parco e higinico. Ousarei oferecer-lho?
Estcio fez um gesto negativo, e disps-se a sair.
 J! No  meu intento despedi-lo; almoarei conversando. Vivo to
solitrio que a presena de alguma pessoa  para mim um encanto.
Estcio aceitou sem dificuldade o convite; sentou-se defronte do homem,
ao p da mesa, e assistiu ao almoo, que no podia ser mais escasso: um po,
duas hstias de queijo duro e uma chvena de caf. O que mais valia era o
contentamento do dono da casa e a franqueza com que ostentava aos olhos de
um estranho a simplicidade de seus hbitos.
 No  refeio de prncipe, dizia ele, mas satisfaz todas as ambies de
um estmago sem esperana. Aqui  a sala de visitas e a sala de jantar; a
89
cozinha  contgua; alm, ficam duas braas de quintal; para l do quintal... o
infinito da indiferena humana.
E depois de um silncio:
 No digo bem, emendou ele; nem sempre acho indiferena. Meu
trabalho no me d mais do que escasso po de cada dia; mas tenho algumas
alegrias, no meio de minha perptua quaresma; e essas recebo-as de mos
caridosas e puras.
Dizendo isto, o desconhecido esgotou a chvena, e reclinou-se sobre a
cadeira, fitando em cheio a cara do hspede. Estcio refletiu nas ltimas
palavras, e um raio de esperana veio rasgar-lhe a nuvem que lhe
entenebrecia a fronte. Os dois homens pareciam interrogar-se. O filho do
conselheiro sacou do bolso um charuto e ofereceu-o ao dono da casa.
 Obrigado, disse este.
 No fuma?
 J fumei; hoje economizo esse vcio. Nem por isso fao mais lentamente
a digesto.
 Mora s?
 S.
 No tem famlia?
 Nenhuma.
 H de achar-me singularmente indiscreto....
 No; suponho que a sua curiosidade tem uma causa honrosa e legtima.
 Acertou; o senhor inspira-me simpatia. E se eu conhecesse alguma
dessas mos puras, que lhe emendam as lacunas da sorte...
 Dar-me-ia, por intermdio delas, o seu bolo?
 Se o no ofendesse...
 No ofendia, mas eu recusava, se soubesse; peo-lhe desde j que o
no faa s escondidas...
Estcio fez um gesto de assentimento.
 No  orgulho, continuou o dono da casa;  um resto de pudor que a
pobreza me no tirou ainda. Fiz-lhe agora um obsquio, um simples dever de
vizinho... Pareceria que o senhor mo pagava com um benefcio. O benefcio
seria menos espontneo de sua parte e menos agradvel para mim. Agradvel
no exprime, talvez, toda a minha idia; mas o senhor facilmente
compreender o que quero dizer.
 Entendeu-me mal; o meu bolo no seria na espcie a que o senhor
alude. Tenho amigos e alguma influncia; poderia arranjar-lhe melhor
posio...
O desconhecido refletiu um instante.
 Aceitaria? perguntou Estcio.
 Estou pensando na maneira de recusar. Ouro  o que ouro vale. Eu
vexar-me-ia eternamente de dever qualquer melhora da sorte ao cumprimento
de um dever de caridade.
 J me no admira a vida pobre que tem tido.
90
 Excessivo escrpulo, talvez?...
 Escrpulo desarrazoado.
 Antes demais que de menos.
 Nem de menos nem demais; mas, s a poro justa.
 A poro varia, conforme as necessidades morais de cada um. Mas eu
mesmo, que lhe estou a falar, nem sempre tive esta virtude intratvel; e
porventura alguma vez fraqueei...
A fronte do desconhecido tornou-se sombria; a voz morreu-lhe nos lbios,
e os olhos caram naquela atonia que exprime uma grande concentrao de
esprito. Era ocasio de interrog-lo diretamente ou sair. Estcio preferiu o
ltimo alvitre.
 No o quero demorar mais, disse o dono da casa, quando o mancebo
proferiu as palavras de despedida. J  tarde, e sua me talvez esteja
ansiosa...
Estcio limitou-se a olhar para ele em cheio, dizendo:
 Se alguma vez resolver dar de mo a seus escrpulos, mande procurarme.
Minha casa  conhecida em todo Andara pela casa do conselheiro Vale...
O desconhecido, em cujo rosto Estcio esperou ver um sinal qualquer de
abalo ou surpresa, conservou-se impassvel e risonho. Curvou-se em sinal de
agradecimento; e como Estcio hesitasse em estender-lhe a mo, ele meteu
as suas nas algibeiras.
 Talvez nos vejamos ainda, disse Estcio j fora da porta.
 Sim?
 Passeio algumas vezes por estes lados.
 Nem sempre estou em casa; mas, ainda estando, conservo fechadas as
portas. Quando quiser descansar, bata; a casa  pobre, mas ser amiga.
Estcio afastou-se rapidamente. Eram dez horas, e o sol aquecia; ele no
deu pelo sol nem pelo tempo. Semelhante ao transviado florentino, achava-se
no meio de uma selva escura, a igual distncia da estrada reta,  diritta via 
e da fatal porta, onde temia ser despojado de todas as esperanas. Nada
sabia, nada conjeturava; eram tudo novas dvidas e oscilaes. O homem
com quem acabava de conversar, parecia-lhe sincero; a pobreza era autntica,
sensvel a nota de melancolia que, por vezes, lhe afrouxava a palavra. Mas,
onde cessava ali a realidade e comeava a aparncia? Vinha de tratar com um
infeliz ou um hipcrita? Estcio rememorou todos os incidentes da manh, e
todas as palavras do desconhecido; eram outros tantos pontos de interrogao
suspeitos e irrespondveis. Repelia com horror a idia do mal: custava-lhe a
aceitar a idia do bem; e a pior das angstias,  a dvida,  continha-o todo
e agitava-o em suas mos felinas. O sol e a agitao alastravam-lhe a testa de
prolas de suor; ao ofego da marcha apressada juntava-se o da violenta
comoo. Estcio no via os objetos que ia costeando, nem as pessoas que lhe
passavam ao lado; ia cego e surdo, at que o choque da realidade o
despertasse.
91
Chegou enfim  casa. Ao porto estava um escravo, a quem deu a
espingarda. A demora causara alguma inquietao  famlia; logo que as duas
senhoras souberam de seu regresso, correram a receb-lo, ficando D. rsula a
uma janela, e descendo Helena at meio caminho. A apario sbita da moa,
a alegria e o amor, que pareciam impeli-la, a perfeita ingenuidade do gesto,
tudo produziu nele a necessria reao,  reao de um instante,  mas
salutar, porque a crise era demasiado violenta. Estcio apertou as mos da
moa com energia. Um fluido sutil percorreu as fibras de Helena, e aquele
rpido instante teve toda a doura de uma reconciliao.
Estcio contava recolher-se ao quarto para pr em ordem as idias,
compar-las, extrair uma conjetura, pelo menos, e verific-la ou desmenti-la.
Mas, nem a tia nem a irm haviam almoado,  espera dele, e foroso lhe foi
acompanh-las na satisfao de uma necessidade que no sentia. Durante o
almoo, Estcio procurou observar Helena; trabalho ocioso, porque o rosto da
moa, se alguma coisa traa nessa ocasio, eram as alegrias inefveis da
famlia. Ela prpria servia por suas mos a Estcio e D. rsula; inexcedvel na
ateno com que sabia repartir-se entre os convivas, no o era menos no
carinho, e na graa. Nos olhos parecia estampada a ignorncia do mal, e o
sorriso era o das almas cndidas. Poder-se-ia atribuir quela criatura de
dezessete anos corrupo e hipocrisia? Estcio envergonhou-se de tal idia;
sentiu as vertigens do remorso.
Mas o almoo acabou, dispersou-se a companhia, o mancebo recolheu-se
ao gabinete, e, desfeita a viso, voltou a suspeita. Estcio buscou dominar a
situao. Ele no ia ao ponto de supor em Helena a completa perverso dos
sentimentos; o limite do mal, que se lhe podia atribuir, era o de uma culposa
leviandade. Se, em vez de um ato leviano, fosse aquilo um simples
estratagema de caridade, Helena no mereceria menos uma advertncia; mas
a pureza da inteno salvava tudo, e a paz da famlia, no menos que o seu
decoro, se restabeleceria inteira. Estcio examinou um por um todos os
indcios de culpabilidade e de inocncia; buscou sinceramente os elementos de
prova; no esqueceu um s argumento de induo. Nesse trabalho despendeu
longo tempo, sem resultado aprecivel, pela razo de que, se a sentena era
difcil de formular, o juiz era incompetente para decidir; entre a dignidade e a
afeio balouava incerto.
Quase  hora do jantar, Estcio, que no sara uma s vez do gabinete,
chegou a uma das janelas, e viu atravessar a chcara a mais humilde figura
daquele enigma, humilde e importante ao mesmo tempo: o pajem. O pajem
apareceu-lhe como uma idia nova; at aquele instante no cogitara nele uma
s vez. Era o confidente e o cmplice. Ao v-lo, recordou-se de que Helena lhe
pedira uma vez a liberdade daquele escravo. A ameaa rugiu-lhe no corao;
mas a clera cedeu  angstia, e ele sentiu na face alguma coisa semelhante a
uma lgrima.
Nesse momento duas mos lhe taparam os olhos.
92
Captulo XXII
No era preciso grande esforo para adivinhar a dona das mos. Estcio,
com as suas, afastou as mos de Helena, segurando-lhe os pulsos de modo
que lhe arrancou um leve gemido. Voltando-se, deu com os olhos na irm, que
lhe disse em tom de gracioso reproche:
 Voc  muito mau! Pagou-me a carcia com um aperto. Deixe estar que
nunca mais cairei em outra. Vim v-lo, porque voc hoje no se lembrou ainda
de dar  gente um ar de sua graa... Doeu-me! continuou ela olhando para os
pulsos. Mas... tenho os dedos molhados; seria... voc estaria... que ? que
foi?
Estcio, que ouviu o discurso da irm, com o rosto desfeito e o olhar
ansioso, no lhe respondeu s ltimas interrogaes, e continuou a olhar para
ela, como a querer ler na fisionomia da moa a explicao do enigma que o
atordoava. Helena ainda insistiu, aterrada e aflita. Indo pegar-lhe nas mos,
Estcio desviou o corpo, dirigiu-se  parede, dependurou o desenho que
Helena lhe dera no dia de seus anos, e aproximou-se da moa.
 Que ? repetiu esta admirada.
A nica resposta de Estcio foi estender o dedo sobre a misteriosa casa
reproduzida na paisagem. Helena olhou alternadamente para o desenho e para
o irmo. A expresso interrogativa e imperiosa deste f-la atenta no ponto
indicado. Sbito empalideceu; os lbios tremeram-lhe como a murmurar
alguma coisa, mas a alma falou to baixo que a palavra no chegou  boca.
Durou aquilo poucos instantes. A angstia lia-se no rosto dos dois; a moa
para ocultar a sua, cobriu os olhos com as mos. O gesto era eloqente;
Estcio lanou para longe de si o quadro, com um movimento de clera.
Helena atirou-se para o corredor.
D. rsula, aguardava os sobrinhos para jantar. Demorando-se estes,
dirigiu-se ela prpria ao gabinete de Estcio. A porta estava aberta; D. rsula
entrou e deu com ele, sentado numa poltrona, com um leno na cara, como a
soluar. A tia correu com a velocidade que lhe permitiam os anos. Estcio no
a ouviu entrar; s deu por ela quando as mos da boa senhora lhe arrancaram
as suas dos olhos. O assombro de D. rsula foi indescritvel, sobretudo quando
Estcio, erguendo-se, atirou-se-lhe aos braos, exclamando:
 Que fatalidade!
 Mas... que ?... explica-te.
Estcio enxugou as faces molhadas do longo e silencioso pranto, com o
gesto decidido de um homem que se envergonha de um ato de debilidade. A
exploso desabafara-lhe o esprito; podia enfim ser homem, e era preciso que
o fosse. D. rsula pediu e ordenou que lhe confiasse a causa da inexplicvel
aflio em que viera ach-lo. Estcio recusou diz-la.
 Saber tudo amanh ou logo. Agora s poderia dar-lhe um enigma, e eu
sei o que ele me h custado. Algumas horas mais, e precisarei de seu conselho
e apoio.
93
D. rsula resignou-se  demora. Quando chegou  sala de jantar, achou
um recado de Helena; mandava-lhe dizer que se sentira repentinamente
incomodada e que a dispensasse naquela tarde e noite. D. rsula suspeitou
logo que o recado de Helena tivesse relao com a aflio de Estcio, e correu
ao quarto da sobrinha. Achou-a meio inclinada sobre a cama, com o rosto na
almofada, e o corpo tranqilo e como morto. Ao sentir os passos de D. rsula,
ergueu a cabea. A palidez era grande e profundo o abatimento; mas no
houvera lgrimas. A dor, se a houve, e houve, parecia ter-se petrificado. O
que restava ainda vivo na figura da moa, eram os olhos que no perderam o
fulgor natural. Ela ergueu-os a medo, e abraou a tia com um olhar de splica
e de amor. D. rsula travou-lhe das mos, encarou-a silenciosamente, e
murmurou:
 Conta-me tudo.
 Saber depois! suspirou a moa.
 No tens confiana em tua tia?
Helena ergueu-se e lanou-se-lhe nos braos; duas lgrimas rebentaramlhe
dos olhos, e foram as primeiras que eles verteram naquela meia hora.
Depois beijou-lhe as mos com ternura:
 Pode receber estes beijos, disse ela, os anjos no os tm mais puros.
Foram as ltimas palavras que D. rsula pde arrancar-lhe; a moa
recolheu-se ao silncio em que a encontrou. D. rsula saiu; e foi dali ter com
Estcio. O sobrinho encaminhava-se para a sala de jantar.
 Vamos para a mesa, disse ele, no convm que os escravos saibam de
tais crises...
D. rsula referiu o estado em que achara Helena e as palavras que trocara
com ela. Estcio ouviu-a sem nenhuma expresso de simpatia. O jantar foi um
simulacro; era um meio de iludir a perspiccia dos escravos, que alis no
caram naquele embuste. Eles conheceram perfeitamente que algum
acontecimento oculto trazia suspensos e concentrados os espritos. As iguarias
voltavam quase intactas; as palavras eram trocadas com esforo entre a sinh
velha e o senhor moo. A causa daquilo era, com certeza, nhanh Helena.
Estcio deu ordem para que a todas pessoas estranhas se declarasse estar
ausente a famlia. A nica exceo era o padre Melchior. A esse escreveu
pedindo-lhe que os fosse ver.
 No posso esperar at amanh, disse D. rsula; se tens de revelar
alguma coisa a um estranho, por que o no fazes a mim primeiro? Dize-me o
que h. No posso ver padecer Helena; quero consol-la e anim-la.
 O que tenho para dizer  longo e triste, retorquiu Estcio; mas, se
deseja sab-lo desde j, peo-lhe ao menos que espere a presena do padre
Melchior. Eu no poderia dizer duas vezes as mesmas coisas; seria revolver o
punhal na ferida.
A curiosidade de D. rsula cresceu com estas meias palavras do sobrinho;
mas era foroso esperar, e esperou. Foi dali ao quarto de Helena. Como a
94
porta estivesse fechada, espreitou pela fechadura. Helena escrevia. Esta nova
circunstncia veio complicar as impresses de D. rsula.
 Helena est encerrada no quarto, e escreve, disse ela ao sobrinho.
 Naturalmente, respondeu este, com sequido.
O padre Melchior no se demorou em acudir ao chamado de Estcio. O
bilhete era instante e a letra febril. Algum acontecimento grave devia ter-se
dado. A reflexo do padre era justa, como sabemos; ele o reconheceu desde
logo, no s no aspecto lgubre da famlia, como na nsia com que era
esperado. Os trs recolheram-se a uma das salas interiores.
 Helena? perguntou Melchior.
 Vamos tratar dela, respondeu Estcio.
Referir o que se passara naquela fatal manh era mais fcil de planear que
de executar. No momento de expor a situao e as circunstncias dela, Estcio
sentiu que a lngua rebelde no obedecia  inteno. Achava-se num tribunal
domstico, e o que at ento fora conflito interior entre a afeio e a
dignidade, cumpria agora reduzi-lo s propores de um libelo claro, seco e
decidido. Inocente ou culpada, Helena aparecia-lhe naquele momento como
uma recordao das horas felizes,  doce recordao que os sucessos
presentes ou futuros podiam somente tornar mais saudosa, mas no
destruiriam nunca, porque  esse o misterioso privilgio do passado. Reagiu,
entretanto, sobre si mesmo; e, ainda que a custo, referiu minuciosa e
sinceramente o que se passara desde aquela manh.
No fora talhado para to melindrosas revelaes o corao de D. rsula.
Desde o princpio da conversao sentiu o atordoamento que do os grandes
golpes. Esperava, decerto, um grande infortnio de Helena, um episdio da
famlia anterior, alguma coisa que desafiasse a compaixo, sem diminuir o
sentimento da estima. Acontecia justamente o contrrio; a estima era
impossvel e a compaixo tornava-se apenas provvel.
 Mas no!  impossvel! exclamou ela da a pouco, logo que a razo,
obscurecida pelo abalo, pde readquirir alguma luz... no! eu a vi h pouco;
senti-lhe as lgrimas na minha face, ouvi-lhe palavras que s a inocncia pode
proferir. E, alm disso, seu procedimento irrepreensvel, um ano quase de
convivncia sem mcula, a elevao de seus sentimentos... no posso crer
que tudo isso... No! pobre Helena! Vamos cham-la; ela explicar tudo.
Interroguemos o Vicente.
Um gesto dos dois homens mostrou que nenhum deles julgava digno este
ltimo recurso para conhecer a verdade.
D. rsula cara em prostrao, recordava suas apreenses do primeiro dia,
e recuava com horror  idia de ter acertado. Defronte dela, Estcio ocupava
uma poltrona rasa, em cujos braos fincava os cotovelos, apoiando nas mos a
cabea ardente e abatida. A alma ruminava a dor.
Um s dos trs vingava a dignidade da situao. O padre Melchior no
sentira menor assombro que os dois parentes de Helena, nem padeceu menos
profundo golpe; mas reergueu-se de um e outro; pde vencer-se e conservar
95
a razo clara, fria e penetrante. Entre os dois coraes ulcerados e sem fora,
compreendeu Melchior que lhe cabia a principal ao, e no recuou ante a
responsabilidade que da poderia deduzir. Viu de um lance a extenso possvel
do mal, a desunio da famlia, os desesperos da ocasio, os dios do dia
seguinte, as amarguras indelveis, e, talvez, as indelveis saudades; mas nem
este quadro o aterrou, nem ele o aceitou sem exame. Melchior no condenava
nem absolvia; esperava. Ele pertencia ao nmero dessas virtudes singelas
para as quais o vcio  uma rara exceo; natureza sincera e franca, era-lhe
difcil crer na hipocrisia. Enquanto Estcio prosseguia calado e pensativo, e D.
rsula, ora sentada, ora de p intercalava o silncio com exclamaes de dor,
Melchior observava-os e refletia tambm consigo. Enfim, proferiu estas
palavras de animao:
 Sossegue, D. rsula; a verdade h de aparecer, e no estamos certos
de que seja o que nos parece. Em todo o caso, no antecipemos a aflio.
Seria padecer duas vezes. H tempo de chorar  larga.
Melchior levantou-se:
 Convm sacudir o abatimento, continuou, dirigindo-se a Estcio;  a
hora da ao e do vigor. Sobretudo,  necessrio no boquejar de semelhante
assunto por agora; daria azo s vozes estranhas e seus naturais comentrios.
Eu tomarei nesta coliso o lugar que me compete, se mo no contestam...
 Oh! exclamou Estcio.
 ... Mas, desejo que desde j se compenetrem bem de que, se a
dignidade pede uma coisa, a caridade pede outra, e que o dever estrito 
concili-las. Nada de dios; perdo ou esquecimento.
 Mas, padre-mestre, que lhe parece? perguntou D. rsula com
ansiedade.
 D. rsula, disse o padre,  preciso agora que a razo fale e trabalhe; o
sentimento deve retrair-se e esperar. Examinarei o caso, e aconselharei o
necessrio remdio. Talvez estejamos a debater-nos no vcuo; quem sabe?
trata-se de um equvoco, de uma aparncia...
 Oh! ela confessou tudo! interrompeu Estcio. Vi-lhe a expresso da
culpa nos olhos. Mas, enfim, estou pronto para tudo, continuou ele erguendose.
No foi o senhor um dos melhores amigos de meu pai? No o  ainda
nosso? Ajude-nos, aconselhe-nos; faremos o que lhe parecer melhor. Na
situao em que nos achamos, nenhum de ns tem o esprito bastante senhor
de si para colher os elementos da verdade, apur-la e resolver. Esse papel 
seu.
Vieram trazer a Estcio uma carta. Era do Dr. Camargo, anunciando-lhe
que a madrinha de Eugnia falecera, e que ele no prazo de alguns dias estaria
na Corte. Era o pior momento para semelhante vinda; Estcio no pde
reprimir um gesto de desgosto. O padre, dizendo-lhe o mancebo de que
tratava a carta, observou que nenhum inconveniente podia haver no regresso
de Camargo, uma vez que, sem demora, ficasse liquidado o assunto que os
afligia.
96
 D. rsula, continuou ele, deixe-nos agora ss alguns instantes; v
tranqila, confie em Deus, e no faa suspeitar a ningum o que se passa
nesta casa.
D. rsula obedeceu. Logo que ela saiu, Melchior fechou a porta. Estcio
sentou-se de novo, disposto a ouvir o capelo. Este deu alguns passos entre a
porta e uma das janelas. Ia anoitecendo; Estcio acendeu um candelabro.
Melchior sentou-se ao p dele, sem lhe falar nem lhe voltar sequer os olhos.
Meditava ou lutava consigo mesmo; a fronte pesada e merencria traduzia a
agitao interior. J no era a inaltervel placidez, reflexo de uma conscincia
religiosa e pura. Se a conscincia era a mesma, no o era o corao, a braos
com uma crise nova. Aps dez minutos de profundo silncio entre ambos, o
padre falou.
Captulo XXIII
 s forte? perguntou o padre.
 Sou.
 Crs em Deus?
Estcio estremeceu e olhou para o ancio, sem responder. Melchior
insistiu:
 Crs?
 Essa pergunta...
  menos ociosa do que parece. No basta supor que se cr; nem basta
crer  ligeira, como na existncia de uma regio obscura da sia, onde nunca
se pretende pr os ps. O Deus de que falo, no  s essa sublime
necessidade do esprito, que apenas contenta alguns filsofos; falo-te do Deus
criador e remunerador, do Deus que l no fundo de nossas conscincias, que
nos deu a vida, que nos h de dar a morte e, alm da morte, o prmio ou o
castigo. Crs?
 Creio.
 Pois bem, tu transgrediste a lei divina, como a lei humana, sem o saber.
Teu corao  um grande inconsciente; agita-se, murmura, rebela-se, vaga 
feio de um instinto mal-expresso e mal compreendido. O mal persegue-te,
tenta-te, envolve-te em seus liames dourados e ocultos; tu no o sentes, no
o vs; ters horror de ti mesmo, quando deres com ele de rosto. Deus que te
l, sabe perfeitamente que entre o teu corao e tua conscincia h um vu
espesso que os separa, que impede esse acordo gerador do delito.
 Mas que , padre-mestre?
Melchior inclinou-se e encarou o moo. Os olhos, fitos nele, eram como um
espelho polido e frio, destinado a reproduzir a imagem do que lhe ia dizer.
 Estcio, disse Melchior pausadamente, tu amas tua irm.
O gesto mesclado de horror, assombro e remorso com que Estcio ouvira
aquela palavra, mostrou ao padre, no s que ele estava de posse da verdade,
mas tambm que acabava de a revelar ao mancebo. O que a conscincia deste
97
ignorava, sabia-o o corao, e s lho disse naquela hora solene. A conscincia,
depois de tatear nas trevas, recuou apavorada, como afastando de si o claro
sbito que acendera nela a palavra do sacerdote. Estcio no respondeu nada;
no podia responder nada. Com que vocbulo e em que lngua humana
exprimiria ele a comoo nova e terrvel que lhe abalara a alma toda? que fio
pudera atar-lhe as idias rotas e dispersas? Nem falou, nem se atreveu a
erguer os olhos; ficou como estpido e morto. Melchior contemplou-o alguns
minutos, silencioso e compassivo. Os olhos, que eram de guia para mistrios
da vida, eram de pomba para os grandes infortnios. Abaixo da cabea
mscula, havia um corao feminino.
A mudez de Estcio cessou enfim; o corpo agitou-se; o lbio articulou
algumas frases desconcertadas. Vago era o sentido delas; podia concluir-se
que ele no cria na revelao de Melchior, que o suposto sentimento era to
absurdo e desnatural que s a maus instintos devia ser atribudo. Melchior
ouviu-o, sorriu com satisfao. No era aquilo mesmo um protesto de
conscincia honrada?
 Maus instintos, no, respondeu Melchior; num desvio da lei social e
religiosa, mas desvio inconsciente. Entra em teu corao, Estcio; revolve-lhe
os mais ntimos recantos, e l achars esse germe funesto; lana-o fora de ti,
que  o preceito do Eterno Mestre. No o sentiste nunca; a tentao usa essa
ttica serpentina e dolosa;  insinuante como a calnia, e pertinaz como a
suspeita. Mas eu sou a verdade que afirma, e a caridade que consola. Digo-te,
no que pecaste, mas que ficaste  beira do pecado, e estendo-te a mo para
que recues do abismo.
 Padre-mestre! murmurou Estcio, cujo corao recebia a influncia da
palavra de Melchior, a um tempo severa e meiga.
 No fales, continuou o padre; neg-lo  mentir; confess-lo  ocioso.
Como nasceu em teu corao semelhante sentimento? Quis a fortuna que
entre vocs dois no houvesse a imagem da infncia e a comunho dos
primeiros anos; que, em plena mocidade, passassem, do total
desconhecimento um do outro, para a intimidade de todos os dias. Esta foi a
raiz do mal. Helena apareceu-te mulher, com todas as sedues prprias da
mulher, e mais ainda com as do seu prprio esprito, porque a natureza e a
educao acordaram em a fazer original e superior. No sentiste a
transformao lenta que se operou em ti, nem podias compreend-la. So
Paulo o disse: para os coraes limpos, todas as coisas so limpas. Vias a
afeio legtima naquilo que era j afeio espria; da vieram os zelos, a
suspiccia, um egosmo exigente, cujo resultado seria subtrair a alma de
Helena a todas as alegrias da terra, unicamente para o fim de a contemplares
sozinho, como um avaro.
Ouvindo a palavra do padre, Estcio soletrava o prprio corao e lia
claramente o que at ento era para ele como um livro fechado. A situao
tornava-se, entretanto, por demais aflitiva, profunda a vergonha, intenso o
remorso. Estcio ergueu-se: erguendo-se, deu com os olhos no retrato do
98
conselheiro que, na penumbra em que ficava, parecia olhar para o filho e
interrog-lo. Esta circunstncia desorientou o moo:
 No, padre-mestre! exclamou ele deixando-se cair na cadeira. 
impossvel! isto que me est dizendo  um sonho mau,  um funesto
equvoco;  impossvel; juro-lhe que  impossvel.  certo que a amo... que a
amava, com sentimentos de irmo; mas esquecer-me, aninhar em minha alma
to odioso afeto... oh! era impossvel!
Melchior erguera-se. Aps meia dzia de passos, aproximou-se de Estcio,
sobre cuja cabea estendeu a mo direita, enquanto com a outra lhe erguia a
barba, obrigando-o a olhar para ele.
 Digo-te que tens uma raiz de m erva no corao; esta  a cruel
verdade. H no homem uma ligao de sentimentos, s vezes inexplicvel.
Produtos de climas opostos a se alternam ou se confundem... Mas queres
saber o resto?
 O resto?
 Ouve, continuou o padre, sentando-se. A planta ruim bracejou um ramo
para o corao virgem e casto de Helena, e o mesmo sentimento os ligou em
seus fios invisveis. Nem tu o vias, nem ela; mas eu vi, eu fui o triste
espectador dessa violenta e miservel situao. So irmos e amam-se. A
poesia trgica pode fazer do assunto uma ao teatral; mas o que a moral e a
religio reprovam, no deve achar guarida na alma de um homem honesto e
cristo.
 Impossvel! impossvel! exclamou Estcio. Mas, dado que assim fosse,
por que acumular  dificuldade presente o horror de semelhante revelao?
 Porque a revelao explica a dificuldade. Helena no saber que ama,
mas ama. Ora, um amor clandestino, de parceria com esse amor incestuoso,
embora inconsciente, provaria da parte de Helena uma perverso que ela no
pode ter, e que, em tal idade, faria dela um monstro. Ser Helena esse
monstro? Se o fosse, eu desesperaria da natureza humana. No! essa casa,
onde a viste entrar,  com certeza asilo de misria: o que ela a vai levar  a
esmola e a compaixo.
Um raio de esperana alumiou a fronte de Estcio. O raciocnio do padre
era exato, e por mais perigosa que fosse a situao revelada por ele, j agora
no se podia desejar outra coisa; a dignidade da famlia ficava intacta. Estcio
refletiu largo tempo no que acabava de ouvir. Mas a esperana foi curta,
embora a necessidade dela fosse grande.
 Helena continua recolhida? perguntou o padre.
Estcio fez um leve sinal afirmativo.
 Falar-lhe-ei amanh; por hoje convm no dizer palavra nem deixar
transpirar coisa nenhuma.
Dizendo isto, Melchior recolheu-se ao silncio, como se refletisse ainda
alguma coisa. Estcio erguera-se e entrara a passear lentamente. De quando
em quando, apertava a cabea entre as mos; tantas comoes bastavam
99
para atordoar mais forte esprito. O mistrio o cercava de todos os lados. Ele
ia at  janela, da at  porta, intercalando as reflexes interiores com
sacudimentos nervosos do brao ou da cabea. A intervalos, olhava a furto e
de travs para o capelo, como o criminoso olha para a conscincia; no podia
evitar o sentimento de terror, e ao mesmo tempo de respeito, que lhe infundia
aquele investigador exato e profundo de seus sentimentos mais recnditos e
inacessveis. Ruminava o que o padre lhe dissera; cada minuto lhe ia tornando
mais clara a verdade revelada, e o que era obscuro fizera-se-lhe enfim
transparente.  assim que a luz de um astro, acesa desde sculos, chega
finalmente a ferir a retina de nossos olhos mortais.
Uma vez, interrompendo os passos, ergueu os olhos para o retrato do
conselheiro. No os retirou aterrado; cravou-os com ar de reproche e de
amargura, em que o padre reparou, e que o fez sorrir tristemente. O olhar do
filho pedia contas ao pai.
 Paz aos mortos! observou Melchior. Os atos de seu pai j no pertencem
 jurisdio deste mundo.
Melchior proferiu estas palavras j de p.
 O Dr. Camargo, disse ele mudando de tom, deve chegar um dia destes,
segundo anuncia. H alguma razo para demorar o casamento?
 Nenhuma.
 Convm realiz-lo imediatamente?
 Imediatamente.
Melchior caminhou para a porta. Ia dar volta  chave e deteve-se.
 Antes de nos separarmos, disse ele, desejo a promessa de que no
falars a Helena antes de amanh.
 Prometo.
O padre refletiu um instante; Estcio pareceu adivinh-lo.
 Quer ainda outra promessa? perguntou ele. Quer que a evite de todos
os modos?
 Sim; que a considere como pessoa totalmente estranha.
 Poderia ser de outra maneira? observou melancolicamente Estcio. Os
sucessos destes dias so, por enquanto ao menos, uma barreira entre ela e
sua famlia. Demais, eu seria destitudo de todo o senso moral...
 Jura?
 Juro.
Melchior desabrochou a camisa, e aventou um crucifixo de marfim, que lhe
pendia de uma fita preta, ao pescoo.
 Esta, disse ele com voz singela,  a efgie do teu Deus. To puro
exemplo de castidade no viram os sculos nem antes nem depois que ele
desceu  terra. Jura o que me prometes.
 Padre-mestre, retorquiu Estcio; minha palavra era bastante. Mas, se 
preciso afirmao mais solene, eu a darei tal qual me pede.
Estcio inclinou a cabea sobre o crucifixo e beijou-o respeitosamente;
depois beijou a mo ao padre. Melchior abenoou-o e saiu.
100
Saindo do gabinete de Estcio, dirigiu-se para a sala de costura, onde
achou D. rsula um pouco menos agitada.
 Falou a Helena? perguntou ela, dirigindo-se ao padre.
 Ainda no; sei que no quer sair do quarto; deixemos passar a primeira
comoo. Amanh virei saber tudo. Por hoje  preciso que a senhora
sossegue.
 Oh! estou sossegada! No perdi a confiana.
D. rsula proferiu estas palavras com tamanha serenidade e to profunda
convico que fortaleceu o esprito do prprio Melchior, alis no inclinado a
crer no mal. O ancio deteve-se alguns instantes a contemplar o rosto plcido
de D. rsula, a admirar a fora secreta que a tornava surda ao clamor da
realidade,  pelo menos, da realidade aparente. Contemplou-a silencioso, e
desceu  chcara.
Captulo XXIV
A noite era escura. Calcando a terra e a areia das largas calhes da chcara,
Melchior, em sua imaginao, refloria o passado, nem sempre feliz, mas
geralmente quieto. Mais de uma vez buscara dissipar a sombra pesarosa que
alguns erros do conselheiro acumularam na fronte da consorte. Haveria
naquela casa uma gerao de dores, destinadas a abater o orgulho da riqueza
com o irremedivel espetculo da debilidade humana?
 No, dizia ele consigo mesmo. A verdade  que tudo se encadeia e
desenvolve logicamente. Jesus o disse: no se colhem figos dos abrolhos. A
vida sensual do marido produziu o infortnio calado e profundo daquela
senhora, que se foi em pleno meio-dia; o fruto h de ser to amargo como a
rvore; tem o sabor travado de remorsos.
Neste ponto chegava ao porto. A deteve-se um instante. O passo
cauteloso e tmido de algum f-lo voltar a cabea. Um vulto, cujo rosto no
via, to escuro como a noite, ali estava e lhe tocava respeitosamente as abas
da sobrescasaca. Era o pajem de Helena.
 Seu padre, disse este, diga-me por favor o que aconteceu em casa. Vejo
todos tristes; nhanh Helena no aparece; fechou-se no quarto... Me perdoe a
confiana. O que foi que aconteceu?
 Nada, respondeu Melchior.
 Oh!  impossvel! Alguma coisa h por fora. Seu padre no tem
confiana em seu escravo. Nhanh Helena est doente?
 Sossega; no h nada.
 Hum! gemeu incredulamente o pajem. H alguma coisa que o escravo
no pode saber; mas tambm o escravo pode saber alguma coisa que os
brancos tenham vontade de ouvir...
Melchior reprimiu uma exclamao. A noite no lhe permitia examinar o
rosto do escravo, mas a voz era dolente e sincera. A idia de interrog-lo
passou pela mente do padre, mas no fez mais do que passar; ele a rejeitou
101
logo, como a rejeitara algumas horas antes. Melchior preferia a linha reta; no
quisera empregar um meio tortuoso. Iria pedir a Helena a soluo das
dificuldades. Entretanto, o pajem, como interpretasse de modo afirmativo o
silncio do sacerdote, continuou:
 Nhanh Helena  uma santa. Se algum a acusa, acusa o bom
procedimento dela. Eu lhe direi tudo...
Melchior ia recusar, mas um incidente interrompeu a palavra do pajem,
contra a vontade deste, e talvez contra o desejo de Melchior. Ouviram-se
passos; era um escravo que vinha fechar o porto.
 Vem gente, disse Vicente; amanh...
O pajem tateou nas trevas em procura da mo do padre; achou-a, enfim,
beijou-a e afastou-se. Melchior seguiu para casa, abalado com a meia
revelao que acabava de ouvir. Outro qualquer podia duvidar um instante da
sinceridade do escravo; podia supor que o ato dele era menos espontneo do
que parecia; enfim, que a prpria Helena sugerira aquele meio de transviar a
expectao e congraar os sentimentos. A interpretao era verossmil; mas o
padre no cogitou de tal coisa. A ele era principalmente aplicvel a mxima
apostlica: para os coraes limpos, todas as coisas so limpas.
A seguinte aurora alumiou um cu puro de nuvens. Estcio acordou com
ela, depois de uma noite mal dormida. Nunca a manh lhe pareceu mais
rumorosa e jovial; nunca o ar apresentara to fina transparncia nem a
folhagem to lustrosa cor. Da janela a que se encostara, via as flores de todos
os matizes, quebrando a monotonia da verdura, e enviando-lhe, a ele, uma
nuvem invisvel de aromas; aspecto de festa e ironia da natureza. Estcio
achava-se ali como um saimento em horas de carnaval.
Almoou sozinho; D. rsula estava com Helena. Logo depois do almoo,
recebeu uma carta de Mendona, que, tendo ido na vspera a Andara
recebera a resposta dada a todos, e mandava saber se havia molstia em
casa. Estcio respondeu afirmativamente, acrescentando que, posto no se
tratasse de coisa grave, s o esperava dois dias depois. A resposta podia ser
mais circunspecta; no estado em que ele se achava, pareceu-lhe excelente.
Pela volta do meio-dia, chegou Melchior. Na sala de visitas achou D.
rsula, que o espreitava de uma das janelas.
 Helena? perguntou ele ansioso.
 J hoje desceu, respondeu D. rsula. Est mais tranqila. No lhe
perguntei nada, mas dizendo-lhe que o senhor viria falar-lhe, mostrou-se
ansiosa por v-lo, e pediu-me at que o mandasse chamar.
Seguiram os dois at  saleta que ficava ao p da sala de jantar. Helena
estava sentada, com a cabea cada sobre as costas da cadeira, e os olhos
metade cerrados. Logo que o padre entrou, Helena abriu os olhos e ergueu-se.
Vivo e passageiro rubor coloriu-lhe as faces plidas da viglia e da aflio.
Ergueu-se e deu dois passos para o padre, que lhe apertou as mos entre as
suas.
 Imprudente! murmurou Melchior.
102
Helena sorriu, um sorriso plido e to passageiro como a cor que lhe
tingira o rosto. D. rsula disps-se a ir chamar Estcio, que estava no andar
de cima. Apenas a viu sair, Helena segurou em uma das mos do padre.
 Queria v-lo! disse ela. No tenho nimo de falar a ningum mais, de
dizer tudo...
  intil; tudo sei, interrompeu Melchior sorrindo. O Vicente foi hoje de
manh  minha casa; foi de movimento prprio; relatou-me quanto sabia;
disse-me que esse homem  seu irmo; que a senhora o ia ver, a ocultas, no
podendo ou no querendo apresent-lo em casa de seus parentes. O escrpulo
era excessivo, e o ato leviano. Por que motivo dar aparncia incorreta a um
sentimento natural? Teria poupado muita aflio e muita lgrima, a si e aos
seus, se tomasse antes o caminho direito, que  sempre o melhor.
Helena ouviu estas palavras do padre com a alma debruada dos olhos.
No parecia sequer respirar. Quando ele acabou, perguntou sfrega:
 Com que intento lhe falou ele?
 Com o mais puro de todos; desconfiou que a senhora padecia e por isso
veio contar-me tudo.
Helena cruzou os dedos e ergueu os olhos. Melchior no a quis interromper
nessa ascenso mental ao cu; limitou-se a contempl-la. A beleza de Helena
nunca lhe parecera mais tocante do que nessa atitude implorativa. A
contemplao no durou muito, porque a orao foi breve.
 Orei a Deus, disse ela, descendo as mos, porque infundiu a no corpo
vil do escravo to nobre esprito de dedicao. Delatou-me para restituir-me a
estima da famlia. Aquilo que ningum lhe arrancaria do corao, tirou-o ele
mesmo no dia em que viu em perigo o meu nome e a paz de meu esprito.
Infelizmente, mentiu.
Melchior empalideceu.
 Mentiu sem o saber, continuou a moa. Disse o que supunha ser
verdade, o que eu lhe dei como tal. No  meu irmo esse homem.
Melchior inclinou-se para a moa e pegando-lhe nos pulsos, disse
imperiosamente:
 Ento quem ? Seu silncio  uma delao; no tem j direito de
hesitar.
 No hesito, replicou Helena; em tais situaes, uma criatura, como eu,
caminha direito a um rochedo ou a um abismo; despedaa-se ou some-se.
No h escolha. Este papel,  continuou, tirando da algibeira uma carta, 
este papel lhe dir tudo; leia e refira tudo a Estcio e a D. rsula. No tenho
nimo de os encarar nesta ocasio.
Melchior, atordoado, fez um leve sinal de cabea.
 Lido esse papel, esto rotos os vnculos que me prendem a esta casa. A
culpa do que me acontece, no  minha,  de outros; aceitarei contudo as
conseqncias. Poderei contar ao menos com a sua bno?
A resposta do padre foi pousar-lhe um beijo na fronte, beijo de absolvio
ou de clemncia, que ela lhe pagou com muitos na destra enrugada e trmula
103
de comoo. Helena precipitou-se depois para o corredor, deixando o padre
s, com a carta nas mos, sem ousar abri-la, receoso dos males que iam dali
sair, sem certeza ao menos de que ficaria no fundo a esperana. Ia abri-la, e
hesitou se o devia fazer na ausncia de Estcio e D. rsula; venceu o
escrpulo e leu.
D. rsula, que entrou na ocasio em que ele fechava a carta, recuou
aterrada. Melchior estava plido como um defunto. Antes que nenhum deles
falasse, entrou Estcio na saleta. Melchior dirigiu-se a ele e entregou a carta.
Leu-a Estcio e dizia assim:
Minha boa filha. Sei pelo Vicente que alguma coisa a h que te aflige.
Presumo adivinhar o que . O Estcio esteve comigo, logo depois que daqui
saste a ltima vez. Entrou desconfiado, e deu como razo ou pretexto a
necessidade de curar algumas feridas feitas na mo. Talvez ele prprio as
fizesse para entrar aqui em casa. Interrogou-me; respondi conforme pedia o
caso. Supondo que ele soubesse de tuas visitas, no lhe ocultei a minha
pobreza; era o meio de atribu-las a um sentimento de caridade. A virtude
serviu assim de capa a impulsos da natureza. No  isso em grande parte o
teor da vida humana? Fiquei, entretanto, inquieto; talvez lhe no arrancasse o
espinho do corao. Pelo que me disse o Vicente, receio que assim
acontecesse. Conta-me o que h, pobre filha do corao; no me escondas
nada. Em todo caso, procede com cautela. No provoques nenhum
rompimento. Se for preciso, deixa de vir aqui algumas semanas ou meses.
Contentar-me-ia a idia de saber que vives em paz e feliz. Abeno-te,
Helena, com quanta efuso pode haver no peito do mais venturoso dos pais, a
quem a fortuna, tirando tudo, no tirou o gosto de se sentir amado por ti.
Adeus. Escreve-me.  Salvador.
P.S. Recebi o teu bilhete. Pelo amor de Deus, no faas nada; no saias
da; seria um escndalo.
Estcio no compreendeu desde logo o que acabava de ler. A verdade
parecia inverossmil. O primeiro movimento foi sair dali e ir ter com Helena.
Melchior deteve-o a tempo.
 No precipitemos nada, disse ele. Sossegue primeiro.
Estcio deixou-se cair numa cadeira. Melchior comunicou o contedo da
carta a D. rsula, cujo pasmo foi ainda mais profundo que o do sobrinho,
porque ela no soltou uma palavra, no fez um gesto; ficou a olhar
estupidamente para o papel. Houve ento entre aqueles trs personagens dez
minutos de mortal silncio. D. rsula no pensava; olhava para a carta, logo
depois para o sobrinho e o padre, como a esperar uma concluso que seu
prprio esprito no podia deduzir dos acontecimentos. Estcio ficara
desorientado; em vo procurava um fio de deduo entre as idias; a
revelao nova era uma complicao mais. Se a carta era sincera, como
explicar a declarao testamentria de seu pai? Se o no era, como explicar a
audcia de semelhante inveno? Ele no podia discernir o que era favorvel a
Helena, nem ousava afirmar o que lhe era adverso.
104
No meio daquela famlia, arriscada a dispersar-se, Melchior considerava a
superioridade da morte sobre alguns lances terrveis da vida. Se o bito de
Helena tomara o lugar da carta, a dor seria violenta, mas o irremedivel
desfecho e o consolo da religio teriam contribudo para sarar a alma dos que
ficassem e converter o desespero de alguns dias na saudade da vida inteira.
Em vez disto, estava ele, talvez, diante de um destino aniquilado; via um
abismo possvel entre coraes que a vontade de um morto vinculara.
Qualquer que fosse a veracidade da carta, o resultado era talvez esse.
Melchior foi dali ter com Helena, para alcanar mais detida explicao do
que acabava de ler. Ela ergueu-se quando o viu, e pareceu reviver ao
contemplar o gesto benvolo com que ele lhe falou. Um longo suspiro de alvio
rompeu-lhe o corao: os braos caram sobre os ombros do padre, em cujo
seio escondeu o rosto e repousou enfim,  um minuto  das dores que a
afligiam.
 Perdoaram-me? disse ela.
 Ho de perdoar; conte-me tudo.
 Oh! no posso, no sei; sei que  meu pai.
O capelo no insistiu; voltou aos outros dois, a quem achou na posio
em que os deixara. Interrogaram-no com os olhos.
 Nada, disse ele. O corao dela no possui nesta ocasio a necessria
fora para responder a quanto se lhe devia perguntar; demais, no saber
tudo. Temos a primeira confisso da verdade...
 Da verdade? interrompeu melancolicamente Estcio. Quem sabe se 
verdade o que lemos nesse papel?
 , deve ser. Faltam-nos,  certo, os fundamentos da asseverao; mas
eu incumbo-me de ir busc-los.
 Iremos ambos.
D. rsula quis dissuadir o sobrinho de ir  casa do homem, causa dos
desastres da famlia, no tanto porque lhe parecia que entre Estcio e ele
nenhuma relao convinha estabelecer, mas sobretudo porque ela precisava
de algum que a acompanhasse em to graves circunstncias. Melchior
inclinou-se ao alvitre de D. rsula.
 Irei eu s, disse ele; depois conduzi-lo-ei at c, se for preciso.
 No posso esperar, insistiu Estcio; preciso falar a esse homem, ouvi-lo,
ler-lhe a verdade ou o embuste nas linhas do rosto. Talvez o decoro da famlia
exigisse outra coisa; mas, padre-mestre, meu corao goteja sangue...
Era impossvel dissuadi-lo: Melchior tratou somente de o moderar. De
resto, a crise era violenta; cumpria resolv-la sem demora nem hesitao. O
padre animou D. rsula, e saiu acompanhado de Estcio, cujo corao,
convalescido do primeiro abalo, deixava as regies da dvida para entrar na
atmosfera da verdade,  pelo menos da esperana. Quaisquer que fossem as
conseqncias da nova revelao, vinha esta como um blsamo, aps to
dolorosas comoes; era um rasgo azul no cu tempestuoso daqueles dias.
Ia ele pensando assim,  ou antes sentindo,  porque o pensamento no
105
ousava reg-lo, desde que a vida inteira de moo se lhe concentrara no
corao.
Chegando  frente da casa, Estcio desviou os olhos; custava-lhe encarla,
mas venceu-se. Houve demora em abrir a porta; abriu-se esta enfim, e a
figura do dono da casa apareceu aos dois. Vendo-os, empalideceu um pouco,
mas um sorriso procurou disfarar a impresso. Estcio foi direito ao fim.
 Suponho que se lembra de mim? disse ele.
 Perfeitamente.
 Sabe que motivo nos traz  sua casa?
 No, senhor.
 Confessa a autoria desta carta?
Salvador estremeceu; depois respondeu com um gesto afirmativo.
 Pretende que Helena  sua filha, disse o moo depois de um instante.
Confirma verbalmente o que escreveu?
 Helena  minha filha.
Melchior interveio:
 H um ano, falecendo, o meu velho amigo conselheiro Vale reconheceu
Helena, por uma clusula testamentria; recomendava  famlia que a tratasse
com afeto e carinho e designava o colgio em que ela estava sendo educada.
O fato do reconhecimento e as circunstncias que apontou, do toda a
veracidade  palavra do morto. Que prova apresenta o senhor em contrrio a
ela?
 Nenhuma, disse Salvador; no tenho prova de nenhuma natureza.
 Na falta de provas, prosseguiu o capelo, poderia dizer-nos como supor
da parte do conselheiro uma falsificao, tratando-se de disposio to grave
como essa de introduzir uma pessoa estranha na famlia?
Salvador sorriu amargamente.
 Suponha, disse ele, que eu havia iludido a confiana do conselheiro, e
que ele acreditava ser pai de Helena.
 Era isso?
 No era. Na posio em que nos achamos, j no h lugar para meias
palavras. Fora  referir tudo. Dez minutos apenas.
Os trs sentaram-se. Melchior olhava para o dono da casa com a
persistncia e a curiosidade naturais da ocasio. Salvador esteve alguns
instantes calado; enfim, voltou-se para o capelo.
 Estimo, disse ele, que o Sr. padre viesse; sua caridade temperar a
legtima indignao deste moo; e eu farei as declaraes indispensveis na
presena das duas pessoas a quem mais amo, abaixo de Helena.
 Queira falar, disse secamente Estcio.
Captulo XXV
 A me de Helena, disse Salvador, cuja beleza foi a causa, a um tempo,
da sua m e boa fortuna, era filha de um nobre lavrador do Rio Grande do Sul,
106
onde tambm nasci. Apaixonamo-nos um pelo outro. Meu pai ops-se ao
casamento; tinha alguns bens, mandara-me estudar, queria ver-me em
posio brilhante. ngela podia ser obstculo  minha carreira, dizia ele. Opsse
e eu resisti; raptei-a; fomos viver na campanha oriental, donde passamos a
Montevidu, e mais tarde ao Rio de Janeiro. Tinha vinte anos quando deixei a
casa paterna; possua alguns estudos, poucos, meia dzia de pataces, muito
amor e muita esperana. Era de sobra para a minha idade, mas insuficiente
para o meu futuro. A lua-de-mel foi desde logo uma noite de privaes e
trabalhos. Minha vida comeou a ser um mosaico de profisses; aqui onde me
vem, fui mascate, agente do foro, guarda-livros, lavrador, operrio,
estalajadeiro, escrevente de cartrio; algumas semanas vivi de tirar cpias de
peas de papis para teatro. Trabalhava com energia, mas a fortuna no
correspondia  constncia, e o melhor dos anos gastei-o em luta spera e
desigual. Uma compensao havia, a mais doce de todas: era o amor e o
contentamento de ngela, a igualdade do nimo com que ela encarava todas
as vicissitudes. Pouco tempo depois da nossa fuga, havia outra compensao
mais: era Helena. Essa menina nasceu em um dos momentos mais tristes da
minha vida. Os primeiros caldos da me foram obtidos por favor de uma
mulher da vizinhana. Mas nasceu em boa hora, e foi um lao mais que nos
prendeu um ao outro. A presena de um ente novo, sangue do meu sangue,
fez-me redobrar de energia. Trabalhava com alma, lutava resoluto contra
todas as foras adversas, certo de encontrar  noite a solicitude da me e as
ingnuas carcias da filha. Os senhores no so pais; no podem avaliar a
fora que possui o sorriso de uma filha para dissolver todas as tristezas
acumuladas na fronte de um homem. Muita vez, quando o trabalho me
tomava parte da noite, e eu, apesar de robusto, me sentia cansado, erguiame,
ia ao bero de Helena, contemplava-a um instante e parecia cobrar foras
novas. Se o prprio bero era obra de minhas mos! Fabriquei-o de alguns
sarrafos de pinho velho; obra grosseira e sublime; servia a adormecer metade
da minha felicidade na terra.
Salvador interrompeu-se comovido.
 Perdoem-me, continuou ele, depois de alguns instantes, se estas
memrias me abalam o corao. Eu era pobre, to pobre como hoje. Desse
tempo s resta um eco doloroso e consolador. Crescia Helena e cresciam suas
graas. Era o encanto e a esperana do meu albergue. Quando pde aprender
os rudimentos da leitura, dei-lhe as primeiras lies; assisti pasmado  aurora
daquela inteligncia que os senhores vem hoje to desenvolvida e lcida.
Aprendia com facilidade, porque estudava com amor. ngela e eu
construamos os mais lindos castelos do mundo. Ns a vamos j mulher,
formosa como viria a ser, porque j o era, inteligente e prendada, esposa de
algum homem que a adorasse e elevasse. Vivamos dessa antecipao, que
era apenas um sonho, e no sentamos os golpes da fortuna.
 Por que razo, perguntou Melchior, dado esse amor e nascida uma filha,
no santificou o senhor a situao em que se achavam?
107
 A curiosidade  justa, replicou Salvador, mas a resposta  decisiva.
Casar era a nossa justificao; era um argumento contra o ressentimento de
meu pai. Nos primeiros dias da nossa fuga do Rio Grande, a prpria
embriaguez da felicidade desviou qualquer idia de santificar e legalizar uma
unio consentida pela natureza. Depois vieram os trabalhos e as necessidades.
Como eu tinha certeza de no fugir ao dever que tomara em meus ombros, ia
adiando o ato de ms para ms, de ano para ano. Afinal o projeto esvaiu-se de
todo. Estvamos ligados pela misria e pelo corao, no pretendamos o
respeito da sociedade; triste desculpa; e ainda mais triste recordao, porque
o casamento teria talvez obstado os acontecimentos posteriores. Helena
contava seis anos. Minha fortuna, adversa sempre, com intermitncias
favorveis, parecia abrandar um pouco. Ia encetar um novo meio de vida,
quando uma circunstncia grave me chamou ao Rio Grande. Meu pai
adoecera; mandava-me o seu perdo, ordenando-me que o fosse ver sem
demora. Obedeci prontamente. Do que ele me remeteu para as despesas de
viagem e outras, deixei alguma coisa a ngela e Helena, e parti. Vinte e
quatro horas depois de ver meu pai, tive a dor de o perder. A liquidao dos
negcios foi curta; os bens todos ficaram pertencendo aos credores;
restavam-me alguns pataces. Recebi esse golpe novo com a filosofia da
insensibilidade. Quem sabe se no era eu o culpado do acontecimento? Os
negcios entretanto, apesar de curtos, demoraram-me mais do que eu
pretendia e convinha. A nsia de voltar cresceu, desde que no recebi a
resposta das ltimas cartas que escrevi a ngela. Enfim, pude regressar ao Rio
de Janeiro com um luto mais e uma esperana menos. Neste ponto entra a
pessoa de seu pai.
Estcio desviou os olhos.
 Logo que cheguei, continuou Salvador, corri  casa; achei-a fechada.
Um vizinho, testemunha da minha aflio, deu-me notcia de que ngela se
mudara para So Cristvo. No sabia nem o nmero nem a rua; mas deu-me
algumas indicaes que me guiaram. Ainda hoje tenho ante os olhos o sorriso
com que aquele homem me respondia. Era um sorrir de compaixo que
humilhava. Sem nunca haver recebido de mim a menor ofensa, vejo que ele
tinha um prazer secreto com o meu infortnio. Por qu? Deixo aos filsofos
liquidarem esse enigma da natureza humana. Voei a So Cristvo; gastei
tempo em procurar a casa, mas dei com ela. Quando a vi, duvidei de meus
olhos ou das indicaes. Era uma casa elegante, escondida entre o arvoredo,
no meio de um pequeno jardim. Podia ser aquela a residncia da companheira
de minha misria? Receoso de ir bater ali, vi assomar ao porto um homem,
que me pareceu ser o jardineiro. Perguntei pela dona da casa, a quem dei o
seu prprio nome, dizendo que lhe desejava falar. A senhora saiu, respondeu
ele distraidamente. Dispus-me a esperar, mas o jardineiro observou-me que ia
sair e fechar o porto, e que a senhora s voltaria  noite. Esperarei at 
noite, redargi. O jardineiro mediu-me de alto a baixo, circulou um olhar
cauteloso pela rua e disse-me baixinho: Aconselho ao senhor que no volte; o
108
patro no h de gostar. No escrevo um romance; dispenso-me de lhes
pintar o efeito que produziram essas palavras. O que senti excede a toda a
descrio. H catstrofes mais solenes, h situaes mais patticas; mas
naquela ocasio parecia-me que todas as dores do mundo se tinham
convergido para meu corao. O jardineiro era verdadeiramente compassivo;
lendo em meu rosto o efeito de suas palavras, disse-me alguma coisa de que
absolutamente no me lembro. Convidou-me com brandura a sair; obedeci
maquinalmente. Podendo informar-me acerca de ngela, no o fiz. A febre
reteve-me trs dias de cama, numa pobre cama alugada em pssima
estalagem da Cidade Nova. No terceiro dia recebi uma carta de ngela. Pediame
que lhe perdoasse o passo que dera; que uma paixo nova e delirante a
havia guiado, e que, se viesse a arrepender-se, seria essa a minha vingana.
Quando li a carta, tive mpeto de ir ter com ela e esgan-la; mas o mpeto
passou, e a dor desfez-se em reflexes. Poucos dias antes, a bordo, um
engenheiro ingls que vinha do Rio Grande para esta Corte, emprestara-me
um volume truncado de Shakespeare. Pouco me restava do pouco ingls que
aprendi; fui soletrando como pude, e uma frase que ali achei fez-me
estremecer, na ocasio, como uma profecia; recordei-a depois quando ngela
me escreveu. Ela enganou seu pai, diz Brabantio a Otelo, h de enganar-te a
ti tambm. Era justo; pelo menos, era explicvel. Dois dias depois da carta de
ngela, escrevi-lhe pedindo meia hora de conversao; nada mais. ngela
concedeu-me a entrevista. Meu plano era arrebatar-lhe Helena; ela parece que
o previu, recebendo-me sozinha, no jardim, s nove horas da noite.
 Por que razo recorda todas essas mincias? interrompeu Melchior com
brandura; ns desejamos somente saber o essencial.
 Tudo  essencial na minha narrao, disse Salvador. Aquela entrevista
mostrou-me a toda a luz o carter de ngela. Que outra mulher se arriscaria,
em tais circunstncias, a afrontar a clera do homem desprezado? ngela era
um complexo de qualidades singulares. Capaz de suportar as maiores
angstias, forte e risonha no meio das mximas privaes, esqueceu num
instante as virtudes que tinha para correr atrs de uma fantasia de amor. No
foi a riqueza que a seduziu; ela iria, ainda que tivesse de trocar a riqueza pela
misria. ngela nasceu metade freira e metade bailarina; capaz das
austeridades de um claustro, no o era menos das pompas da cena. E da...
no fui eu mesmo que a desviei da estrada real para met-la por um atalho
obscuro? Disse-lho naquela noite em que procurei ser tranqilo e superior aos
acontecimentos. Meu fim, declarei eu,  s um: levar Helena; Helena  minha
filha, no quero deix-la entregue a seus maus exemplos. As lgrimas com
que me banhou as mos, as rogativas que me fez, ajoelhada a meus ps, para
que lhe deixasse Helena, no h negar que foi tudo sincero. Cedi
aparentemente. Minha resoluo estava assentada; sem Helena, a vida
parecia-me impossvel. Que outro vnculo me prendia ao mundo? A morte e a
misria tinham feito em redor de mim completa solido. A nica felicidade
sobrevivente era ela.
109
 Segundo rapto, observou o padre. O senhor condenava-se a s adquirir
um vislumbre de felicidade por meios violentos.
 Tem razo, respondeu Salvador com tristeza; um abismo chamava outro
abismo. Felizes os que sabem o caminho reto da vida e nunca se arredaram
dele! Quis arrebatar Helena; espreitei-a noite e dia. No a via nunca; a prpria
casa rara vez tinha uma porta ou janela aberta. Havia ali o recato e o mistrio.
Um dia resolvi ir ter com o protetor de ngela. A notcia que me deram do
conselheiro Vale era a mais honrosa do mundo. Assentei que me ouviria e
cederia a meus justos rogos. O demnio do orgulho impediu a execuo do
plano. Quase a entrar em casa do conselheiro, recuei. Decorreram assim cerca
de dois meses. Emagreci; as longas viglias fizeram-me plido; o trabalho no
me atraa; cheguei a padecer fome. O poeta que disse que a saudade  um
pungir delicioso, no consultou meu corao. Acerbo o achei eu;  certo que a
ela misturava-se a clera, a clera da impotncia e o desgosto mortal do
abandono. Um dia, dirigi-me para So Cristvo, disposto a empregar a
violncia, contanto que trouxesse Helena ou fosse dali para o aljube. Era 
tardinha. Aproximei-me do jardim de ngela, ouvi a voz de minha filha. Era a
primeira vez depois de longos meses! Parou-me o sangue todo. Passado o
primeiro abalo, caminhei cauteloso, encostado  cerca; Helena falava a
algum. Por uma abertura da cerca, pude espreit-la. Estava ao colo de um
homem. Esse homem era o conselheiro. Olhei para um e outro; ora para o
meu rival, ora para a minha Helena. Helena acariciava as barbas dele; este
sorria para ela com um ar de ternura, que o absolvia quase da ofensa a mim
feita. O corao, porm, apertou-se-me, ao ver dar a outro afagos a que s eu
tinha direito. Era um roubo feito  natureza; mas, se meu prprio sangue me
repudiava, que podia eu exigir de alheios coraes? Da a algum tempo,  no
sei se foi curto ou longo, porque eu ficara a olhar para ambos, pasmado de
amor e de clera, ouvi que falavam de mim. Mas, olhe, dizia Helena, papai
quando vem? O conselheiro deu um beijo na menina, e falou de uma
borboleta que nesse momento pairava sobre a cabea dela. As crianas,
porm, so implacveis; aquela repetiu a pergunta. Papai no volta,
respondeu o conselheiro. Helena ficou sria. No volta? por qu? Tua
mame disse ontem que papai est no cu. Helena levou as mos aos olhos,
donde lhe rebentaram lgrimas copiosas. Uma nuvem passou-me pelos
olhos... tentei dar alguns passos, entrar no jardim, dizer quem era e exigir
minha filha. Os msculos no corresponderam  inteno; senti fraqueza nas
pernas; achei-me de bruos. Quando dei acordo de mim, volvi de novo os
olhos para o lugar onde os vira. Ainda ali estavam, mas a atitude era
diferente. O conselheiro erguera-se, tendo nos braos Helena, que j no
chorava. Ele beijava-lhe as mozinhas e dizia-lhe: Se papai foi para o cu,
fiquei eu no lugar dele, para dar-te muito beijo, muito doce e muita boneca.
Queres ser minha filha? A resposta de Helena foi a do nufrago; estendeu-lhe
os braos em volta do pescoo, como se dissesse: Se no tenho ningum
mais no mundo! O gesto foi to eloqente que eu vi borbulhar uma lgrima
110
nos olhos do conselheiro. Essa lgrima decidiu do meu destino; vi que ele a
amava, e de todos os sacrifcios que o corao humano pode fazer, aceitei o
maior e mais doloroso: eliminei a minha paternidade, desisti da nica herana
que tinha na terra, fora da minha juventude, consolo de minha misria, coroa
de minha velhice, e voltei  solido mais abatido que nunca!
Salvador interrompeu a narrao; levou a mo direita aos olhos; por entre
seus dedos escorreram algumas lgrimas, que ele, de envergonhado, enxugou
rapidamente.
 Essas recordaes so penosas, disse o padre; no convm despert-las
de uma vez; seria abrir feridas que o tempo cicatrizou. Sabemos o essencial...
 No, resta ainda alguma coisa, disse Salvador.
Estcio erguera-se visivelmente comovido, procurava lutar contra o
sentimento que o dominava, a fim de conservar a necessria independncia de
esprito para julgar da narrativa e do alcance que ela podia ter. Tinha
involuntariamente apertado a mo de Salvador, ao escutar-lhe as ltimas
palavras; e arrependera-se desse primeiro movimento, que podia parecer uma
absolvio sumria. A verdade  que ele no refletia nem sentia claramente: a
mente e o corao eram um campo de idias e comoes contrrias.
 Vou acabar, disse Salvador, depois de alguns minutos. Resta explicar o
procedimento de Helena.
Captulo XXVI
 Seu pai, continuou Salvador dirigindo-se a Estcio, que, para acabar de
compor o rosto, tinha ido at  janela e voltara a sentar-se,  seu pai era
honrado e cavalheiro. Arrebatando-me ngela, no me traiu, porque no me
vira nunca; no contribuiu diretamente para a traio dela, porque supunha
cortadas nossas relaes. Soube depois que ngela, quando eles se
apaixonaram um pelo outro, lhe ocultara completamente o motivo da minha
viagem; dera-se como separada de mim. Mentiu, como mentiu mais tarde,
dizendo que eu havia morrido. O conselheiro no sabia sequer o meu nome. A
mentira no primeiro caso no teve fim nenhum; no houve clculo; foi uma
sugesto de amor ou um esquecimento; foi, talvez, um modo de respeitar-me;
no segundo caso, houve clculo: era o de redobrar o afeto que o conselheiro
tinha a Helena. Assim aconteceu, porque o conselheiro sentiu-se pai de
Helena, e assumiu esse carter desde aquela tarde. Do contrato, feito ali entre
o homem e a criana, cumpriu ele todas as clusulas com generosa
pontualidade. Pode crer que lhe fiquei profundamente grato. Uma vez,
passando por uma litografia, vi um retrato dele; comprei-o e conservo-o ali ao
lado do de Helena.
Melchior e Estcio olharam para a parede, onde pendiam dois quadrinhos,
ainda cobertos, conforme Estcio os vira, no primeiro dia que ali foi.
 Os meses e os anos passaram, continuou Salvador. Helena deu entrada
em um colgio de Botafogo, onde recebeu apurada educao. O conselheiro a
111
levou ali, dando-a como rf de um amigo de Minas; ngela, que se dera por
sua tia, ia busc-la aos sbados. Omito mil circunstncias intermedirias, e s
vezes, poucas, em que puder ver minha filha, de passagem e a ocultas. Se o
tempo houvesse produzido em mim os seus naturais efeitos, e se a natureza
no se ajustasse em fazer contraste com a fortuna, conservando-me o vigor e
o vio da mocidade,  possvel que eu achasse meio de empregar-me no
colgio ou nas imediaes, a fim de ver mais freqentemente Helena. Mas eu
era o mesmo; passado o primeiro abalo, voltaram-me as carnes, voltou-me a
cor, e eu era o mesmo que antes de partir para o Rio Grande. Helena podia
reconhecer-me; e eu faltava  conveno tcita que fizera com o conselheiro.
Um sbado, porm, tinha Helena doze anos, vindo ambas do colgio, parou o
carro defronte do Passeio Pblico. Vi-as descer e entrar. Levado por um
impulso irresistvel, entrei tambm. Queria contempl-las de longe, sem lhes
falar; mas a resoluo estava acima das minhas foras. Que pai no faria
outro tanto? No lugar mais solitrio do Passeio, corri para Helena. Vendo-me,
a menina pareceu no reconhecer-me logo; mas atentou um pouco, recuou
espavorida e agarrou-se  me, abraando-a pela cintura. Conheci que no
estava ali um pai, mas um espectro que regressava do outro mundo. Ia
afastar-me, quando ouvi a voz de Helena perguntar  me: Papai? Volteime.
ngela envolvera o rosto da criana entre os vestidos. O gesto equivalia a
uma confisso; mas esta foi ainda mais clara quando a me, cedendo  boa
parte da sua natureza, ergueu resoluta os ombros, descobriu o rosto da filha,
pousou-lhe um beijo na testa, fitou-a e fez com a cabea um gesto afirmativo.
A menina no exigiu mais: correu para mim e atirou-se-me nos braos. ngela
no se atreveu a impedir o movimento da filha; o passado e o sacrifcio
falavam em meu favor. Abracei Helena e beijei-a como doido. ngela
interveio: Basta! disse ela. Pegou na mo da filha e estendeu-me a sua.
Apertei-a maquinalmente; meus olhos estavam pregados na criana. Era to
gentil, com o vestido rico que trazia, os cabelos enlaados com fitas azuis, um
chapelinho de palha e os pezinhos calados com botinas de seda! Fez bem,
disse eu a ngela, depois de alguns instantes; deu-lhe um pai melhor do que
eu. Reparei ento que ela prpria, se transformara; trajava com elegncia e
estava superiormente bela. A abastana aperfeioara a natureza. Olhei-a sem
inveja nem clera,  mas com saudade,  dessa vez deliciosa, porque
rememorei os bons tempos da nossa ebriedade e loucura. O passado  um
peclio para os que j no esperam nada do presente ou do futuro; h ali
sensaes vivas que preenchem as lacunas de todo o tempo. Fez mal, disseme
ela baixinho. E suspirou. Sei que morri, disse eu, e no pretendo
ressuscitar. Depois voltei-me para Helena:  Minha filha, faze de conta que
me no viste; morri para ti e para o mundo. Teu pai  outro. Prometes que
no dirs nada? Helena fez um leve sinal de cabea e beijou-me a mo a
furto, como se no quisesse ser vista de ngela. Nesse simples gesto
reconheci que ela ia obedecer-me; mas a tristeza que lhe ficou, foi o castigo
de sua me. Pedamos  natureza mais do que ela podia dar.
112
Salvador fez uma pausa, ergueu-se, foi  cmoda, e de uma das gavetas
tirou uma caixinha, que colocou sobre a mesa. Melchior e Estcio trocaram um
olhar de curiosidade. Salvador sentara-se de novo.
 ngela morreu, prosseguiu ele, da a um ano. Seu pai e alguns amigos,
poucos, foram lev-la  sepultura. Tambm eu l me achei. A diferena  que
ele enterrava uma aventura, e eu via enterrar o meu passado. Vi-o triste e
taciturno, como sinceramente pesaroso da criatura que perdera. Helena,
entretanto, no podendo estar s na mesma casa, foi removida para o colgio,
onde ficou residindo definitivamente. O conselheiro ia visit-la todas as
semanas. Pela minha parte, certo da discrio de minha filha, encetei com ela
uma correspondncia que era toda a consolao que me podia caber. Uma
escrava do colgio servia de intermediria entre ns. Ento como hoje, achei
uma alma compassiva que me ajudou a ser feliz com mistrio; a diferena 
que naquele tempo era precisa a interveno pecuniria. Eu tinha pouco, mas
dava o jantar de um dia para ler cartas de Helena. Conservo-as todas, tanto
as de outrora como as destes ltimos meses; esto fechadas aqui.
Salvador mostrou a caixinha que colocara sobre a mesa.
 Um dia, almoando em um botequim, li a notcia da morte do
conselheiro. O fato consternou-me; mas eu peo licena para lhes dizer tudo:
de envolta com o sentimento de pesar, houve em mim alguma coisa
semelhante a uma satisfao. Respirava enfim! O contrato expirava com ele;
eu ia entrar na posse de minha filha. No escrevi desde logo a Helena; fi-lo ao
cabo de alguns dias. Tive duas respostas: a primeira era no sentido da minha
carta; a segunda anunciava-me que o conselheiro a reconhecera por
testamento. Podia procurar e ler-lhes a segunda carta:  um documento da
elevao dos sentimentos daquela menina. Exprimia-se com a maior gratido
e saudade a respeito do conselheiro; mas negava-se a aceitar o favor
pstumo. Sabendo a verdade, no queria escond-la ao mundo. Aceitando o
reconhecimento, entendia que prejudicava direitos de terceiro, alm de
repudiar-me solenemente, o que no queria fazer desde que adquiria a
liberdade de ao. Entre a herana e o dever, dizia ela, escolho o que 
honesto, justo e natural. Esta carta tirou-me o sono uma noite inteira,
perplexo como fiquei entre o ato do finado e a resoluo da herdeira. Que mo
invisvel tocara no corao do conselheiro essa corda de sensibilidade? Melhor
fora que ele houvesse traduzido em uma simples lembrana a afeio que
tinha a Helena. Longo tempo refleti nisso; o pai lutava com o pai. T-la comigo
era a minha ventura, o meu sonho, a minha ambio; era a realidade que eu
chegara a tocar com as mos. Mas, podia at-la ao carro decrpito da minha
fortuna, dar-lhe o po amargo de todos os dias? A famlia do conselheiro ia
afianar-lhe futuro, respeito, prestgio; a lei ia ampar-la. Perguntei a mim
mesmo se, depois de haver morrido para o mundo, me era lcito ressuscitar
para reclamar e reaver um ttulo de que me havia despojado; finalmente, se
possua j o direito de fazer um escndalo. Estas reflexes, se viessem ss,
teriam triunfado desde logo; mas em oposio a elas, vieram as sugestes do
113
corao. Adverti que, cedendo  vontade do morto, cavaria um abismo entre
mim e Helena, e que no mais, ou s raramente e a ocultas, podia desfrutar a
felicidade de lhe dizer que a amava, de ouvir a mesma palavra de seu corao.
Nessa luta gastei trs longos dias. Helena escreveu-me outra carta, insistindo
na resoluo que dizia haver tomado. Urgindo responder-lhe, fi-lo
sacrificando-me. No a convenci. Procurei ter uma entrevista com ela. No era
fcil; mas o interesse venceu tudo; a escrava intermediria aumentou o preo
da complacncia. O que se passou entre ns no o poderei repetir agora; curto
era o prazo concedido, mas a luta foi renhida e longa. Busquei persuadi-la com
reflexes e splicas; ela resistiu com indignao e lgrimas. A nobre alma
repudiava a cumplicidade e o lucro de uma usurpao. Eu no via usurpao,
porque a meus olhos nem os interesses da famlia do conselheiro, nem as
noes da simples moral prevaleciam; eu via minha filha e seu futuro: nada
mais. Talvez os culpados desse meu proceder fossem somente ngela e seu
benfeitor. Eles me acostumaram a am-la de longe, a no disputar a outrem o
benefcio que ela recebia. Enfim, meu corao egosta e ulcerado, entendia
que o reconhecimento daquela pobre criana era o simples retorno das carcias
de que eu havia sido defraudado; tais foram os motivos da minha conscincia.
Helena resistiu at  ltima; cedeu somente  necessidade da obedincia, 
imagem de sua me que eu envoquei, como um supremo esforo,  fiana que
lhe dei de que a acompanharia sempre, de que iria viver perto dela, onde quer
que o destino a levasse; cedeu exausta, sem convico nem fervor. Se nesse
ato decisivo de Helena h culpa,  toda minha, porque, eu fui o autor nico;
ela no passou de simples instrumento, instrumento rebelde e passivo. Seu
erro foi no ter a prudncia necessria para no transpor o abismo que nos
separava. Eu devia contar com as resolues sbitas e prontas dessa menina;
h ali uma costela de sua me. Mandando-lhe dizer, com as indicaes
precisas, onde morava, estava longe de esperar que ela viesse ver-me. A
princpio fiquei aterrado com as possveis conseqncias; mas se o homem se
habitua ao mal e  dor, por que se no h de acostumar ao prazer e ao bem?
Helena veio mais vezes; o gosto de a ver fez olvidar o perigo, e eu bebi, em
horas escassas e furtivas, a nica felicidade que me restava na terra, a de ser
pai e a de me sentir amado por minha filha.
Captulo XXVII
Tinha acabado; grossas lgrimas, retidas a custo, enfim lhe rebentaram
dos olhos e rolaram pelo rosto abaixo do narrador. A comoo no ficou s
nele; os dois ouvintes a sentiram tambm. Acabara; e o pior que podia
acontecer, era isso mesmo. Uma vez finda a narrao, ficaram os dois calados
e perplexos, sem que ousassem contradiz-lo. Depois de curta pausa,
Salvador rematou assim:
114
 De tudo o que lhes disse no tenho outras provas alm destas cartas,
que seriam bastantes, e de minhas lgrimas, que ho de ser eternas. Mas,
ainda quando haja outras, creio que no sero precisas. Na situao em que
estamos, s h duas solues possveis; ou nada se altera do que o
conselheiro estatuiu, e somente eu carregarei as conseqncias da sorte,
desaparecendo; ou a famlia rejeita Helena, e eu a levarei comigo. Dir-se-
que a lei protege a todo transe? Pois ela assinar todas as desistncias
necessrias...
Estcio cortou-lhe a palavra, dizendo que oportunamente lhe dariam
resposta. Saram logo depois; no trocaram uma s palavra; cada um deles ia
absorto. Contudo, o padre observava de quando em quando o sobrinho de D.
rsula, buscando adivinhar-lhe os pensamentos.
Chegando  porta da chcara, o padre perguntou ao moo:
 Que pretende fazer?
 No sei ainda.
 Sei eu o que deve fazer: nada.
 Conservar esta situao?
 Decerto. Helena obedeceu  vontade de seus dois pais, aceitando o
equvoco em que ambos a vieram colocar. Obedeceu  fora. Agora, est
reconhecida;  um fato que no podemos discutir nem alterar.
Estcio esteve silencioso alguns instantes.
 Mas, posso eu,  vista do que acabamos de ouvir, conservar a Helena
um ttulo que rigorosamente lhe no pertence? Helena no  minha irm; 
absolutamente estranha  nossa famlia; o ttulo que nos ligava, desaparece.
Por que motivo continuaramos ns uma falsificao...
 De seu pai? atalhou Melchior.
 Padre-mestre!
 Aquele homem falou verdade; mas nem a lei nem a Igreja se contentam
com essa simples verdade. Em oposio a ela, h a declarao derradeira de
um morto. A justia civil exige mais do que palavras e lgrimas; a eclesistica
no extingue com um trao de pena, a afirmao pstuma. Demais, no
espere que esse homem reproduza perante ningum as declaraes de h
pouco; s o far quando perder a ltima esperana.  evidente que ele nada
quer alterar do que seu pai estabeleceu, e antes se sacrificar do que
envergonhar a filha. Sente-se disposto a fazer o que ele recusa?
Estcio no respondeu; tinham entrado na chcara, e caminhavam
lentamente na direo da casa. Melchior deteve-o.
 Estcio! disse o padre, depois de olhar para ele um instante.
Compreendo, quisera despojar Helena do ttulo que seu pai lhe deixou, para
lhe dar outro, e lig-la  sua famlia por diferente vnculo...
Estcio fez um gesto como protestando.
 Esquece duas coisas graves: o escndalo e o casamento de um e outro;
j se no pertence, nem ela se pertence a si. Vamos l; seja homem.
115
Sepultemos quanto se passou no mais profundo silncio, e a situao de
ontem ser a mesma de amanh.
Quando Estcio e Melchior entraram em casa, j D. rsula sabia de tudo;
lograra desatar a lngua de Helena. Abatida com a leitura da carta, no lhe
levantara o nimo a narrao verbal da moa; preferia talvez que Helena fosse
verdadeiramente filha do conselheiro. Alguns meses de espao e a convivncia
afetuosa produziram a diferena de sentimento entre o primeiro e o ltimo dia.
 Nada podemos fazer j agora, disse o padre; provocaramos um
escndalo sem esperana do resultado.
D. rsula fez um gesto de assentimento. Chamada a ouvi-los, Helena
desceu da a alguns minutos. A cor da vergonha tingiu-lhe a face, logo que ela
deu com Estcio, que a esperava, ao lado de Melchior, ambos calados, mas
sem nenhum vislumbre de irritao. Aps um silncio longo e abafado, Estcio
comunicou a Helena a resoluo da famlia e seus sentimentos de
generosidade e confiana; concluiu dizendo que, sobre todas as coisas,
prevalecia a vontade derradeira de seu pai. Helena empalideceu e cerrou os
olhos; D. rsula correu a ampar-la. O organismo debilitado pelas viglias e
comoes das ltimas horas no pudera resistir; mas o delquio foi leve e
curto. Voltando a si, Helena beijou ardentemente as mos de D. rsula e as do
padre, estendeu a sua a Estcio, que a apertou; depois, com voz trmula,
disse:
 Meu corao ficar eternamente grato ao resto de estima que no perdi;
a situao mudou, e fora  mudar com ela. No quero a proteo da lei, nem
poderia receber a complacncia de coraes amigos. Cometi um erro, e devo
expi-lo. Enquanto a vergonha vivia s comigo, era possvel continuar nesta
casa; eu atordoava-me para esquec-la; mas agora que  patente, v-la-ei
nos olhos de todos e no sorriso de cada um. Peo-lhes que me perdoem e me
deixem ir! No devera ter entrado,  certo. Expio a fraqueza de um corao
que eu me habituara a amar de longe, com o prestgio do mistrio e o encanto
do fruto proibido. De hoje em diante, am-los-ei de longe ou de perto, mas
estranha... e perdoada!
Dizendo isto, Helena abraou D. rsula, como a pedir o benefcio da sua
interveno. D. rsula abraou-a igualmente, mas fez com a cabea um gesto
negativo. Melchior observou que a repulsa era pelo menos um sintoma de
desprendimento pouco explicvel em relao  famlia que, sem embargo dos
ltimos sucessos no lhe retirara a estima nem a proteo.
 Herdou o orgulho do pai! murmurou Estcio.
A frase foi dita em voz baixa, mas Helena ouviu-a, e seus olhos fulgiram de
momentnea satisfao. Atribuir a orgulho o que era vergonha e remorso,
dava-lhe certa superioridade que a moa julgava no ter naquele lance.
Protestou em favor de seus sentimentos de gratido, com a palavra viva,
animada, cordial que todos trs lhe conheciam, interrompida a intervalos pela
comoo interior, e pelas lgrimas que lhe escorriam dos olhos, quase
exaustos de chorar. Estcio ps termo a todas as hesitaes.
116
 Pois bem, disse ele, ser isso mais tarde; a lei  por ns; e nossa
vontade  que nos obedea.
Helena mordeu o lbio com desesperao, mas no respondeu. A cabea
descaiu-lhe lentamente como ao peso de uma idia, a mais e mais opressora.
Depois, ergueu-a; os olhos tristes, mas animados dos ltimos raios de uma
esperana, dirigiram-se para os de Estcio, que nessa ocasio pareciam falar
as dores todas da paixo sufocada e rebelde. Ambos eles os baixaram  terra,
medrosos de si mesmos.
 No creio que ela aceite facilmente a sua deciso, disse Melchior a
Estcio, logo que pde achar-se s com ele. Acautele-se;  capaz de fugir-nos.
 Cr?
 No a conhece ainda? A posio em que estes acontecimentos a
deixaram, repugna-lhe mais que tudo. Prefere a misria  vergonha, e a idia
de que interiormente no a absolvemos,  o verme que lhe fica no corao.
De noite, recebeu Estcio uma carta de Salvador, acompanhada de um
pacote.
Refleti muito durante estas duas horas, dizia ele, e cheguei a uma
concluso nica. Elimino-me.  o meio de conservar a Helena a considerao e
o futuro que lhe no posso dar. Quando esta carta lhe chegar s mos, terei
desaparecido para sempre. No me procure, que  intil. Irei abeno-lo de
longe. Recaia, entretanto, sobre mim todo o ressentimento; eu s o mereo,
porque s eu o provoquei. Vo as cartas de Helena; guardo trs apenas, como
recordao da felicidade que perdi.
Estcio teve vontade de ler as cartas de Helena, mas a tempo recuou;
mandou-as dar  moa. Helena, que estava com D. rsula, entregou-as a
esta.
 So a minha histria, disse ela; peo-lhe que as leia e me julgue.
Havia em seus olhos uma expresso que no era usual. Recolheu-se
imediatamente a seu quarto, onde jazeu longo tempo, calada, quieta, sinistra,
o corpo atirado em um sof, a alma sabe Deus em que regies de infinito
desespero.
Captulo XXVIII
Naquela noite, a segunda de to extraordinrios sucessos, foi que Estcio
sentiu toda a violncia do amor que lhe inspirara Helena. Enquanto os detinha
um vnculo sagrado, amara sem conscincia; e ainda depois de esclarecido
pelo padre, o esforo empregado em vencer-se e a prpria natureza da
catstrofe no lhe permitiram ver a extenso do mal. Agora, sim; roto o
vnculo, restituda a verdade, ele conhecia que a voz da natureza, mais sincera
e forte que as combinaes sociais, os chamava um para o outro, e que a
mulher destinada a am-lo e ser amada era justamente a nica que as leis
sociais lhe vedavam possuir.
117
Durante as primeiras horas o corao mordeu rebelde o freio da
necessidade. A viglia foi longa e crua, e a reflexo veio enfim dominar a
tempestade interior, ou antes seus destroos. Ele viu que o padre tinha razo;
que era fora desfolhar a esperana de um dia. Ao mesmo tempo, o exemplo
de Helena deu-lhe nimo. Senhora do segredo de seu nascimento, e
consciente de amar sem crime, a moa apressara, no obstante, o casamento
de Estcio e escolhera para si um noivo estimado apenas. Se uma vez a
palavra delatora lhe rompeu dos lbios, ela a retraiu logo, fazendo o mais
obscuro dos sacrifcios.
No quis Estcio ser menos generoso. Logo de manh escreveu a
Mendona, pedindo-lhe que no deixasse de os ir visitar nesse dia. No o fez
sem custo, mas f-lo sem arrependimento. Tinha por fim apressar o
casamento de Helena e o seu, condenando-se a sofrer calado os golpes do
avesso destino.
A manh entretanto no trouxe a Helena o esquecimento e a paz. A noite
no lhe serviu de remdio, antes legou  aurora toda a sua mortal angstia.
Debilitada, nervosa, impaciente, no podia a moa vencer-se nem suportar-se.
Ora, repelia com sequido as palavras de D. rsula; ora, pedia intercedesse
com Estcio para a resoluo que ela admitia como nico meio de a poupar 
vergonha. A excitao moral era grande; cumpria aquiet-la por meios
persuasivos. Helena fugia a todos; no encarava Estcio e D. rsula, sem que
o pejo lhe colorisse a face, mudana tanto mais visvel quanto que a viglia e a
dor a tinham empalidecido muito. Diziam-lhe que a vontade do conselheiro
estatura uma lei na famlia, segundo a qual ela continuava a ser parenta como
dantes, e to amada como era. A moa agradecia a generosidade, mas no
podia fugir  idia de haver contribudo para a usurpao. Queria que a
deixassem ir ter com o pai, ao p de quem a natureza e a conscincia lhe
indicavam que poderia estar sem remorso. Estcio e D. rsula respondiam-lhe
com afagos e protestos; mas quando viram que estes eram inteis, no houve
mais que revelar-lhe a carta de Salvador.
O padre Melchior incumbiu-se de lhe fazer essa delicada comunicao.
 Seu pai, disse ele, praticou em seu favor um ato herico; fugiu para lhe
no fazer perder a considerao e o futuro. Leia esta carta, e veja se ela lhe
d a fora necessria para resistir.
Helena pegou na carta com sofreguido, leu-a de um lance dolhos. O
gemido que lhe rompeu o corao mostrou bem a ferida que acabava de
receber. O padre acolheu-a lacrimosa e esvaecida em seus braos; disse-lhe
palavras de conforto e de esperana. Nos primeiros minutos, Helena nada
pde ouvir; o golpe ensurdecera a alma. Melchior f-la sentar-se ao p de si;
ela obedeceu sem conscincia. Aps alguns minutos de silncio e
concentrao, a moa dirigiu a palavra ao padre e agradeceu-lhe a caridade.
Depois referiu-lhe os acontecimentos de sua infncia, os mesmos que o
capelo ouvira. A sagacidade natural do esprito cedo lhe fizera ver que a
posio de sua me no era a mesma das outras mes: essa descoberta,
118
porm, no teve outra virtude mais que comunicar ao amor da filha uma
intensidade e energia capazes de afrontar os mais fortes obstculos, como se
ela quisesse reunir em si toda a soma de afetos e respeitos que a sociedade
afiana s situaes regulares. Melchior ouviu-a comovido; nutrido da medula
do evangelho, reconheceu um efeito da graa divina nesse amor imaculado,
que valia por todas as absolvies da terra. Ele a aplaudiu e confortou; faloulhe
do futuro, do carinho de sua famlia,  sua, a despeito de tudo; enfim da
obrigao em que ela estava de corresponder a tanta confiana.
Talvez Helena, em sua razo, correspondesse aos conselhos de Melchior;
mas a razo  o que menos a dirigia naquelas circunstncias aflitivas. Ela
deixou o padre para recolher-se aos aposentos. Quando D. rsula ali foi, meia
hora depois, achou-a profundamente abatida; a violncia da crise passara. A
linguagem que lhe falou foi maternal, ungida de amor e perdo; Helena ouviua
agradecida, mas um sorriso descorado e sem convico lhe entreabria os
lbios. Supunha ler comiserao onde havia afeto e respeito, e o orgulho
rebelava-se de inspirar o nico sentimento que a conscincia lhe dizia
merecer.
As instncias de D. rsula para que Helena se alimentasse foram inteis;
ela apenas recebia o que bastava para no sucumbir  fome. A companhia
repugnava-lhe; assim, poucas vezes a viram desde os dias que se seguiram
quela funesta manh. Mendona no conseguiu mais do que os outros. A
famlia teve o cuidado de anunciar que Helena se achava enferma. A aflio do
noivo foi grande; mas todos buscaram tranqiliz-lo. Nada havendo
transpirado do acontecimento, fcil foi sustentar aquela explicao.
Melchior encomendara muito  famlia que vigiasse a moa, cujo esprito
lhe parecia atrevido e tenaz; ele receava que Helena ou fugisse de casa, ou
recorresse a algum ato de desespero. O mesmo padre desvelou-se em trazer a
alma de Helena ao sentimento de resignao. A autoridade do carter
religioso, a influncia que ele tinha no esprito de Helena, eram armas
poderosas, temperadas com amor verdadeiro e paternal que o ligava 
donzela. Nada poupou; mas tais esforos no tiveram mais fruto que os da
famlia. Helena mal podia tolerar a situao.
Uma vez, como ela descesse  chcara, saiu Estcio a procur-la, no a
encontrando seno ao cabo de alguns minutos. Achou-a ao p do tanque, no
lugar em que lhe falara poucos dias antes, sentada no mesmo banco de pau.
Vendo-o, estremeceu; ele aproximou-se, contente de a haver encontrado
enfim. O dia estava feio; grossas nuvens negras pejavam o ar, tmidas de
temporal prximo. Estcio convidou-a a recolher-se.
 Deixe-me estar aqui um instante mais, respondeu ela.
 Dois minutos apenas.
Sentou-se ao p dela e ficaram calados. Helena tinha uma taquara na mo;
Estcio quis tomar-lha; ela arremessou-a para longe. Ergueu-se ento o moo
e foi busc-la; s ento viu que estava molhada at certa altura; calculou que
seria o fundo do tanque. O tanque era raso; no poderia dar a morte; mas, a
119
suspeita de que Helena no recuaria diante do suicdio, aterrou naturalmente o
esprito de Estcio. Parecendo-lhe que a causa no comportava o efeito,
perguntou a si mesmo se os sucessos daqueles dias no teriam velado a razo
da moa. Sentou-se de novo e falou-lhe com brandura.
Ao escut-lo, sentiu Helena como uma ressurreio de outras horas, que
julgava escoadas para sempre; um sorriso lhe animou os lbios sem cor, ao
passo que os olhos doridos e murchos pareciam reviver de um resto de luz.
Estcio falou-lhe de si, da tia, do padre e de Mendona, dos prximos
casamentos, da felicidade futura. Depois insistiu com ela para que entrasse.
Uma brisa mais forte comeava a agitar as rvores, e a tempestade ameaava
cair de repente.
 Ainda no, disse a moa; alguns minutos mais.
 Mas pode adoecer...
 Talvez, se todos quiserem a minha sade. H criaturas to malfadadas
que aqueles mesmos que as desejam fazer venturosas no alcanam mais do
que preparar-lhes o infortnio. Tal foi meu destino. Seu pai e minha me no
tiveram outro pensamento; meu prprio pai foi levado do mesmo impulso,
quando me obrigou a ser cmplice de uma generosa mentira. Agora mesmo
que ele me foge, com o fim nico de me no tolher a felicidade, arranca-me o
ltimo recurso em que eu tinha posto a esperana...
 Helena! interrompeu Estcio.
 O ltimo, repetiu a moa.
Esvara-se-lhe o sorriso, e o olhar tornara a ser opaco. Estcio teve medo
daquela atonia e concentrao; travou-lhe do brao; a moa estremeceu toda
e olhou para ele.
A princpio foi esse olhar um simples encontro; mas, dentro de alguns
instantes, era alguma coisa mais. Era a primeira revelao, tcita mas
consciente, do sentimento que os ligava. Nenhum deles procurara esse
contato de suas almas, mas nenhum fugiu. O que eles disseram um ao outro,
com simples olhos, no se escreve no papel, no se pode repetir ao ouvido;
confisso misteriosa e secreta, feita de um a outro corao, que s ao cu
cabia ouvir, porque no eram vozes da terra, nem para a terra as diziam eles.
As mos, de impulso prprio, uniram-se como os olhares; nenhuma vergonha,
nenhum receio, nenhuma considerao deteve essa fuso de duas criaturas
nascidas para formar uma existncia nica.
O vento tornara-se mais rijo; uma lufada os despertou, em m hora,
porque h sonhos que deviam acabar na realidade do outro sculo. Estcio
ergueu-se; sacudiu valorosamente o torpor da felicidade, e reassumiu o papel
que o pai lhe assinara ao p de Helena. Esta desviou os olhos e cravou-os na
gua, fascinada e absorta. A idia do suicdio roaria deveras sua asa invisvel
pela fronte da moa? Estcio foi a ela, pegou-lhe nas mos e convidou-a a sair
dali.
 Entremos, disse ele pela terceira vez, olhe que vai chover.
120
Helena deixou-se levantar; um calafrio percorreu-lhe o corpo todo, e as
mos, que o moo ainda tinha entre as suas, estavam muito mais quentes que
o natural.
 Ande repousar, continuou Estcio; pode adoecer, e no tem direito para
tanto; nossa afeio no o consentir nunca. Vamos...
 Amar-me-o sempre? perguntou Helena.
 Oh! sempre!
 Impossvel! H uma voz no fundo de seu corao, que lhe dir, de
quando em quando, esta triste palavra: aventureira!
 Helena!
 No posso ser outra coisa a seus olhos, prosseguiu a moa, tristemente.
Quem o convencer de que a declarao de seu pai no foi obtida por artifcio
de minha me? Quem lhe dar a prova de que, cedendo aos rogos de meu pai,
no fiz mais do que executar um plano preparado j? So dvidas que lhe ho
de envenenar o sentimento e tornar-me suspeita a seus olhos. Resista quem
puder; -me impossvel encarar semelhante futuro!
Helena cara ofegante no banco. Estcio falou-lhe com abundncia e
ternura; jurou-lhe que sua famlia era incapaz da mnima suspeita; pediu-lhe
por seu pai que no julgasse mal deles. Ela sorriu, mas foi um sorrir de
incrdula.
Grossos pingos de chuva comeavam a rufar nas rvores. Estcio pegou na
mo de Helena para conduzi-la a casa. A moa fugiu-lhe, indo colocar-se
alguns passos adiante, onde a chuva lhe caa mais em cheio na cabea nua e
no corpo levemente coberto. Quando Estcio, desvairado de terror, correu
para ela, Helena afastou-se dele; mas nem seus ps o poderiam vencer nunca,
nem lho permitiam agora as foras quebradas por tantas e to profundas
comoes. Ele alcanou-a; estendeu o brao em volta da cintura da moa,
dizendo:
 Que capricho  esse? Vamos embora; eu quero que venha comigo para
dentro.
Ao sentir o brao de Estcio, Helena estremeceu e fez um movimento para
arred-lo de si; mas a fraqueza traiu-lhe o pudor. Ela fitou no moo uns olhos
de cora moribunda; as pernas fraquearam, e o corpo esmorecido iria a terra,
se lho no sustivessem as mos de Estcio.
 Deixe-me morrer! murmurou ela.
 No! bradou o mancebo.
Com um gesto rpido, tomou nos braos, estendido, o corpo exausto de
Helena, e caminhou na direo da casa. O vento flagelava-os; a chuva, que
subitamente caa a jorros, alagava-os sem misericrdia; ele ia andando, o
mais depressa que lhe permitia o peso de Helena, cuja cabea pendia para a
terra, e de cujos lbios brotavam trechos soltos de frases sem sentido.
D. rsula viu entrar aquele doloroso espetculo; correu a receber Helena,
que Estcio depositou em um sof, donde foi transferida ao leito. A febre, j
comeada antes dela sair, tomara conta enfim da pobre moa. Um mdico foi
121
chamado  pressa; o padre Melchior correu por baixo dgua at  casa de
Estcio. As primeiras horas foram de ansiedade e susto; o estado da doente
era grave; assim o disse o mdico; assim o tinham sentido os coraes
amigos.
D. rsula pagou naquela ocasio os servios que, em caso anlogo, lhe
prestara Helena, mau grado o peso dos anos, que lhe no permitiam longas
viglias nem aturado trabalho. Velou a boa senhora  cabeceira da enferma
durante essa primeira noite de incerteza e terror. Mendona, que ali fora sem
suspeitar nada, porque a doena que lhe disseram ter padecido Helena,
supunha ele ser passageira, e em todo caso, estar quase extinta, Mendona
recebeu essa triste notcia com a morte no corao.
Durante sete dias o estado de Helena apresentou alternativas que
lanavam na alma dos seus a confiana e a desesperao. Algumas horas
houve de delrio, durante o qual dois nomes volviam freqentemente aos
lbios da enferma,  o de Estcio e o do pai. Nas horas da razo, falava
pouco, no proferia nenhum nome, salvo o de Melchior que ela queria ver
junto de si. O capelo obedecia docilmente. Ao p dela, via-a com pena, mas
sem desesperao; primeiramente, porque ele aceitava sem murmrio os
decretos da vontade divina; depois, porque no sabia ao certo se, em tal
situao, era a vida melhor do que a morte. Em todo caso, consolava-a.
No quarto dia chegou a famlia de Camargo, e, sabendo da doena de
Helena, apressou-se a ir a Andara. Ao ver Eugnia, a moa sorriu tristemente,
lampejo de inveja que para logo se apagou e morreu no corao.
Estcio mal ousava entrar na alcova da doente e no podia viver fora dela.
Sua aflio era patente. Ele prometia a si mesmo todos os sacrifcios em troca
da vida de Helena, espreitava uma esperana no rosto do mdico, e
interrogava o corao da tia e do padre. Na noite do stimo dia da cena do
jardim, D. rsula, que ficara ao p de Helena, mandou chamar  pressa o
sobrinho e o padre Melchior, que estavam na sala contgua. Acorreram os dois.
Helena tivera uma sncope, que D. rsula cuidara ser a morte. Voltando a si,
leu a moa a sua sentena no rosto de todos trs.
 Ainda no, murmurou ela; ainda no  a morte.
D. rsula chegou-se-lhe mais perto, beijou-a, disse-lhe algumas palavras
de conforto.
 Deixe estar, respondeu ela, deixe que eu no morro; estou s muito
doente.
Estcio buscou anim-la, mas a voz morreu-lhe s primeiras expresses, e
ele saiu. Melchior acompanhou-o.
 Uma coisa poderia talvez salv-la, disse aflito o moo; era a presena do
pai. Vou mand-lo procurar por toda a parte. Havemos de ach-lo;  preciso
que o achemos.
Melchior aprovou a idia do mancebo; e no lhe disse que o remdio viria
talvez tarde, se viesse. Estcio ordenou as coisas para a seguinte manh.
Voltaram  alcova da enferma. Esta fechara os olhos, como se dormisse.
122
Houve ento entre aquelas quatro paredes meia hora de silncio, interrompido
apenas, de quando em quando, pelos movimentos que a doente fazia, como a
querer mudar de posio. No fim deste tempo, abriu os olhos e murmurou
algumas palavras. Chegou o mdico, viu-a e desenganou a famlia.
Enquanto Melchior dava as ordens precisas para que Helena tivesse os
socorros espirituais, Estcio saiu dali, para ir, longe, desabafar o desespero;
desceu  chcara, vagou por ela delirante, a soluar como uma criana, ora
abraado a uma rvore, ora ajoelhado e pedindo a Deus a vida de Helena. O
corao do moo no conhecia o fervor religioso; mas a imagem da morte
deu-lhe o que a vida lhe levara, e ele rezou, rezou sozinho, sem hipocrisia
nem dvida. Mendona veio ach-lo nessa luta derradeira entre a realidade e a
esperana. No o consolou; no tinha consolaes que distribuir, porque
tambm a dor lhe devastara o corao. Nos braos um do outro, choraram o
mesmo bem que se lhes ia embora.
Um escravo veio chamar Estcio  pressa; ele subiu trpego as escadas,
atravessou as salas, entrou desvairado no quarto, e foi cair de joelhos, quase
de bruos, junto ao leito de Helena. Os olhos desta, j volvidos para a
eternidade, deitaram um derradeiro olhar para a terra, e foi Estcio que o
recebeu,  olhar de amor, de saudade e de promessa. A mo plida e
transparente da moribunda procurou a cabea do mancebo; ele inclinou-a
sobre a beira do leito, escondendo as lgrimas e no se atrevendo a encarar o
final instante. Adeus!  suspirou a alma de Helena, rompendo o invlucro
gentil. Era defunta.
A noite foi cruel para todos. D. rsula, profundamente abatida pela dor e
pelas viglias, no consentiu, ainda assim, que outras mos amortalhassem
Helena; ela mesma lhe prestou esse derradeiro e triste obsquio. A morte no
diminura a beleza da donzela; pelo contrrio, o reflexo da eternidade parecia
dar-lhe um encanto misterioso e novo. Estcio contemplou-a com os olhos
exaustos, o padre com os seus midos. Melchior suportara a dor at ao
momento da definitiva separao; agora, que a moa se ia de vez, deixou-se
abater enfim, ao p daqueles plidos restos, despojo ltimo de generosas
iluses.
No dia seguinte, prestes a sair o enterro, as senhoras deram  donzela
morta as despedidas derradeiras. D. rsula foi a primeira que lhe prestou esse
dever, seguiu-se Eugnia e seguiram as outras. Estcio viu-as subir, uma a
uma, o estrado em que repousava a essa. Depois, quando ia fechar-se o
fretro, caminhou lentamente para ele; trepou ao estrado, e pela ltima vez
contemplou aquele rosto,  sede h pouco de tanta vida,  e a coroa de
saudades que lhe cingia a cabea, em vez de outra, que ele tinha direito de
pousar nela. Enfim, inclinou-se tambm, e a fronte do cadver recebeu o
primeiro beijo de amor.
Fecharam o fretro; ao moo pareceu que o encerravam a ele prprio.
Saindo o enterro, deixou-se Estcio cair numa cadeira, sem pensar nada, sem
sentir nada. Pouco a pouco, despovoou-se a casa; os amigos saram; um s de
123
tantos ainda ali ficou, a lastimar consigo a noiva, to cedo prometida e to
cedo roubada. Esse mesmo saiu, enfim, no ficando mais do que a famlia,
cujo pai espiritual era Melchior.
Sozinho com Estcio, o capelo contemplou-o longo tempo; depois, alou
os olhos ao retrato do conselheiro, sorriu melancolicamente, voltou-se para o
moo, ergueu-o e abraou com ternura.
 nimo, meu filho! disse ele.
 Perdi tudo, padre-mestre! gemeu Estcio.
Ao mesmo tempo, na casa do Rio Comprido, a noiva de Estcio,
consternada com a morte de Helena, e aturdida com a lgubre cerimnia,
recolhia-se tristemente ao quarto de dormir, e recebia  porta o terceiro beijo
do pai.
***********

